Uma mulher feliz que tinha acabado de conseguir um emprego numa grande empresa, saiu do escritório e, ao reparar uma senhora idosa e faminta, ouviu um pedido fraco. “Minha filha, compra esta imagem de Nossa Senhora. é para eu conseguir comer alguma coisa hoje. Com pena, a mulher comprou comida paraa senhora, mas a idosa de repente sussurrou algo estranho.

Amanhã peça a despedimento desse emprego, mas antes de sair, faça uma coisa. Fernanda Oliveira foi casada com Ricardo durante 8 anos. Durante todo este tempo, ela confiou cegamente no marido que atraía desde o dia do casamento. Ela descobriu isso por acaso e o seu mundo virou de cabeça para baixo.

Fernanda estava a arrumar arrumar caixas com mercadorias novas quando olhou para o relógio. 8 da noite. O Ricardo tinha prometido passar lá depois da reunião com os fornecedores, mas não apareceu. Na verdade, isso era comum. Ele atrasava-se sempre, culpando reuniões importantes ou o trânsito caótico da cidade. Ela passou a mão pela embalagem de cartão, conferindo as etiquetas, pastas, canetas, cadernos, tudo o que tinham encomendado naquela semana.

A papelaria era o projeto de vida do casal, fruto de 8 anos de casamento e dois anos de trabalho árduo. O Ricardo tratava dos fornecedores e do grossista, enquanto Fernanda geria a loja e o atendimento aos clientes. “Só mais três caixas”, murmurou ela, cortando a fita adesiva com um x-ato. “E já posso fechar.” O som da porta da frente a abrir-se a fez saltar de susto. Fernanda virou-se.

forçando um sorriso. “Boa noite, mas nós já estamos fechados”, disse ela educadamente, tentando lembrar-se se tinha virado a pequena placa na porta. Uma mulher de cerca de 50 anos entrou na loja, usava um casaco escuro, parecia simples e tinha um rosto cansado com rugas profundas ao redor dos olhos. Ela parou à entrada, apertando uma bolsa gasta contra o peito.

“Eu sei, é um assunto pessoal.” A voz da mulher soava tensa, como se ela escolhesse as palavras com dificuldade. Fernanda largou o estilete e se endireitou-se, olhando confusa para o desconhecida. “Pessoal?”, perguntou ela, sentindo uma ansiedade crescer no peito. “Sim.” A mulher deu alguns passos em frente. O seu olhar era pesado e penetrante.

“És a Fernanda, a mulher do Ricardo.” O coração de Fernanda falhou uma batida. Ela assentiu sem tirar os olhos da estranha. Sim, sou eu. E a senhora? Ela engoliu em seco. Aconteceu alguma coisa com o meu marido? Os pensamentos dispararam. Acidente, hospital. Ricardo podia estar em perigo. E aquela mulher veio avisar.

Mas porque é que a polícia não ligou? Não. A mulher abanou a cabeça e os seus lábios tremeram. Não aconteceu nada com ele, exceto o facto de a minha filha de 20 anos está grávida dele. Silêncio. Um silêncio ensurdecedor e pesado. A Fernanda ouviu um carro a passar na rua, lá fora. Ouviu a própria respiração ríspida e falha antes de conseguir expelir as palavras.

Isso não pode ser verdade. Pode sim. E como pode? A mulher aproximou-se mais e Fernanda viu lágrimas no rosto dela. Primeiro, este canalha teve um caso com a minha filha mais velha, que trabalhou como empregada de mesa no seu casamento. Ele dormiu com ela no mesmo dia durante a festa. Fernanda sentiu o chão desaparecer sob os seus pés. O casamento há 8 anos.

O dia mais feliz da sua vida. o vestido branco, as flores, os sorrisos dos convidados e Ricardo a sussurrar no ouvido dela o quanto a amava. “Não é possível”, repetiu ela, segurando-se na bordo do balcão. “A senhora está enganada. O Ricardo não faria isso. Fez?” A voz da mulher elevou-se de tom, quase um grito.

A minha Camila tinha 18 anos na época. 18.º Ele levou a menina para o depósito enquanto dançava com os convidados e depois simplesmente desapareceu da vida dela. Ela chorou por meses, mas pensei que ia passar. Achei que tinha acabado. Fernanda sentou-se na cadeira sem forças para estar em pé. As suas mãos tremiam e depois continuou a mulher a enxugar as lágrimas.

Seis anos depois, foi atrás da mais nova, da minha Mariana. Tinha 19 quando se conheceram. Ele dizia que se ia divorciar, que só amava ela. E agora? Sussurrou a Fernanda. Agora o quê? Agora está grávida de 4ro meses. A mulher tirou um envelope amassado da bolsa e atirou-o sobre o balcão. Aqui ficam os exames. Ele recusa-se a assumir a criança.

Diz que não é problema dele. A minha Mariana está sozinha, sem emprego, sem dinheiro. E ele, Fernanda, olhava para o envelope sem coragem de lhe tocar. Eu não sabia, conseguiu dizer. Juro que não sabia de nada. Eu acredito. A mulher limpou o rosto na manga do casaco. Por isso vim até si. Peço-lhe que peça o divórcio. É filho dele.

A Mariana não vai dar conta sozinha. Ela tem medo de ter o bebé sozinha. Medo de a gente não conseguir alimentar a criança. Eu ganho pouco. Não tenho dinheiro para isso. Vai embora, pediu Fernanda baixinho. Por favor, vai-se embora. A mulher parou, olhando-a com súplica. “Mas sai!”, gritou Fernanda, e as lágrimas jorraram dos seus olhos.

“Saia daqui agora!” A mulher recuou para a porta, ainda murmurando algo, mas Fernanda não ouvia mais nada. Ela cobriu o rosto com as mãos e desabou em lágrimas. A porta bateu, o sino da entrada tocou tristemente. Fernanda ficou sozinha no meio da loja. as caixas com mercadoria, as pastas organizadas, as capas coloridas dos cadernos.

Tudo aquilo de repente parece estranho e sem sentido. Ela levantou a cabeça e olhou para o foto na parede, uma foto deles juntos, tirada há dois anos na inauguração da loja. Ricardo abraçava-lhe os ombros, ambos sorrindo. “Então foi no casamento”, sussurrou ela, secando as lágrimas. No dia do nosso casamento, ela levantou-se cambaleante e mecanicamente começou a tirar as coisas das caixas.

As mãos moviam-se sozinhas, mas os pensamentos estavam longe. Cada detalhe daquele dia voltava a à memória com uma dolorosa claridade. Ricardo a desaparecer, dizendo que precisava de ligar para alguém. Ela não deu importância. Parecia tão natural que ele tivesse coisas para resolver mesmo naquele dia, mas ele estava com outra.

A Fernanda terminou de desempacotar a última caixa sem sequer perceber como fez aquilo. Fechou caixa, apagou a luz do depósito, pegou nas chaves com as mãos trémulas e conferiu a fechadura da porta várias vezes. Depois, mais uma vez e mais uma. O carro a aguardava no estacionamento. Fernanda sentou-se ao volante e gelou, olhando para o nada.

O telemóvel estava no banco do passageiro. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem do Ricardo, como sempre. Ela ligou o motor e foi para casa. O percurso demorou 20 minutos, mas ela não lembrava-se de nenhuma curva. só voltou a si quando o carro parou em frente à casa deles, um sobrado num condomínio nos arredores da cidade.

A Fernanda não saiu, logo. Ficou no carro, apertando o volante, tentando perceber como viveria dali para a frente. O que diria a Ricardo? Como olharia nos olhos dele? Finalmente, ela saiu e entrou em casa, vazia, escura, fria. O Ricardo não estava. Ela foi para a cozinha, acendeu a luz e colocou água a ferver. Pegou numa chávena, um saquinho de chá, sentou-se à mesa e ficou a olhar pela janela onde o crepúsculo caía.

Os minutos se arrastavam dolorosamente. A água ferveu. Ela fez o chá, mas não lhe tocou. Pegou o telemóvel. A tela estava vazia. Nenhuma chamada, nenhuma mensagem. Passou-se uma hora. Fernanda continuava sentada e à mesa, segurando a chávena com as duas mãos. O chá já estava frio há muito tempo.

Passou a segunda hora, ela olhou para o telemóvel. 11 da noite. De Ricardo, nem sinal. Ela queria gritar, queria partir alguma coisa, queria ligar para ele e exigir explicações. Mas ela apenas ficou sentada porque não sabia por onde começar. Não sabia como destruir o que construiu durante 8 anos. E em algum lugar da cidade, Ricardo cuidava dos seus assuntos, sem sequer suspeitar que o seu mundo estava prestes a ruir.

Fernanda ouviu o som do carro à entrada perto da meia-noite. O coração disparou. Ela ainda estava sentada à mesa da cozinha. Diante dela estava a terceira chávena de chá frio. As suas mãos estavam dormentes de tanto apertar o telemóvel. A chave rodou na fechadura. A porta abriu-se. Passos no corredor, ritmados, tranquilos.

Ricardo claramente não suspeitava do que o esperava. Olá, querida. Ele apareceu à porta da cozinha, atirando o casaco para as costas da cadeira. Desculpa a demora. Fernanda ficou em silêncio, a olhar para ele. 8 anos de casamento. E ela achava que conhecia aquele homem. achava que podia lê-lo como um livro aberto, mas agora diante dela estava um estranho.

Ricardo dirigiu-se ao lavatório, encheu um copo de água e bebeu de um só trago. Depois virou-se para a sua esposa com um sorriso. Acho que encontrei investidores para expandir o negócio. Imagine só, eles estão dispostos a colocar uma pipa preta. Vamos poder abrir mais duas lojas, talvez até três. Isso é fantástico.

O entusiasmo dele feria os ouvidos dela. Fernanda sentia tudo contrair-se por dentro da dor e da raiva. “Eu sei tudo”, disse ela baixinho, sem desviar o olhar. Ricardo parou com o copo vazio na mão. O quê? Olhou para a esposa e o sorriso desapareceu lentamente do rosto dele. “Eu sei de tudo”, repetiu Fernanda mais alto e a voz dela tremeu.

Ele colocou o copo na bancada e franziu o sobrolho. Sabe do quê? No seu tom havia surpresa, mas Fernanda achou ter captado uma nota de cautela. Ela levantou-se, apoiando as mãos na mesa para não cair. As palavras ficaram presas na garganta, mas ela forçou-se a cuspi-las. Das suas aventuras repugnantes. Eu sei que se divertiu com a empregada de mesa no dia do nosso casamento.

A voz falhou e transformou-se num grito. Sei que a A Mariana está grávida de si. Silêncio. Um silêncio longo e pesado. Ricardo ficou imóvel e Fernanda viu os olhos dele correrem de um lado para o outro. Primeiro para a direita, depois pára na esquerda, como se procurasse uma saída. Ele lambeu os lábios.

Quem te contou este absurdo? Absurdo? Fernanda gritou e agarrou o bordo da mesa. A mãe daquelas meninas veio procurar-me. Ela contou-me tudo. Tudo, Ricardo. Sobre a Camila, que trabalhou como empregada de mesa no nosso casamento. Sobre como a levou para o depósito enquanto eu dançava com os convidados.

E depois, se anos mais tarde, foste atrás da irmã mais nova dela. Ela só tem 20 anos. Como poôde? Ricardo recuou até à parede e ela viu algo lhe passar pelo rosto. Medo, irritação. Abriu a boca, mas não disse nada. O quê? Não tem nada a dizer. A dizer? Continuou Fernanda, sentindo as lágrimas embaciarem a visão. 8 anos, Ricardo. 8 anos. Eu acreditei em ti. Amei-te.

E você? -lhe esse tempo todo. Fernanda, escuta. Ele falou finalmente, dando um passo em frente. Não é o que está pensando. Esta mulher, ela ela só quer dinheiro. É chantagem, percebe? Chantagem. Fernanda riu histericamente com dor. Então não nega que dormiu com elas? Ricardo calou-se. O maxilar dele ficou tenso.

Ele passou a mão pelo cabelo. Foi há muito tempo. Não significou nada. Não significou nada. Fernanda sentiu as pernas fraquejarem. Ela sentou-se novamente na cadeira. Não significou nada. Traíste-me no dia do nosso casamento. Foi um erro. Ele se aproximou-se e a voz dele tornou-se mais suave, convincente. Eu estava bêbado. Simplesmente aconteceu.

E esta menina, a Mariana? Sim, tivemos um caso, mas eu não sabia que ela ia engravidar. O o problema é dela, não meu. Fernanda olhava para ele sem acreditar no que ouvia. O homem que ela amava, com quem casou estava ali à frente dela, dizendo aquelas coisas, e nem uma gota de arrependimento nos olhos. Problema dela! Sussurrou ela.

É o seu filho, Ricardo meu. Como sabe? Resmungou ele. Talvez ela tenha dormido com outro. Estas raparigas sempre procuram alguém para empurrar os filhos. Cala a boca. Fernanda levantou-se de um salto, derrubando a cadeira. Cala-te agora. Eu não te quero ouvir. Ricardo cruzou os braços e esboçou um sorriso de deboche.

E aquele sorriso foi a gota de água. “Eu vou pedir o divórcio!”, gritou Fernanda, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto. “Pega nas tuas coisas e sai daqui agora”. “Oh, não.” Ele abanou a cabeça e o sorriso aumentou. Se quer tanto assim, sai você. Eu não vou sair daqui. Fernanda paralisou, olhando para ele.

Seria aquele o mesmo Ricardo, que oito anos atrás jurou o amor eterno? Aquele que prometeu protegê-la e cuidar dela? Esta é a minha casa! Continuou ele calmamente. Eu fico aqui e tu, se queres o divórcio, pode arrumar as suas coisas.” Ela virou costas e correu para o quarto. As mãos tremiam tanto que ela mal conseguiu abrir o guarda-roupa.

Fernanda pegou na primeira mala que viu e começou a atirar as roupas para dentro. Jeans, t-shirts, roupa interior, tudo misturado sem escolher. As lágrimas atrapalhavam a visão e ela não via o que estava a apanhar. “Fernanda, não seja parva.” A voz de Ricardo vinha do corredor. “Para onde vai a essa hora?” Ela não respondeu.

Foi ao casa de banho, deitou os seus cremes, champô e escova de dentes na necesser, voltou para o quarto e fechou a mala. Fernanda Ricardo estava à porta, a observá-la. Sabe que isso é loucura. Vamos conversar amanhã quando se acalmar. Acalmar-me? Ela virou-se para ele e na voz dela havia tanta fúria que ele recuou um passo.

Quer que eu me acalme depois do que fez? Eu não fiz nada que valha a pena destruir uma família, soltou-o. Não faça um escândalo por disparates. Fernanda pegou na mala e passou por ele sem lhe olhar para a cara. O Ricardo não tentou impedi-la. Ela ouviu-o suspirar e resmungar algo para si próprio. No rall de entrada, ela vestiu o blusão, pegou as chaves do carro e correu para a rua.

O ar frio da noite bateu-lhe no rosto, mas ela não sentiu. Entrou no carro, atirou a mala para o banco de trás e ligou o motor. As mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o volante. Fernanda saiu do condomínio e acelerou pelas ruas vazias da noite. As lágrimas atrapalhavam a visão da estrada e ela quase invadiu a contramão algumas vezes.

O apartamento da mãe ficava do outro lado da cidade. A Fernanda chegou lá em meia hora, embora normalmente demorasse 40 minutos, estacionou em frente ao edifício, pegou na mala e subiu até ao quarto andar. Tocou à campainha uma vez, duas, três. Finalmente uma voz sonolenta veio de dentro. “Quem é? Mãe, sou eu.

” A voz de Fernanda saiu rouca. A porta abriu-se. A Dona Marta estava de robe, com o cabelo despenteado, apertando os olhos por causa da luz do corredor. Filha, o que aconteceu? A surpresa na voz dela mudou para preocupação quando viu o rosto da filha. A Fernanda entrou e desabou no ombro da mãe. “Mãe, vou-me divorciar-se do Ricardo”, soluçava ela.

Aquele canalha traiu-me todos estes anos, até no dia do nosso casamento. A Dona Marta abraçou a filha e levou-a para a cozinha. Sentou-a à mesa e ligou a chaleira. “Querida, tens a certeza do que estás dizendo?” Ela sentou-se em frente a Fernanda, segurando-lhe as mãos. Vocês viveram oito anos juntos.

Tem um negócio juntos. Não pode deitar tudo para o ar assim. Talvez vha a pena tentar se entender. Perdoá-lo. Fernanda levantou a cabeça e olhou para a mãe. Pererdoar? Ela puxou as mãos. Mãe, estás-me ouvindo? Traiu-me até no dia do nosso casamento. E eu devo perdoar, filha. É a vida. Dona Marta abanou a cabeça.

Todos os homens agem assim, até o seu pai. O quê? Fernanda paralisou. O pai também traía? Bom, a mãe desviou o olhar. Desviou o olhar. Tiveram alguns casos, mas eu perdoei. Vivemos juntos 28 anos até ele falecer. A família é mais importante que tudo. Não acredito. Fernanda recostou-se na cadeira. Sabia que o pai traía e ficou calada? Eu preservei a família.

Na voz da dona Marta soou um tom de mágoa. Eu não queria que crescesses sem pai. Foi o meu sacrifício por ti. Sacrifício? Fernanda riu-se entre as lágrimas. Mãe, isto não é sacrifício, é humilhação. Você deixou-o pisar em você. Fernanda, como se atreve a falar assim? Gritou a mãe. E você, como se atreve aconselhar-me a perdoar um traidor? Fernanda levantou-se quase derrubando a cadeira.

Se gostava de aturar as traições do pai, o problema é seu. Eu não vou fazer isso. A Dona Marta empalideceu. Eu tentei ajudar. Não precisa, disse Fernanda entre dentes. Simplesmente não precisa. Ela pegou na mala e foi para o seu antigo quarto, empurrou a porta e parou à entrada. Tudo ali estava exatamente como há 8 anos, quando ela saiu de casa.

O papel de parede cor-de-rosa que ela mesma tinha escolhido, o cartaz banda favorito na parede, a estante com livros, a cama estreita com a colxa florida. Fernanda atirou a mala para o chão e caiu na cama. O travesseiro cheirava a roupa, a roupa velha e pó. Ela enterrou o rosto no tecido e chorou baixo, sem esperança. Através da parede vinham sons abafados.

A mãe fazia algo na cozinha, depois foi para o quarto dela. Tudo ficou em silêncio. Fernanda ficou deitada no escuro, a olhar para o teto. Os pensamentos giravam na cabeça, impedindo-a de dormir. Ela lembrava-se do casamento, o vestido branco, o bouquet de rosas, a primeira dança. Ricardo sussurrando o quanto amava e depois desaparecendo durante meia hora disse que precisava de atender atender uma chamada importante.

Ela não deu importância e estava com outra. As lágrimas voltaram a cair. Fernanda chorou até dormir de exaustão. De manhã ela acordou acordou com a cabeça pesada e os olhos inchados. A Dona Marta já estava na cozinha a tomar café e a ler o jornal. Quando a Fernanda entrou, a mãe levantou o olhar. Bom dia. A voz dela estava tensa. Bom dia.

Fernanda foi até à pia e encheu um copo de água. Acalmou-se?”, perguntou a mãe com cautela. “Sim, Fernanda bebeu alguns goles. Estou a ir dar entrada com o divórcio.” Dona Marta suspirou, mas não disse nada. Fernanda vestiu-se, pegou na bolsa com os documentos e saiu do apartamento. Foi até ao fórum e apresentou o pedido de divórcio.

A funcionária, que recebeu os documentos, foliou os papéis com tédio e carimbou. Vai chegar uma notificação com a data da audiência”, disse ela num tom monótono. Fernanda assentiu e saiu para a rua. Pegou o telemóvel e marcou o número de Ricardo. Atendeu no terceiro toque. “Fala.” A voz dele soava irritada. “Eu dei entrada no divórcio”, disse Fernanda.

“Precisamos de discutir a partilha dos bens.” Pausa. Depois Ricardo riu-se. “Tudo bem. Vamos encontrar-nos amanhã na loja. Discutimos tudo com calma. Amanhã, às 2as da tarde, Fernanda desligou sem esperar resposta. No dia seguinte, encontraram-se na papelaria. Ricardo estava sentado à secretária no escritório dos fundos, mexendo em papéis.

Quando Fernanda entrou, ele levantou a cabeça e esboçou um sorriso forçado, falso. “Olá, senta aí.” Ele apontou para a cadeira à frente. Fernanda sentou-se, segurando um bloco de notas. Vamos ao que interessa”, começou ela. Abrimos a loja em conjunto, investimos igualmente. Assim, dividimos meio a meio. “Concordo”, assentiu Ricardo.

“A casa também, meio a meio.” “Certo, Fernanda” anotou. “Os carros, cada um fica com o seu,”, sugeriu. “Fechado.” Ela levantou o olhar e o dinheiro nas contas, meio a meio. O Ricardo deu de ombros. Eu não sou ganancioso. Fernanda franziu o sobrolho. Tudo estava a correr fácil demais. O Ricardo concordava com tudo.

Sem discutir, aquilo não se parecia com ele. “Tem a certeza que concorda?”, perguntou ela novamente. “Claro.” Ele abriu mais o sorriso. Somos pessoas civilizadas. Para quê fazer a guerra? Fernanda não sabia nessa altura que a guerra estava apenas a começar, que em alguns meses ela estaria numa sala de tribunal vendo o melhor advogado da cidade, contratado por Ricardo, provar que o negócio pertencia apenas a ele, que todas as poupanças eram mérito dele, que a casa estava em seu nome desde antes do casamento e que o capital

investido era herança de família. Mas nesse dia ela acreditou nele. Acreditou que ele manteria a palavra e esse foi o maior erro dela. Do dia do julgamento até agora, passaram meses. Seis longos meses em que Fernanda tentou juntar os cacos da sua vida. O tribunal foi um golpe cruel. O advogado de Ricardo apresentou documentos comprovativos que foi o cliente dele que vi investiu os fundos principais no negócio e que a casa já era dele.

Fernanda ficou sem nada, excepto o carro velho e algumas caixas com artigos pessoais. Agora ela vivia no seu quarto de infância no apartamento da mãe, e cada dia era um recordação da sua derrota. Eu avisei-te. A Dona Marta estava à porta do quarto, de braços cruzados. Eu disse que vocês tinham um negócio em conjunto, que não podia levar tudo para o divórcio, mas não se me ouviu.

Fernanda estava sentada na velha secretária, olhando anúncios de emprego no portátil. Ela serrou os dentes, tentando não reagir às palavras da mãe. “Você disse que vocês tinham combinado”, continuou a mãe entrando no quarto. “Que estava tudo sob controlo e agora? Está ali, sem emprego, sem dinheiro.” “Mãe, chega.

” Fernanda virou-se na cadeira e na voz dela soou tanta raiva que a dona Marta recuou um passo. Já me cansei dos seus sermões. Eu só quero que compreenda. Eu entendo tudo gritou a Fernanda. Entendo que cometi um erro confiando nele. Entendo que fiquei sem nada, mas as suas críticas não ajudam. Não ajudam em nada.

Dona Marta apertou os lábios e saiu do quarto batendo com força a porta. Fernanda cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo, tentando acalmar-se. Nas últimas semanas, ela tinha enviado dezenas de currículos. Poucas respostas chegavam e as que chegavam terminavam em recusas após as entrevistas. Ela tinha experiência no comércio, mas 8 anos em a sua própria loja não impressionavam os empregadores.

Eles procuravam pessoas com experiência em grandes empresas, com recomendações, com diplomas de faculdades de prestígio. A Fernanda voltou a olhar para as vagas. Rolava os anúncios um após o outro. vendedora, rececionista, gestor de vendas, em todo o lado exigiam experiência que ela não tinha no formato certo. O telefone tocou quando ela já estava pronta para fechar o portátil e desistir por hoje. Número desconhecido.

Olá, atendeu ela, cansada. Olá, falo com a Fernanda Oliveira. Uma voz feminina soava profissional, mas amigável. Sim, sou eu. O meu nome é Juliana. Sou do grupo Aliança. Você candidatou-se à a nossa vaga de assistente da direção. Gostaríamos de o convidar para uma entrevista. O coração de Fernanda deu um salto.

O grupo Aliança era uma das maiores empresas da cidade, lidando com importação e comércio por grosso. Ela lembrava-se de ter enviado o currículo para lá uma semana atrás, mas já não tinha esperanças. Claro, respondeu ela rapidamente. Quando seria bom para vocês? Amanhã às 2as da tarde. Pode ser? Sim. Ótimo.

Fernanda pegou numa caneta e anotou o endereço que Juliana dititou. Quando a chamada terminou, ela ficou alguns minutos sentada, a olhar para o nada. Finalmente, finalmente alguma chance. No dia seguinte, Fernanda acordou cedo, embora a entrevista fosse só às duas. Ela demorou a escolher a roupa, decidindo-se por um fato preto sóbrio.

Fez uma maquilhagem leve, arranjou, arranjou o cabelo, olhou-se no espelho e tentou transmitir confiança a si mesma. “Vai conseguir”, sussurrou para o seu reflexo. “Você tem que conseguir.” A mãe estava na cozinha a tomar café quando Fernanda saiu do quarto. “Onde vais toda arranjada?” A Dona Marta olhou a filha de cima baixo para uma entrevista”, respondeu Fernanda secamente, servindo-se de chá.

“Hum, a mãe resmungou. Espero que, pelo nesse emprego, não faça asneiras.” A Fernanda trincou os dentes e ficou calada. Não valia a pena começar uma briga antes de uma reunião importante. Ela chegou ao gabinete do grupo Aliança 20 minutos antes da hora. O edifício de vidro e betão erguia-se no centro empresarial da cidade.

Por no interior, um átrio iluminado com piso de mármore, balcão de receção e sofás para visitantes. “Boa tarde, eu sou a Fernanda Oliveira.” Dirigiu-se ela, à rapariga da recepção. Tenho uma entrevista para a vaga de assistente da direcção. Só um minuto. A rapariga digitou no teclado. Sim, estão a te esperando. Sétimo andar, sala 705.

Fernanda subiu de elevador. O corredor do sétimo andar era silencioso e espaçoso. As portas das salas ficavam a uma distância considerável umas das outras. Ela encontrou o número e bateu. Pode entrar. Ela abriu a porta e entrou. Atrás de uma enorme mesa estava sentado um homem de cerca de 50 anos de fato alinhado.

Roberto Mendes, o administrador da empresa, como ela viria a descobrir mais tarde. Ao lado dele estava tal a tal Juliana que ligou ontem, uma mulher com cerca de 40 anos de óculos e com um tablet na mão. Fernanda Oliveira, entre. Sente-se. Roberto apontou para a poltrona em frente. A entrevista durou quase uma hora.

perguntaram sobre a experiência dela, por queria trabalhar ali, os seus pontos fortes e fracos. A Fernanda respondia com honestidade, mas com cautela, tentando não mencionar o divórcio e o processo judicial. Falou da papelaria, do trabalho com clientes, da gestão documental. “Você tem um bom currículo”, disse finalmente Roberto, pousando os papéis.

Experiência no comércio, compreensão de processos de negócios. É exatamente o que precisamos. Fernanda sentiu algo se contrair por dentro de esperança. Estamos dispostos a contratá-lo, continuou ele. Período de experiência de três meses. O salário é o que estava no anúncio. Começa amanhã. Tudo bem para você? Sim.

Fernanda mal se conteve para não gritar de alegria. Claro. Tudo bem. Obrigada. Ela saiu do escritório pisando nas nuvens. Finalmente a vida estava começando a ajeitar-se. Finalmente ela tinha uma hipótese de se reerguer. Já eram quase às 4 da tarde na rua. Fernanda caminhava pela calçada, sem reparar nos peões, imersa nos seus pensamentos.

precisava de comprar uma blusa nova para o trabalho, renovar o guarda-roupa, talvez passar numa loja neste momento. E então, uma voz baixa chamou a sua atenção. Filha, ajuda uma senhora. Fernanda parou. Encostada na parede do edifício, estava sentada uma idosa com um casaco gasto e um lenço na cabeça.

À frente dela, sobre um pano, estava uma pequena imagem de santa. Compra-me esta santinha”, continuou a senhora, estendendo a mão trémula. “É para eu conseguir comer alguma coisa hoje.” Fernanda olhou para a mulher. O rosto era magro, os olhos cansados. Ao lado estava uma caneca vazia para esmolas. “A senhora tem fome?”, perguntou Fernanda baixinho.

Faz três dias que quase não como nada, soluçava a idosa. A reforma é pequena, vai tudo nos medicamentos e a fome aperta. Fernanda abriu a mala e pegou no carteira. Não tinha muito dinheiro, mas não podia passar direto. “Espera aqui”, disse ela. “Eu já volto.” 5 minutos depois, ela voltou com um saco do mercadinho mais próximo.

Pão, fiambre, queijo, leite, algumas maçãs. Estendeu para a senhora. “Toma, toma isto e podes ficar com a santinha.” Eu não preciso. A idosa agarrou o saco com as mãos trémulas e começou a chorar. Obrigada, minha filha. Obrigada. Deus não te vai desamparar. A Fernanda ia a sair, mas a senhora de agarrou-lhe subitamente a mão.

A força naqueles dedos era inesperada. “Espera”, sussurrou ela, olhando bem para os olhos de Fernanda. “Preciso te dizer uma coisa.” “O quê?” Fernanda tentou largar a mão, mas a senhora segurava firme. “Amanhã peça a demissão deste emprego.” A voz dela ficou mais baixa, quase inaudível. Mas antes de sair, faça uma coisa. Fernanda franziu o sobrolho.

Do que a senhora está a falar? Ela olhou para a idosa, para a idosa com mais atenção. Como a senhora sabe do trabalho? Não importa. A senhora abanou a cabeça. O que importa é que precisa de sair de lá amanhã mesmo. Por que razão pediria demissão? Fernanda não entendia. Eu acabei de conseguir a vaga. Faz o que eu estou a dizer.

A senhora puxou-a para mais perto. Só instale uma escuta. O quê? Fernanda tentou puxar a mão e desta vez a senhora a soltou. A senhora está a falar do quê? Mas a idosa já se tinha virado, tirando o pão do saco. Fernanda ficou parada mais alguns segundos, depois saiu andando depressa. Doida decidiu ela, só uma senhora faminta e caduca a dizer asneiras.

Mas aquelas palavras ficaram na cabeça dela como uma farpa. Fernanda pela rua pensando no que ouviu. Pedir demissão amanhã, depois de tanto tempo à procura emprego, era um absurdo, pura loucura. E mesmo assim, ela parou em frente à montra de uma loja de eletrónica. Lá lá dentro, nas prateleiras brilhavam telemóveis, tablets, auscultadores e pequenos gravadores.

A Fernanda mordeu o lábio. É uma estupidez, uma completa estupidez. Mas e se a senhora estiver certa? E se tiver algo de errado mesmo com este trabalho? Ela entrou na loja. O vendedor, um rapaz jovem, com um piercing na orelha, aproximou-se, sorrindo. Olá, posso ajudar? Eu preciso de um gravador”, disse Fernanda, surpreendendo-se com as próprias palavras.

“Um pequeno que dê para esconder” “Para gravar aulas?”, perguntou o vendedor. “Isto para aulas”, mentiu ela. O rapaz mostrou alguns modelos. A Fernanda escolheu o menor de todos, do tamanho de uma caixa de fósforos com fixação magnética. “Grava até 8 horas”, explicou o vendedor. “A qualidade do som é ótima. Pega até até sussurro.

A Fernanda pagou e saiu da loja apertando o saco com o gravador. Tudo aquilo parecia loucura. Ela tinha conseguido um emprego normal numa empresa respeitável. Para que um gravador? Para quê ouvir as neuras de uma velha? Mas lá no fundo crescia uma inquietação. Algum sexto sentido dizia que a senhora não era assim tão doida.

Fernanda acordou antes do despertador. O coração batia forte de ansiedade. Hoje era o seu primeiro dia. Ela vestiu a blusa branca nova e as calças pretas, fez um coque arranjado, passou um batom cor de boca. Antes de sair, abriu a mala e olhou para o pequeno gravador que comprou ontem. Bobeira, parvoíce total levar isso, mas as palavras da idosa não a deixaram em paz toda a noite.

“Está bom”, resmungou ela, mudando o gravador para o bolso interior da bolsa. Só por precaução. A mãe já estava na cozinha quando Fernanda saiu do quarto. E aí, pronta para o trabalho? A Dona Marta olhou para a filha, avaliando. Vê se não passas vergonha logo no primeiro dia. Vou tentar, respondeu Fernanda seca, colocando café no copo térmico.

Ela chegou ao escritório 15 minutos antes do expediente. Juliana recebeu-a na recepção com uma pasta de documentos. Bom dia, Fernanda. Que bom ver-te. Vá lá, vou mostrar-lhe a sua mesa. Subiram para o sétimo andar. O local de trabalho da assistente ficava numa pequena sala ao lado do gabinete de Roberto Mendes.

Um escritório claro com janela para a cidade, computador novo na secretária, cadeira confortável. Vai trabalhar aqui. A Juliana colocou a pasta em cima da mesa. Aqui tem as instruções, senhas de acesso aos sistemas, lista das as suas tarefas. Se tiver dúvidas, pode perguntar. O senhor Roberto vai estar em reuniões o dia todo, por isso vai poder ambientar-se com calma. Obrigada.

Fernanda sentou-se à mesa e abriu a pasta. A Juliana saiu e a Fernanda ficou sozinha. Ela passou os olhos pelas instruções. Trabalho com documentação, agenda do diretor, marcar reuniões, controlar prazos, nada complicado, tarefas bastante comuns. Ela ligou o computador, introduziu as palavras-passe, abriu o e-mail. Alguns e-mails já a esperavam.

Boas-vindas dos colegas, lembretes de reuniões futuras. Fernanda lembrou-se do gravador, tirou-o da bolsa e ficou algum segundo segurando-o na mão, pensando. Aquilo parecia mesmo paranóia, mas o que ela tinha a perder? Ela baixou-se e colou o gravador com o íman na parte de baixo do tampo da mesa, mesmo no canto fundo. Ligou a gravação.

Agora o aparelho registaria tudo com o que acontecesse naquela sala. O dia começou calmo. Fernanda organizava documentos, atendia o telefone, fazia relatórios. À hora do almoço já se sentia mais segura. O trabalho era claro, os colegas educados. Por volta das 15 horas, entrou na sala uma mulher de cerca de 35 anos. Alta, magra, num fato caro.

Cabelo escuro, apanhado num rabo de cavalo esticado. Maquilhagem forte, andar confiante. É a nova assistente? perguntou ela sem cumprimentar. Sim, o meu nome é é Fernanda. Fernanda levantou-se. E tu és, Vanessa, diretora financeira adjunta. A mulher mediu-a com o olhar. Espero que dure mais do que a anterior.

Anterior? Fernanda franziu o sobrolho. Tivemos três nos últimos seis meses. A Vanessa deu um risinho. Ninguém ficou mais de dois meses. O Roberto é exigente. Mas se der conta, tem carreira garantida. Ela deu meia volta e saiu, deixando um rasto de perfume caro. Fernanda sentou-se devagar. Três assistentes em seis meses.

Por que ninguém falou disso na entrevista? Ela voltou ao trabalho, mas o pensamento não saía da cabeça. Uma hora depois, Vanessa apareceu de novo à porta, desta vez com uma pen drive na mão. Fernanda, preciso que assine estes documentos urgente. Ela estendeu a pen drive. Papéis importantes, contrato com investidores.

A Fernanda pegou no pen drive e ligou-se ao computador. Mas o Roberto não está agora, estranhou ela, abrindo os ficheiros. Não é ele que deve assinar isso? Por isso estou a pedir-lhe. Vanessa apoiou-se na borda da mesa. Você tem acesso à assinatura digital. Precisa ser feito rapidamente, senão vamos perder investidores grandes. A Fernanda abriu o primeiro documento.

O texto era longo, letras miudinhas, termos jurídicos. Ela começou a ler, mas Vanessa batucou com os dedos na mesa com impaciência. “Não tem tempo para ler”, disse ela ríspida. “Só assina. É procedimento padrão. O Roberto mesmo mandou-me te passar isso, mas devia pelo menos olhar. Escuta aqui.

Vanessa inclinou-se para perto e a voz tornou-se dura. Você está aqui no seu primeiro dia. Ainda está em experiência. Se estragar o negócio por causa das tuas dúvidas, vai para o olho da rua mais rapidamente que as outras que passaram por aqui. Entendeu? Fernanda engoliu em seco. Ela não podia perder aquele emprego.

Não depois de tudo o que aconteceu, não depois de seis meses de humilhação e falta de dinheiro. “Tá bom”, disse ela baixinho e abriu o programa de assinatura digital. A Vanessa observava de braços cruzados. Fernanda digitou a palavra-passe, selecionou os ficheiros e clicou no botão de assinar. O programa processou durante alguns segundos e confirmou. Ótimo.

A Vanessa pegou no pen drive de volta. Muito bem. Rápido e sem perguntas. Continue assim. Ela saiu e Fernanda ficou sentada em frente ao computador, sentindo um aperto no peito. Havia algo de errado, algo naquela pressa, na pressão, na forma como Vanessa a apressou. Meia hora depois, entrou um rapaz da contabilidade. O Filipe se apresentou.

Fernanda, estamos com um problema no encerramento”, disse, colocando uma pilha de papéis em cima da mesa. “Preciso de bater estes números urgente. O Roberto pediu para que cuide disso.” “Mas eu não sou contabilista”, disse ela confusa. “Eu não sei.” “Não é difícil”. Abriu um ficheiro no computador dela.

Só passa esses dados para a folha de cálculo e calcula os totais. Estou sem tempo, atuado de trabalho e é assistente da direcção, tem que ajudar todos os setores. Fernanda olhou para o ecrã. Números, colunas, fórmulas. Ela nunca tinha mexido com a contabilidade daquele jeito. “Vou tentar”, murmurou. Filipe saiu e ela começou a tentar perceber as tabelas.

Os números misturavam-se, as fórmulas não batiam certo. Às 17 horas, a cabeça dela estava explodindo. Logo a seguir veio outra funcionária, a Ana, do marketing. Fernanda, pode ajudar-me? Ela falava rápido, nervosa. Preciso de montar uma apresentação aos clientes para ontem. Estou atolada. E o Roberto disse que ia ajudar. Mas eu, por favor, a Ana olhou para ela, suplicando. Se não vou ser despedida.

Tenho financiamento da casa, filho pequeno. Não posso perder o emprego. Fernanda não conseguiu negar. Abriu um novo ficheiro e começou a fazer a apresentação, mesmo sem fazer ideia do que os clientes queriam. Às 7 da noite, quando o expediente já tinha acabado oficialmente, Fernanda ainda estava no computador.

A cabeça latejava, os olhos ardiam de cansaço, tinha feito dezenas de tarefas, ajudado metade do escritório, assinado documentos cujo conteúdo nem sequer conhecia. Finalmente desligou o computador, juntou as coisas e, antes de sair da sala verificou se o gravador estava lá ligado. Decidiu deixá-lo a gravar.

Na rua já estava escuro. Fernanda arrastou-se até o carro e ficou sentada ao volante uns minutos, tentando voltar a si. O primeiro dia tinha sido um pesadelo, mas ela aguentou. Ela resistiu. Amanhã vai ser mais fácil, tentava convencer-se a si própria. Em casa, a mãe já dormia. A Fernanda foi para o quarto em silêncio, trocou de roupa e caiu na cama. O sono veio na hora.

O telefone tocou a meio da noite. O som, alto e estridente rasgou o silêncio. Fernanda saltou desorientada e pegou no telemóvel. Na tela brilhava o nome, Roberto Mendes. Ela atendeu, ainda meio a dormir. Alô? O que pensa que está a fazer? A voz do diretor ensurdeceu-a. Ele gritava tão alto que ela afastou o telefone da orelha. Senhor Roberto, do que o Sr.

está a falar? A Fernanda sentou-se na cama tentando compreender. Eu não estou a perceber. Não está a perceber? Ele continuava berrando. Assinou documentos e desviaram 3 milhões de dólares da empresa. 3 milhões? Tem noção? O coração parou. A Fernanda sentiu o mundo girar. O quê? Isto não pode ser. Eu eu depois ela lembrou-se, a Vanessa, a pen drive, os documentos que ela assinou sem ler.

A A Vanessa deu-me os documentos. Ela disse: “Vanessa, a voz do diretor ficou ainda mais alta. Que Vanessa, assinou os documentos utilizando o acesso que te deram. Você é a responsável.” Mas eu não sabia. A voz de Fernanda transformou-se num grito. Ela disse que era urgente, que o Sr. mesmo tinha mandado.

Eu só estava fazendo o meu trabalho. Trabalho? Ele riu com maldade, histérico. Roubou três milhões de dólares da empresa e chama-lhe trabalho? As lágrimas jorraram. Fernanda recordou como Vanessa a apressou, como não deixou ler os papéis, como pressionou ameaçando a demissão. “O seu Roberto, por favor, ouve-me.” Ela tentava falar entre soluços.

Foi a Vanessa. Ela trouxe a pen drive, disse que era urgente. Ele interrompeu-a. Mentirosa. Eu vou processar-te. Você vai para a cadeia por isso. Vai pagar cada cêntimo roubado. Não, por favor. Fernanda soluçava apertando o telefone. Eu não roubei. Eu não sabia. É a Vanessa amanhã no escritório. Cortou-o. E prepare-se para a polícia.

Espero que apodreça na cadeia. Ele desligou. Fernanda continuou com o telefone na orelha, olhando para o escuro. O mundo colapsou pela segunda vez, só que agora era pior do que o divórcio. Agora ela corria o risco de ser presa. Ela baixou o telefone e tapou o rosto. Os soluços sacudiam o corpo.

Como é que isso aconteceu? Como é que ela caiu numa armadilha outra vez? E então ela lembrou-se, o gravador. Ele estava a gravar tudo o que acontecia na sala dela. A Fernanda saltou da cama e começou a vestir-se freneticamente. Eram 3 da manhã, mas ela precisava de ir para o escritório imediatamente. Pegar o gravador antes que alguém o achasse era um Kakad a única prova da sua inocência.

A mãe acordou com o barulho. Fernanda, o que se passa? Veio a voz sonolenta do quarto ao lado e ao lado nada. Mãe, dorme!”, gritou Fernanda, a vestir o blusão. Ela saiu correndo do apartamento e voou para o carro. As mãos tremiam tanto que mal conseguiu colocar a chave na ignição. Pelas ruas desertas da noite, ela furou sinais vermelhos, quebrando todas as regras.

Um único pensamento batia na cabeça. Chegar a tempo, pegar no gravador, provar a inocência. Chegou ao escritório em 20 minutos. O prédio estava escuro, vazio. A Fernanda usou o crachá que recebeu ontem e entrou. O elevador subia lentamente para o sétimo andar. Cada segundo parecia uma eternidade. Finalmente, as portas abriram. O corredor estava na penumbra.

Apenas as luzes de emergência acesas. A Fernanda foi até à sua sala. A porta não estava trancada. Entrou, acendeu a luz e atirou-se para baixo da mesa. Os dedos tatiaram o gravador. Estava lá. Ela o arrancou-o do íman e apertou-o na mão. Lágrimas de alívio correram-lhe pelo rosto. Ela tinha a prova. Tinha uma hipótese.

Fernanda ligou o aparelho no computador ali mesmo, com as mãos a tremerem, e abriu o ficheiro de áudio. Mas em vez de apenas ouvir, ela copiou rapidamente o ficheiro para uma pen drive que tinha na mala, enviou para o seu próprio e-mail e guardou na nuvem. Precisava de garantir que a prova não desaparecesse.

Pegou na bolsa e saiu a correr da sala. Mas era tarde demais. No térrio, dois polícias e um homem de fato a esperavam. Um inspetor como se apresentou. Fernanda Oliveira? Perguntou o inspetor. Sim. Ela parou segurando o bolsa. A senhora está detida sob suspeita de desvio de avultada quantia em dinheiro. Tenho o direito de permanecer calada.

Tudo o que disser poderá ser utilizado contra a senhora em tribunal. Um dos polícias pegou as algemas. Fernanda sentiu o metal frio fechar-se no pulso. Algumas pessoas que chegavam cedo ao edifício paravam para olhar. O segurança que antes dormitava, agora olhava com curiosidade. “Eu tenho provas da minha inocência”, disse Fernanda firme.

“Na a minha mala tem uma pen drive com uma gravação”. “A bolsa será aprendida como prova”, respondeu o inspetor. “Tudo será analisado conforme o procedimento.” Levaram-na do prédio para a viatura. Fernanda viu rostos de funcionários aparecendo nas janelas do escritório. Alguém filmava com o telemóvel. Vergonha. Vergonha pública.

Levaram-la para a esquadra, tiraram uma foto, colheram digitais. Depois colocaram-na numa cela provisória. Um quarto pequeno com cama de ferro e uma sanita atrás de uma mureta. Nas paredes, rabiscos feitos por outros reclusos. Fernanda sentou-se na cama e abraçou a cabeça, tudo se repetindo. De novo tribunal, de novo, ter de provar alguma coisa.

A noite chegou o advogado. Dr. Carlos Eduardo, o Cadu, era um homem com cerca de 40 anos, fato alinhado e olhar perspicaz. Sentou-se em frente a Fernanda, na sala de visitas e abriu o tablet. A Patrícia pediu-me para pegar no seu caso, começou ele direto. Conte-me tudo do início, não salte detalhes. Fernanda falou durante quase uma hora.

Cadu anotava, fazia perguntas, concordava com a cabeça. Eles planearam isso há muito tempo soluçava Fernanda, secando as lágrimas. A Vanessa escolheu-me de propósito. Eu era a vítima ideal, novata, sem contactos, com medo de perder o emprego. “Tens a gravação?”, perguntou Cadu. Tenho. Ela indicou a bolsa que foi apreendida.

Copiei para a pen drive e para a nuvem. A polícia levou a minha bolsa com a pen drive, mas a gravação está na internet. Isso é ótimo. Cadu sorriu pela primeira vez. A gravação nos dá uma oportunidade. Vou apresentar um pedido de separadores corpos para que possa responder em liberdade. Se o juiz achar as provas convincentes, você saia até ao julgamento.

Quanto tempo vai demorar? Alguns dias, talvez uma semana. Ele fechou o tablet. Vou trabalhar depressa, mas é preciso ter paciência. Fernanda esteve cinco dias na esquadra, os cinco dias mais longos da vida dela. A mãe foi visitar duas vezes, chorou, lamentou, de novo culpou a filha por ter se separou de Ricardo. “Se tivesse ficado com ele, nada disto teria acontecido”, soluçava a dona Marta através do vidro.

“Mãe, por favor, agora não”, disse a Fernanda cansada. A Patrícia ia todo dia, levava coisas, contava as novidades, dava apoio. “O Cadu diz que o caso está forte”, dizia ela numa das visitas. “A sua gravação é uma prova de ferro”. A Vanessa entregou-se sozinha. Ao sexto dia, Cadu conseguiu a liberdade provisória de Fernanda.

Ela saiu da pálida esquadra, com olheiras profundas, mas livre. Patrícia esperava-a à saída. “Amiga”, abraçou Fernanda. Como você aguentou? Fernanda tentou sorrir, mas não conseguiu. Os meses seguintes foram pesados. A Fernanda não conseguia arranjar emprego. Quem contrata uma mulher acusada de roubo? Ela vivia com dinheiro emprestado de Patrícia e aguardava o julgamento.

Cadu trabalhava sem parar. Encontrou testemunhas, ex-assistentes, que também foram despedidas em circunstâncias suspeitas. Uma delas, Carla, aceitou depor. Aconteceu-me a mesma coisa contava ela a Fernanda. A Vanessa trouxe os papéis, obrigou-me a assinar rapidamente, depois acusaram-me de roubo. Eu não Consegui provar a minha inocência.

Fui condenada, apanhei pena alternativa. “Como vive agora?”, perguntou Fernanda baixo. “Mal consigo pagar as contas.” Carla sorriu tristemente. Ninguém dá emprego para quem tem cadastro na polícia, mas fico feliz por te poder ajudar. Que pelo menos alguém prove que não somos criminosas.

O julgamento foi marcado para o início de dezembro. A Fernanda não dormiu na noite anterior, ficou no escuro, repassando todos os cenários possíveis na cabeça. De manhã, vestiu o mesmo fato preto da entrevista. Olhou-se ao espelho, rosto abatido, olhos sem brilho, fios brancos no cabelo que não existiam há seis meses. O tribunal estava cheio.

Roberto Mendes estava sentado com o advogado, aquele mesmo advogado caro que ganhou o caso do Ricardo contra Fernanda. A Vanessa estava sentada do outro lado, pálida, de cabeça baixa. O processo começou. A acusação apresentou as provas, documentos com a assinatura digital de Fernanda, extratos mostrando a transferência de 3 milhões de dólares.

A réanda Oliveira abusou da confiança do empregador, dizia o promotor. Utilizando o acesso à assinatura digital, ela desviou ilegalmente fundos da empresa para contas de laranjas. Depois, Cadu tomou a palavra. Ele colocou a gravação do dictafone para tocar. A voz de Vanessa encheu o salão do tribunal. Sim, Roberto. Ela assinou, assinou tudo.

Pode transferir o dinheiro. Pausa. A Vanessa ria. Eu disse que aquela idiota nem ia desconfiar. Novata, assustada, morrendo de medo de perder o emprego. Candidata perfeita. O tribunal começou a murmurar. Roberto empalideceu. Vanessa cobriu o rosto com as mãos. É falso! Gritou o diretor. É montagem. A perícia confirmou a autenticidade do gravação”, disse Cadu calmamente, entregando os documentos ao juiz.

A voz na gravação pertence a Vanessa Sampaio, diretora financeira adjunta do grupo Aliança. Além disso, temos testemunhas que confirmarão que este esquema foi utilizado várias vezes. Carla dirigiu-se à tribuna e prestou o seu depoimento. Atrás dela, mais duas ex-assistentes. Todas contavam a mesma história.

Vanessa trazia os documentos, apressava-se, pressionava, ameaçava despedir. A juíza ouvia atentamente, depois anunciou um intervalo. Quando a sessão recomeçou, A Vanessa pediu a palavra. Ela levantou-se, tremendo todo o corpo. Eu quero testemunhar. A voz dela era quase inaudível. Vanessa, cala-te, cheou Roberto, mas ela não obedeceu.

Lágrimas escorriam pelo rosto dela enquanto falava. Eu era amante do Roberto, começou ela. E um silêncio mortal abateu-se sobre a sala. Namorámos durante três anos. Ele prometeu largar a esposa. Prometeu que ficaríamos juntos, mas para isso precisava de dinheiro para o divórcio, para uma vida nova.

Cala-te agora, berrou o Roberto, levantando-se. Ele inventou este esquema continuou Vanessa sem lhe ligar. Contratava assist assistentes novas. Eu fazia-as assinar os papéis. Nós desviávamos o dinheiro, depois despedimo-las acusando de roubo. O Roberto recebia o seguro e o dinheiro ficava nas nossas contas. É mentira! Gritava o diretor. Ela está a mentir.

Eu sou um idiota. A Vanessa chorava. Eu acreditei nele. Pensei que ele me amava. Até me ferrei com a Fernanda, que não tem culpa de nada. Perdoa-me. A juíza bateu o martelo a pedir ordem. O advogado e o segurança fizeram com que Roberto sentar de volta. A sessão continuou por mais duas horas.

Cadu apresentou provas adicionais, registos de ligações, extratos bancários, mostrando a ligação entre as contas de Roberto e Vanessa. Quando a juíza saiu para deliberar, Fernanda ficou sentada, apertando as mãos de Patrícia. Vai correr tudo bem, sussurrava a amiga. Você ouviu a Vanessa? Ela confessou. Mas e se a juíza não acreditar? Vai acreditar, disse Cadu firme, sentando-se perto delas.

As provas são suficientes. Você vai ganhar. A juíza voltou uma hora depois, leu o veredicto com tom oficial e claro. Declaro a arguida Fernanda Oliveira inocente das acusações apresentadas. Determino o arquivamento do processo contra ela. Determino a abertura de inquérito contra Roberto Mendes e Vanessa Sampaio pelos crimes de burla e apropriação indevida em valor avultado.

A Fernanda demorou a perceber o que aconteceu. Depois a Patrícia abraçou-a e ela desabou no choro de alívio, de cansaço, de felicidade. Saíram do tribunal juntas. Era uma noite chuvosa de verão. Amiga promete que chega de tribunais. Patrícia sorria entre as lágrimas. abraçando a Fernanda, estás a frequentar muito esse lugar, prometo.

Fernanda riu e chorou ao mesmo tempo. Prometo. E obrigada pela ajuda. Se não fosses tu, amiga, sabes que o Cadu faz o impossível por mim. Patrícia indicou o advogado que estava perto do carro a falar ao telefone. Eu não sei como agradecer. Fernanda olhou para Cadu. O senhor salvou-me a vida. Salvou a sua própria vida. Ele se aproximou.

quando instalou aquele gravador. Foi a sua intuição, a sua cautela. Eu só usei o que me deu. Ficaram ali mais um pouco, depois se despediram. Fernanda entrou no carro de Patrícia e foram para casa. O que vai fazer agora? Perguntou a amiga no caminho. Não sei. Fernanda olhava para a chuva caindo pela janela. Procurar emprego. Começar de novo. De novo.

Você vai conseguir. Patrícia pôs a mão no ombro dela. Você é forte. Passou por dois tribunais e não faliu. Fernanda assentiu. Sim, ela não partiu, mas algo dentro dela mudou. Ela nunca mais confiaria cegamente nas pessoas, nunca mais seria ingénua, nunca mais deixaria ninguém a usar. Agora ela tinha que recomeçar a vida pela terceira vez no ano, mas desta vez ela estava pronta. M.