A Menina Só Pediu Pão Mas Foi Chicoteada Pelo Fazendeiro — Lampião Soube e a Vingou
Ô, minha gente, senta aqui perto que eu vou contar um causo doido daqueles que a gente escuta calado e arrepiado. Uma menina só queria pão, mas o que ela ganhou foi o couro do lombo. Só que Lampião soube e quando ele sabe, justiça vem a galope. Me diga aí de que canto você tá ouvindo essa prosa e bora pro causo de hoje, que esse é dos bão.
O sol daquele fevereiro já vinha queimando desde cedo, sem piedade, com a fúria de quem quer arrancar pele só no olhar. O vento era seco, arrastando poeira e maldição pelas trilhas do sertão, como quem sopra castigo. E lá, no fim de uma vereda esquecida do mapa, estava a tapera de Maria Caetana e sua filha Zulmira, uma menina de 12 anos, corpo franzino, mas olhar valente.
Moravam só as duas, desde que a febre do gado levou o marido e pai, enterrado com três cruzes tortas no fundo do quintal seco. A comida já tinha acabado fazia dois dias. Restava só o silêncio do estômago e o barulho do vento. Maria, deitada na esteira, com febre e os olhos encovados, virou-se pra filha e disse com voz que mal saía.
Vai até a fazenda barracuda, filha. Diz que a gente precisa de um pão só. Um pãozinho só para enganar a fome até chover. Zumira assentiu sem responder, pegou um pano, enrolou nos pés descalços e partiu. Era ainda cedo, mas o sol já batia como punição. Andou por três léguas a passo ligeiro, com o vento lhe trazendo areia nos olhos e o cheiro do curral seco da fazenda.
Quando avistou o casarão da fazenda Barracuda, lá em cima do morro, com suas telhas vermelhas e cercas brancas, o coração da menina bateu mais rápido. Bonifácio Honorato de Melo, o dono da fazenda, era homem temido em quatro municípios. Coronel Velho, de mãos lisas e alma suja, vivia da terra alheia e da desgraça dos outros.
Tinha capangas, jagunços e um chicote de couro cru que usava mais do que a própria fala. Dizia que naquele chão só mandava ele e nem Deus entrava sem pedir licença. Homem de igreja, mas só quando tinha gente olhando. Zumira chegou à porteira com a roupa suada e os olhos ardendo. Chamou nada. Chamou de novo, mais forte.
Foi quando apareceu Julião, o capataz de confiança do coronel. Braço grosso, dente faltando, ódio de pobre nos olhos. Ele olhou a menina com desdém diabo você quer aqui, miserável? Vim pedir só um pão, moço. Minha mãe tá ruim e a gente não come desde anteontem. Ele deu uma risada curta de quem já sabia o fim da conversa, mas foi lá dentro avisar.
Pouco depois, Bonifácio veio vindo com uma bengala na mão e o bigode tremendo de raiva, só de ver pobre na entrada de sua fazenda. Aproximou-se, olhou de cima à menina e bufou. Você veio pedir pão? Só um senhor paraa minha mãe. Bonifácio cuspiu no chão e se virou pro capataz. Julião, ensina para essa aí que aqui não tem esmola.
Zulmira arregalou os olhos, não entendeu de primeira, mas quando viu o capataz tirar o chicote do cinto, o corpo tremeu. Tentou correr, mas a mão do homem foi mais rápida. Agarrou o braço da menina e a jogou no chão de terra batida. Bonifácio assistia calado, os olhos estreitos, os dentes cerrados. vai aprender a nunca mais aparecer aqui peste.
O couro trançado desceu com um estalo que rasgou o silêncio. Zulmira gritou, um grito que subiu pelo céu e voltou com eco. O segundo golpe foi pior. Cortou a blusa fina da menina e deixou a pele riscada de sangue. O terceiro foi interrompido por uma voz feminina vinda da casa. Já chega, coronel. É só uma criança. Era uma das filhas da casa, uma moça nova que espiava por trás das cortinas.

Mas Bonifácio virou-se com o olhar gelado. Volta para dentro, mocinha. Aqui quem manda sou eu. A menina não viu mais nada. Ficou deitada no chão, encolhida, gemendo baixo, o rosto sujo de poeira e lágrimas. O capataz jogou o chicote de lado e cuspiu também. Depois, junto com o coronel, voltaram para dentro do casarão.
A porteira foi fechada com estrondo e Zumira ficou ali sozinha, marcada, como mais uma cicatriz naquele sertão que já nascera ferido. Só que o sertão tem ouvidos e aquele grito tão fino e doído foi levado pelo vento. Passou pelos olhos de um vaqueiro que vendia queijo na feira de Bodocó. chegou na boca de um tropeiro que ia para Araripina e foi parar nos ouvidos de quem nunca deixava injustiça sem resposta: Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.
Estavam acampados numa grota perto da serra das almas, descansando os cavalos e dividindo farinha com carne de sol. Quando o cego cantador contou o que ouvira de um menino, que ouvira de uma mulher, que ouvira de um vaqueiro, Corisco parou de afiar a peixeira. Capitão, parece que o coronel Bonifácio tá batendo em criança faminta.
Lampião ergueu o olhar do fumo que enrolava e disse só: “Qual coronel?” Bonifácio da Barracuda. O que tem armazém cheio de mantimento e pesa na balança para pobre? Esse mesmo. Maria Bonita escutava calada, limpando a espingarda com um lenço florido. Volta seca, deitado no chão, ergueu a cabeça. Dizem que foi por um pão.
Lampião acendeu o cigarro e respirou fundo. Um pão? O bando inteiro ficou em silêncio. No sertão, onde um pão pode ser a diferença entre a vida e a morte, bater numa criança por pedir comida era mais que crueldade. Era convite pra morte. Lampião se levantou, ajeitou o chapéu, pôs o rifle nas costas. Amanhã a gente parte. Vamos ver o que esse coronel tem para dizer.
Corisco sorriu. Aquilo ia feder. O vento soprou mais forte naquela noite. Trazia o cheiro do couro queimado nas costas de uma menina e trazia também um aviso. A justiça vinha a cavalo. No dia seguinte, antes mesmo do sol romper com força no céu rachado, Lampião já estava em pé, arrumando os arreios.
O bando se moveu como máquina ajeitada. Maria Bonita encheu os cantis. Volta seca afiava a faca pequena que chamava de língua do diabo. Zé Sereno contava os cartuchos como quem reza. Corisco, como sempre, estava animado. Sentia no ar o cheiro de vingança. E esse cheiro era o perfume preferido dele. Capitão, vai ser hoje? Vai, mas sem alarde, primeiro quero saber a história toda.
E se for verdade mesmo, aí o couro vai comer. Tomar um rumo pela trilha que levava a Barracuda. Era um caminho seco, margeado por mandakaru e cercado de silêncio. Só o barulho das patas dos cavalos e o assubio ocasional de algum passarinho teimoso. No meio do caminho, encontraram um lavrador de chapéu de palha e rosto queimado do sol. Lampião puxou conversa.
Ô compade, você conhece a fazenda Barracuda? Conheço sim. É logo adiante, depois do açude seco. Mas não vá por lá não. Aquilo é lugar de coronel ruim. Bonifácio é bicho. É mesmo? E dizem que ele bateu numa menina? O lavrador coçou a barba e olhou pros lados, como quem confere se o vento vai espalhar a língua dele. Não bateu, quase matou o capitão.
Menina miúda, fina de doer, foi pedir pão, saiu de lá com as costas em tiras. Dizem que nem fala mais, fica só parada, olhando pro nada. Lampião apertou os dentes, olhou pro chão seco e falou como quem morde o próprio pensamento. Então, tá certo. Você é lampião, né? Arriscou o homem com medo e admiração na voz. Sou.
Deus lhe proteja, capitão, porque aqui no sertão só tem duas coisas que o povo teme, a seca e o senhor. Lampião só assentiu com a cabeça e tocou o cavalo. Passaram pelo açude seco, onde só tinha lama dura e ossada de bicho. Viraram a curva do caminho e avistaram a fazenda, grande, cercada, com casa branca no alto, torre de sino no galpão e um silêncio suspeito no terreiro.
Era aquele silêncio de lugar onde a injustiça mora de porta aberta. “Quantos jagunços tem lá, capitão?”, perguntou o Zé Sereno, ajeitando a cartucheira. “Uns 20, mas coragem mesmo, só uns quatro. E o coronel? Esse é traiçoeiro, mais perigoso que cobra escondida. Lampião mandou que o bando parasse no pé do morro.
Ele, Maria Bonita e Corisco, subiram devagar até a sombra de um mandacaru alto. De lá, dava para ver o movimento. Um jagunço andava de um lado pro outro no curral. Dois moleques lavavam o alpendre e ali num canto, sentada na beira do chiqueiro, estava ela Zira, sozinha, de vestido remendado, com os olhos secos. Nem piscava. O sol batia na cabeça dela, mas ela nem sombra parecia ter, só olhar vazio.
Um pedaço de pano cobria as costas, mas por baixo dele dava para ver o vermelho das feridas. Maria Bonita pôs a mão na boca, murmurando: “Misericórdia! Isso é crime contra a alma viva. Crime que vai ser cobrado”, respondeu Lampião. Voltaram pro bando e se reuniram atrás de um rochedo. Lampião desenhou o mapa da fazenda na areia com um graveto.
Explicou cada ponto, cada homem, cada caminho de fuga. Mas não é hoje. Hoje a gente planta o medo. A justiça vem depois, no tempo certo. Quero ver se esse coronel tem palavra. E se não tiver? perguntou Corisco com a peixeira já no jeito. Aí o nome dele vira vento e o corpo adubo. Montaram acampamento perto de uma grota com sombra.
Lampião mandou Volta Seca entrar na vila disfarçado para saber mais. O rapaz era bom nisso. Levava uma trouxa de pano nas costas e cara de tonto. Passou pelo povoado e voltou à noitinha suado, com os olhos arregalados. Capitão, o povo tá de medo. Dizem que Bonifácio já mandou chamar reforço uns jagunço de fora e a menina tá em coma, segundo a mãe.
E a mãe tá doente. Parece que num vai aguentar muito. Lampião ficou em silêncio. Pensava. A raiva era bicho dentro do peito dele, querendo sair. Mas ele sabia esperar. Sabia que no sertão quem planta vingança apressada colhe só tragédia. A gente vai esperar mais um dia. Quero que ele pense que escapou. E a menina? Vamos ver ela agora.
Foram três. Lampião, Maria Bonita e Zé Sereno. À noite, como sombra, entraram na tapera de Maria Caetana. A velha mulher estava na rede gemendo baixo. Quando viu Lampião, quis se levantar, mas ele fez sinal com a mão. Fica, mãe. Só viemos saber como tá. É a senhora que é mãe da menina que apanhou? É sim, Zulmira, minha florzinha.
Foi pedir pão, voltou feita bicho machucado. Não fala mais, não chora. Lampião se ajoelhou ao lado da rede, onde a menina dormia ou fingia dormir. Olhou bem para ela e ali, mesmo em silêncio, sentiu. Aquela menina tinha o sertão nos olhos. Era seca, era dor, era fogo que ainda ia queimar. A senhora precisa de remédio, mãe.
Remédio num cura alma ferida, capitão. Maria Bonita deu um cantil de água e uma manta. Lampião deixou três moedas de prata no chão batido, sem falar nada. Ao sair, Lampião olhou paraa lua minguante no céu e disse: “Amanhã a gente prepara, depois, depois a justiça vem. Agora me diga, meu povo, você já viu injustiça dessas em sua terra? Conhece alguma história parecida? Me conta nos comentário e bora proar, que no sertão até silêncio tem voz.
E não se avexe não. Se esse causo tá lhe mexendo com o juízo, deixa seu like e espalha pro mundo. No outro dia, quando o sol mal tinha apontado entre as serras, o coronel Bonifácio acordou com o barulho das galinhas alvor. çadas e dos cavalos relinchando o feito tivessem visto coisa ruim.
O galo nem tinha cantado direito e já havia gente coxixando nos cantos da casa grande. As criadas andavam rápidas, os jagunços vinham armados de espingarda e Julião, o capataz, limpava o suor do bigode grosso, mesmo sem ter feito força. O motivo era um só. Diziam que Lampião tava na região. Um vaqueiro que vinha da feira de Juazeiro contou, suando mais que chaleira no fogo: “Eu vi, coronel, vi com meus olhos lampião, corisco, maria bonita, tudo montado indo pras bandas da Serra das Almas”.
O povo da feira disse que foi por causa da menina que levou chicote aqui na fazenda. Bonifácio se levantou da cadeira, deu um murro na mesa e gritou: “Isso é mentira. Cangaceiro nenhum vai dizer como eu trato minha propriedade”. Mas no fundo, no canto escuro da alma, ele sabia que a história era verdade e o medo começava a espremer o coração dele.
Coronel de nomes, sim, homem de muitas terras, sim, mas coragem mesmo só mostrava contra pobre e criança. Diante de homem feito e armado, já era diferente. Julião, reúna os cabras. Quero todos armados. Mandei chamar reforço de Jaguaruana. Se Lampião botar o pé aqui, vai morrer. E se não for só ele, patrão? E se for o bando inteiro? Pois que venham.
Quero ver se esse virgulino é macho mesmo. Enquanto o coronel inflamava seu orgulho, Lampião já conhecia os caminhos da fazenda como se fosse sua. Passou o dia observando, escondido entre as pedras, estudando cada passo dos jagunços, os horários, o revezamento, o canto onde guardavam munição, até os pontos cegos da varanda. Na hora do almoço, dois moleques que vinham da venda foram pegos pelo bando e levados até a grota.
Vocês moram na fazenda? Moramos sim, senhor. E sabem dizer onde o coronel guarda as armas? Os moleques, tremendo mais que vara verde, apontaram o galpão velho atrás do paiol. Lá, capitão, é onde eles botam tudo. Espingarda, munição, faca. E a menina, aquela que foi surrada. Como tá? Tá calada. Parece boneca quebrada.
Lampião deu uma moeda para cada um e fez sinal com a mão. Os meninos sumiram entre os arbustos. Corisco coçou o queixo e falou: “Capitão, o povo da vila já tá tudo falando. Dizem que o coronel vai tentar fugir de noite, que vai levar o ouro e se esconder na casa do cunhado em Ipube. Não vai ter tempo”, disse Lampião.
Primeiro quero que ele saiba o que é ser vigiado. Quero que o nome dele vire medo. Amanhã a gente vai na vila fazer a visita. E assim foi. No amanhecer do outro dia, enquanto Bonifácio ainda comia bolo de milho e carne de sol no Alpendre, o bando entrou na vila devagar, sem pressa. Primeiro foi Cisco, que apareceu na venda, pediu cachaça, pagou com moeda de prata.
Depois, Maria Bonita passou na beira do açude, conversou com umas mulheres que lavavam roupa e deixou um recado. Diz para dona Maria Caetana que logo mais a visita chega. Lampião chegou por último, entrou na vila montado, sem esconder o rosto. O povo parou. Uns se esconderam, outros se aproximaram.
Um menino pequeno puxou o gibão de volta seca e perguntou: “O senhor é lampião?” Sou. É verdade que o senhor mata coronel ruim?”, volta seca, olhou pro capitão. Lampião sorriu de canto e respondeu: “Só os que merecem”. Na feira ninguém vendia, nem comprava, só olhava. E Lampião, andando entre os bancas vazias, viu o medo se misturar com esperança no rosto do povo.
Era como se dissessem: “É hoje”. Era como se o próprio sertão tivesse prendido a respiração. Lampião não ficou mais de meia hora, só o tempo de ser visto, só o tempo de deixar o recado. Voltou paraa grota e reuniu o bando. Tá tudo pronto. Amanhã é dia de ajustar as contas. E a menina? Perguntou Maria bonita, vai estar lá? E se não tiver? Aí o coronel vai me explicar por escondeu.
Naquela noite, enquanto a lua cortava o céu igual peixeira no couro, Bonifácio não dormiu. Mandou dobrar a guarda, reforçar os portões, esconder o dinheiro do cofre embaixo do altar da capela, mas nada adiantava, porque o que Lampião trazia não era só bala e faca, era o peso de todos os gritos que o sertão jacalou.
Zumira, a menina que apanhara por pedir pão, estava na tapera, sentada no escuro com a cabeça no colo da mãe. Maria Caetana rezava baixo, sem saber a quem. Talvez a Deus, talvez ao cangaceiro. Tanto fazia. No sertão, fé e medo andam de mãos dadas. Filha, se você quiser fugir, a mãe ajuda. Mas mesmo calada, sacudiu a cabeça. Não ia fugir.
E nos olhos dela, um brilho voltou a aparecer. Não era lágrima, era fogo, era sede de resposta. Na grota, Lampião limpava o Winchester com a camisa. Zé Sereno afiava a peixeira. Corisco cantava baixinho uma moda triste, daquelas de cortar o vento. Maria Bonita se aproximou. sentou perto do capitão e falou: “Vai dar certo, vai?” “E se ele reagir? Aí a história termina de um jeito mais bonito e se o povo tiver medo, então a gente mostra que coragem também se aprende.
A noite passou em silêncio e quando o galo da vila cantou pela segunda vez, o bando já estava montado. Lampião, com o chapéu de couro alinhado e a cara de quem já viu demais, olhou pro sol nascendo e disse: “Hoje o sertão vai ouvir um grito diferente. O dia nasceu pintado de sangue no céu, com uma vermelidão que não vinha de poesia, mas de prenúncio.
Era como se o próprio tempo tivesse parado para ver o que ia acontecer. No terreiro da fazenda Barracuda, os galos nem cantaram, os bois não mugiam, as galinhas caladas no poleiro como se sentissem no bico que ali o perigo já tinha pousado. Bonifácio já estava de pé desde antes da aurora, olhos fundos. sem dormir, passava de um lado para outro na varanda, a bengala batendo firme nas tábuas de madeira.
Julião, o capataz, andava ao lado feito cão de guarda, olhos nas janelas, a mão sempre perto da arma. Patrão, tem notícia que os cangaceiros estão vindo hoje. Já mandei armar tudo. Capricho nas armadilhas. Se vierem, vão cair feito tatu no buraco. E se eles forem mais que a gente? Aqui é minha casa, Julião.
Aqui ninguém manda em mim. Mas o tom dele não tinha mais a segurança de antes. Era a voz de quem tenta convencer a si mesmo, porque por dentro ele sabia. Lampião não vinha para conversar. Do outro lado do sertão, a comitiva de Lampião se formava em silêncio, cada um selando seu cavalo como quem veste armadura.
O couro estalava, o sol subia e o suor já começava a descer pelas têmporas dos homens. Maria Bonita ajeitou o lenço no pescoço, os olhos duros. Volta seca benzeu o rifle. Corisco afiava a peixeira em silêncio, sem pressa, como quem afia o destino. Lampião chamou todos perto da fogueira apagada e falou baixo, como sempre fazia antes da guerra.
Vocês sabem porque estamos indo? Ninguém respondeu. Só os olhos assentiram. Não é por ouro, nem por vingança minha. É por uma menina que pediu pão. É por todas as outras que apanharam sem merecer. Hoje a bala tem nome e o nome é justiça. A ordem foi dada. Saíram montados pela trilha que contornava o riacho seco. O sol ia alto, castigando o lombo dos cavalos.
No meio do caminho, uma mulher velha com um lenço sujo na cabeça os parou na beira da estrada. Trazia um saco nas costas e olhos miúdos. Capitão, disseram que vai ter sangue hoje. Vai sim, mãe, mas só de quem merece. Pois então, leve isso. Ela entregou uma garrafa com pinga e um pedaço de pão velho embrulhado num pano pra menina. Aquela da surra.
Ela não fala mais, mas ainda come. Lampião pegou o embrulho e guardou com cuidado no bornal de couro. Depois seguiu em frente, sem olhar para trás, porque naquele momento até o passado doía demais para ser olhado. Chegaram na entrada da fazenda perto do meio-dia. O calor era tanto que o chão tremia. Lampião mandou o bando se espalhar, esconder nas moitas, ficar de tocaia.
Só ele, Maria Bonita e Zé Sereno, seguiram pela estrada principal de cara limpa, como quem visita parente. A porteira da fazenda já estava aberta. Bonifácio esperava na varanda de fuzil no colo. Ao lado dele, uns sete jagunços todos armados, mas nenhum com firmeza nos olhos. Capitão Lampião! disse o coronel com a voz carregada de veneno.
Coronel Bonifácio, que honra receber visita sua. Não é honra, é cobrança. Bonifácio apertou os olhos, se levantou com a bengala e desceu devagar os degraus da varanda. Veio cobrar dívida. É, vim cobrar respeito. Isso aqui é minha casa e essa terra é de Deus. Mas ele não bate em criança. O coronel se engasgou com a saliva.
Maria Bonita tirou o lenço do rosto, olhou nos olhos do homem. Bonifácio recuou um passo. “Cadê a menina?”, perguntou Lampião. Menina nenhuma aqui. Já foi embora. A gente pergunta, coronel, e quem mente para cangaceiro cava cova com a língua. Foi quando um dos jagunços da casa soltou sem querer. Tá lá no quartinho nos fundos.
Bonifácio girou o corpo com um ódio nos olhos. Calha a boca, seu besta. Lampião não precisou mais. Com um sinal, Zé Sereno correu até os fundos da casa. Voltou minutos depois, suando. Tá lá, sim, deitada, ferida ainda. Lampião respirou fundo, depois olhou pro céu, depois pro coronel. Coronel, vou lhe dar uma chance.
Chance para quê? Para dizer com sua boca que se arrepende. Bonifácio cuspiu no chão. Eu não me arrependo de nada. Menina atrevida, pedinte, veio se meter onde não devia. Aqui não é casa de esmola. Lampião olhou ao redor. Os jagunços do coronel estavam calados, muitos com os olhos baixos. Sabiam que o patrão era valente só com gente fraca.
Um deles chegou até aguardar a arma no coudre. Maria Bonita cruzou os braços. O povo dessa terra vai lembrar desse dia disse ela. Vão lembrar que ninguém manda aqui além de mim, berrou Bonifácio. Lampião sorriu até hoje. Com um gesto assobiou. E dos matos ao redor saíram volta seca, corisco, labareda, saracura, mergulhão e candeiro, todos armados.
Formaram um semicírculo ao redor da casa. Os jagunços de Bonifácio recuaram, dois saíram correndo. Os outros não sabiam se atiravam ou rezavam. Bonifácio tremia, mas não abaixava a cabeça. Foi até o meio do terreiro, encarou Lampião. Vai me matar por causa de uma mendiga? Lampião tirou o rifle das costas e apontou. Vou fazer pior.
Vou deixar você viver sabendo que perdeu. E se tentar levantar a voz de novo contra pobre, eu volto. Bonifácio tentou rir, mas só saiu um gemido. E o que quer então? Quero a menina aqui agora. Quero olhar no olho dela e perguntar se quer justiça com as próprias mãos ou se deixa por minha conta.
Ela é doente, tá de cama, ela tá viva e isso já basta. O coronel hesitou, mas com o bando cercando não teve escolha. Mandou buscar Zulmira. A menina veio amparada por uma mulher idosa coberta com um pano, os olhos fundos, o rosto queimado de sol. Mas em pé, Lampião se aproximou dela, tirou o embrulho do bornal e entregou o pedaço de pão velho.
Você veio aqui por isso, né? Ela assentiu devagar, depois olhou pro coronel e então, pela primeira vez em dias, abriu a boca e disse com a voz rouca: “Ele vai pagar?” Lampião respondeu: “Só se você quiser.” Ela olhou pro chicote pendurado na cintura de Julião. Quero. E ali o sertão parou de respirar. O silêncio do sertão ali naquele instante parecia de morte anunciada.
O sol alto no céu batia sem sombra, como se o mundo parasse para assistir o juízo final de um homem que achava que era dono da terra e dos outros. Zumira segurava o chicote na mão miúda, o braço ferido tremia, mas o olhar era firme, doído, afiado como peixeira. Do lado dela, Lampião estava imóvel, com os olhos cravados no coronel Bonifácio, que mantinha o queixo erguido por fora, mas por dentro já era só medo.
Julião, o capataz, ainda gemia no chão, a camisa em tiras, o lombo aberto de tanto laço. O povo em volta segurava a respiração. Era o sertão inteiro parado esperando o que vinha. Zumira apontou pro coronel com o dedo, a mão suja de sangue e poeira. Foi. Ele mandou. Disse que pão era só para quem podia pagar e eu só pedi para minha mãe não morrer.
Lampião olhou pro coronel. O homem não recuava, mas os olhos piscavam demais, como quem procurava uma saída que não existia. “Vai fazer o que agora, capitão? Vai deixar a menina bater de novo?”, zombou Bonifácio, tentando disfarçar o medo com arrogância. Lampião respondeu sem mudar o tom. Ela já deu o troco que a alma dela precisava, mas a justiça do sertão precisa mais.
E então ele se virou para Zumira, pegou com cuidado o chicote da mão dela e botou na bainha da cintura, como quem guarda relíquia. Depois puxou o revólver devagar, sem pressa. O tambor girou com um estalo seco. O povo se afastou dois passos, mas Lampião não apontou de imediato. Ele andou até o coronel, cara, os dois respirando o mesmo ar quente.
Olhou fundo nos olhos dele e perguntou: “Você se arrepende?” Bonifácio os dentes. Arrependo de não ter mandado matar logo a peste da menina. Zumira deu um passo à frente, os olhos arregalados de raiva nova. Lampião deu espaço, tirou do coldre a peixeira e entregou para ela. A menina pegou sem hesitar.
Olhou pra lâmina como se visse o reflexo do passado todo. Foi até o coronel. Ele riu. Vai me matar, menina. Nem força tem. Zumira ergueu a faca com as duas mãos, mirou o peito dele e disse: “Agora eu tenho” e cravou. Um só golpe no ventre, não profundo, mas suficiente para fazer o coronel gritar de dor, cair de joelhos e cuspir sangue.
Lampião, sem emoção no rosto, levantou o revólver e, com a mão firme, apontou pro meio da testa do homem. Esse é pelo sertão. E atirou. O tiro estourou seco, sem eco, mas com o peso de 100 tiros. A cabeça do coronel jogou para trás e o corpo caiu devagar de lado, como se não tivesse mais dono. Sangue escorreu na terra rachada, se misturando a poeira, pintando o chão de vermelho.
O povo ficou mudo. Zumira caiu sentada, a respiração curta, as mãos tremendo. Maria Bonita correu até ela, segurou o rosto da menina, limpou com um lenço. Lampião olhou ao redor. Os jagunços, antes fiéis, estavam todos imóveis. Um deles tirou o chapéu em silêncio, em sinal de respeito. Lampião guardou o revólver, voltou a pegar o chicote e jogou em cima do corpo do coronel.
Agora tá pago. Na moeda que ele mesmo usava. A multidão se aproximou. Mulheres choravam baixinho. Homens coçavam a cabeça sem saber o que dizer. Crianças olhavam pro corpo no chão e paraa menina em pé, como quem via um milagre invertido. Não o que salva, mas o que corrige. Julião ainda respirava caído mais adiante.
Zé Sereno apontou a arma esperando ordem. Lampião só disse: “Deixa, esse vai viver para carregar o peso de ter seguido covarde. Que sofra em vida o que o patrão vai sofrer no inferno.” Volta seca, acendeu um cigarro e murmurou: “Eita, capitão, esse vai correr pelo sertão inteiro.” Lampião olhou para Zulmira.
“O agora escolhe. Quer ir com a gente ou fica?”, Ela pensou, olhou paraa mãe que vinha se arrastando no meio do povo. Maria Caetana abraçou a filha com força. Lampião entendeu a resposta só com o olhar. Pois fique, mas fique grande. Quem enfrenta coronel nunca mais é pequeno. Lampião virou pro povo. E vocês vão deixar outro fazer isso de novo? O silêncio respondeu, mas já não era silêncio de medo, era de respeito, era semente. Corisco montou no cavalo.
Maria Bonita ajudou Zulmira a se sentar no banco da varanda. Zé Sereno carregava as armas. Lampião montou por último. O povo abriu o caminho. Antes de partir, o capitão olhou uma última vez pro corpo no chão, agora coberto por um pedaço de lona jogado por uma lavadeira. o que sirva de aviso para quem acha que pobre não tem valor.
E com isso puxou as rédeas. O bando desapareceu na estrada seca, deixando para trás a imagem de uma menina de 12 anos, suja de sangue e poeira, mas com a cabeça erguida. Bonifácio não seria lembrado como coronel, seria lembrado como o homem que morreu na frente de todos pelas mãos de quem ele achou que podia pisar. E Zulmira, Zulmira viraria lenda.
A notícia correu ligeiro, mais rápida que vento forte em porta de palha. Lampião matou o coronel Bonifácio da Barracuda. E foi a menina quem começou com a peixeira na barriga. Nas feiras, nos alpendres, nas beiras de cacimba seca, o povo contava e recontava com os olhos arregalados e o peito cheio.
Na fazenda, o corpo foi enterrado ali mesmo, sem reza nem caixão, só um monte de terra batida e uma cruz torta escrita a carvão. Aqui jáz quem bateu em criança. Zulmira nunca mais foi a mesma. Cresceu em silêncio, mas o povo falava por ela. Virou exemplo, símbolo, esperança. Gente de longe ia só para ver a varanda onde tudo aconteceu.
E Lampião já estava longe, cavalgando rumo ao nascente, em busca de outro grito abafado. Porque no sertão, onde até a chuva escolhe onde cair, a justiça de verdade ainda anda a cavalo. E naquele canto seco do mundo ficou marcado no chão e na memória. Quando uma menina pediu pão e recebeu o chicote, Lampião chegou com bala e o sertão nunca mais esqueceu.
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