O meu nome é Josefa e esta é a história de como passei de escrava a senhora de terras, de como dei à luz 10 filhos proibidos e sobrevivi à fúria de uma que jurou ver-me morta. Esta é a história de um escândalo que abalou o recôncavo baiano em 1788 e que ainda hoje é sussurrado nas quintas antigas, quando as pessoas se querem lembrar que nem tudo na história do Brasil colonial foi como contam nos livros.
Porque eu, uma negra nascida na cenzala, tornei-me dona de terras e de gente, e o preço que paguei por isso foi escrito em sangue, suor e lágrimas de quase 30 anos. Nasci em 1755 no Engenho São Francisco, uma imensa propriedade de cana de açúcar no Recôncavo baiano, perto de Cascata.
A minha mãe era escrava de Eito, o meu pai nunca o conheci. Dizem que era um escravo de outra quinta que por ali passou e nunca mais voltou. Cresci, como todas as meninas escravas cresciam, trabalhando desde os 5 anos, ajudando na casa grande, transportando água, lavando roupa, fazendo tudo o que lhe mandavam fazer.
Mas eu tinha uma diferença. Eu era bonita. Não digo isto com vaidade. Digo como quem reconhece um facto que mudou completamente a minha vida. Tinha a pele escura e lisa, olhos grandes, corpo que começou a desenvolver demasiado cedo. E o senhor do engenho percebeu. Francisco Almeida de Carvalho tinha 42 anos quando me levou para a sua cama pela primeira vez.
Eu tinha apenas 14, era 1769 e não tive escolha, nunca tive. Ele simplesmente chamou-me uma noite, levou-me para um quarto nos fundos da casa grande, longe dos olhares da esposa, dona Mariana, e fez comigo o que quis. Doeu. Doeu no corpo e na alma. Chorei a noite inteira depois, abraçada com a minha mãe na cenzala, enquanto ela acariciava os meus cabelos e dizia que eu precisava de ser forte, que era assim que as coisas eram, que eu não era a primeira, nem seria a última.
Mas as suas palavras não aliviaram a dor, nada aliviava. Nos meses seguintes, o Sr. Francisco continuou a chamar-me duas, três vezes por semana, sempre à noite, sempre escondido, sempre rápido, mas com o tempo algo mudou. Ele começou a falar comigo. Depois perguntava como é que eu estava, se precisava de alguma coisa.
Trazia-me pedaços de bolo da cozinha da Casagre. Eu não compreendia, não percebia porque um senhor de engenho, um homem branco, rico e poderoso, estava a me tratando-se quase como se eu fosse gente, quase, porque no fim eu ainda era a sua propriedade. O meu corpo, a minha vida, tudo era dele para usar como quisesse.
Mas havia algo naqueles olhos dele quando olhava para mim, algo que não era apenas desejo, era carinho. Era uma ternura estranha que eu não sabia como interpretar. Em março de 1770, descobri que estava grávida. Tinha 15 anos. O medo que senti foi maior do que qualquer coisa que já tinha sentido na vida.
Medo do que a senhora Mariana faria se descobrisse, medo do que iria acontecer comigo. Medo de trazer uma criança para aquele mundo de horrores. Mas quando contei ao Senhor Francisco, sorriu. Sorriu de uma forma que eu nunca tinha visto. “É o meu filho”, ele disse tocando na minha barriga com uma delicadeza surpreendente. “Vou cuidar de ti. Vou cuidar deste criança.”
E cumpriu. Tirou-me do trabalho pesado, colocou-me para trabalhar apenas dentro da casa grande, deu-me comida melhor, um colchão de verdade na cenzala. As outras escravas começaram a olhar para mim diferente. Umas com inveja, outras com pena, todas com receio de que a sinhá descobrisse.
O meu primeiro filho nasceu em dezembro de 1770. Um menino lindo, de pele clara, olhos que já mostravam que não seriam escuros como os meus. O Senr. Francisco viu-o e chorou. Chorou de verdade, lágrimas descendo pelo rosto enquanto segurava aquela criança pequena nos braços. “O António”, disse ele, “vai chamar-se António como meu pai.”
Aquilo me assustou-se e deu-me esperança ao mesmo tempo. Porque um senhor que chora ao ver um filho bastardo que dá a ele o nome do próprio pai, talvez fosse um senhor que daria a este filho um futuro melhor do que o da mãe. E eu tinha razão.
Parcialmente, a dona Mariana descobriu, claro, impossível esconder uma criança mulata na quinta, mas a reação dela me surpreendeu. Ela não gritou, não me mandou chicotear, não exigiu que o Senhor me vendesse. Ela simplesmente me ignorou. Ignorou-me a mim e ao António como se fôssemos fantasmas. Continuou a sua vida de sinhá, organizando a casa, indo à missa, recebendo visitas. Mas nos olhares que me lançava quando as nossas vidas se cruzavam, via o ódio, um ódio frio, calculado, perigoso, um ódio que eu sabia que um dia explodiria. Só não sabia quando nem como.
O Senr. Francisco continuou a me chamando e eu continuei a engravidar. Em 1772 nasceu João. Em 1774 nasceu a Maria. Em 1776 nasceu o Pedro. A cada filho o Senhor tornava-se mais apegado, mais protetor. Construiu uma pequena casa perto da cenzala só para mim e as crianças. Não era a casa grande, mas era infinitamente melhor que a cenzala. Tinha camas de verdade, tinha uma cozinha, tinha até uma janela com cortina.
As outras escravas sussurravam que eu me tinha virado quase uma sinhá, que eu tinha enfeitiçado o senhor com macumba. Não era verdade. Eu não tinha enfeitiçado ninguém. Eu era apenas uma mulher que tinha aprendido a sobreviver da única forma que podia, usando o único poder que tinha, o meu corpo e os filhos que gerava.
Em 1778 nasceu Francisca. Em 1780 nasceu José. Em 1782 nasceu Ana. Em 1784 nasceu Miguel. Em 1786 nasceu Teresa e em 1788 nasceu o meu 10º e último filho, Vicente. 10 crianças em 18 anos, 10 filhos do senhor do engenho. 10 mulatos que cresciam à sombra da casa grande, nem escravos, nem livres, numa posição indefinida que irritava toda a gente.
A Dona Mariana tinha apenas três filhos legítimos, todos já adultos, e via aqueles 10 sacanas como insultos vivos, lembretes constantes da infidelidade do marido, da humilhação que ela suportava todos os dias. Mas o Sr. Francisco os amava, amava de verdade. Visitava a minha casa todos os dias, brincava com as crianças, ensinava os rapazes a ler. Algo que nenhum senhor fazia com filhos bastardos. Trazia presentes, roupas melhores que as de escravos comuns, sapatos até.
E começou a falar de futuro. “Quando eu morrer”, dizia ele, “vou deixar algo para eles. Não posso dar o meu apelido, não posso reconhecê-los oficialmente, mas posso garantir que não vão viver como escravos.” Eu ouvia aquilo com esperança e medo misturados. Esperança pelo futuro dos meus filhos, medo do que aconteceria até lá.
A vida seguiu assim durante anos. Eu vivia numa estranha bolha, nem escrava, nem livre, nem sinhá, nem mucama. Trabalhava pouco, comia bem, via os meus filhos a crescerem fortes e saudáveis, enquanto outras mães escravas viam os seus morrerem de doença, de fome, de trabalho excessivo. Eu sabia que tinha privilégio. Privilégio construído sobre o meu corpo, sobre a vontade de um homem que me possuía legalmente, mas que tinha por mim algo que se aproximava do amor.
Ou talvez fosse apenas obsessão. Nunca soube ao certo, mas sabia que aquele privilégio tinha um preço. E o preço era o ódio da dona Mariana, que crescia a cada ano, a cada filho, cada dia que respirava.
Em 1787, as coisas começaram a mudar. O Sr. Francisco adoeceu. Uma febre que começou fraca, mas foi piorando, consumindo-o lentamente. Os médicos de Salvador vieram, fizeram sangrias, receitaram medicamentos caros que não funcionavam. Eu cuidava dele quando a dona Mariana permitia, levava caldos, limpava-lhe o suor da testa, segurava a sua mão quando a dor era forte demais.
E foi numa dessas noites, em agosto de 1787, que ele me contou o segredo. “Fiz um testamento”, sussurrou a voz fraca, “um testamento secreto. Você e as crianças vão receber terras, vão receber a alforria, vão ser livres.” Eu não acreditei. Não podia acreditar. Um senhor de engenho libertando 10 filhos bastardos e a mãe escrava dando-lhes terras. Aquilo era impensável, era escandaloso, era impossível, mas era verdade.
O Senr. Francisco tinha procurado um notário em Salvador, longe dos olhares curiosos de Cachoeira, e tinha registado um testamento, deixando para mim e para os nossos 10 filhos uma parte significativa das suas terras. Não eram as melhores terras, não eram as mais produtivas, mas eram terras, hectares e hectares de terra boa para plantar, com uma casa, com escravos para trabalhar e não só disso, a nossa alforria, liberdade legal, reconhecida, impossível de ser revertida.

Quando ele me contou aquilo, chorei. Chorei de alegria, de medo, de gratidão, de terror, porque eu sabia o que aquilo significava. Significava guerra. Significava que quando o Senhor Francisco morresse, a dona Mariana e os seus filhos legítimos iriam lutar com todas as forças para anular aquele testamento. E nesta luta, eu e os meus filhos poderíamos morrer.
O Senr. Francisco morreu em fevereiro de 1788. Tinha 61 anos. Morreu na cama, rodeado pela família legítima, enquanto eu assistia de longe da porta do quarto, segurando o meu bebé Vicente no colo. Ele olhou para mim uma última vez antes de fechar os olhos e eu vi naquele olhar tudo o que precisava de ver: amor, arrependimento, esperança.
Três dias depois, durante o velório, o tabelião de Salvador chegou com o testamento. A leitura foi na sala grande da Casagrande, com toda a família reunida, os filhos legítimos, dona Mariana de Luto Negro e alguns agricultores vizinhos como testemunhas. Quando o notário leu a parte sobre mim e as crianças, o silêncio foi ensurdecedor. Depois veio o caos.
O filho mais velho da dona Mariana, Rodrigo, um homem de 35 anos, com cara de poucos amigos, gritou que aquilo era uma fraude, que o pai estava louco quando fez aquele testamento, que uma escrava e os seus sacanas não tinham direito a nada. A Dona Mariana não gritou, apenas olhou para mim com aqueles olhos gelados e disse com uma calma aterradora: “Isso não vai valer. Vou anular esse testamento, nem que seja a última coisa que faça. E tu, Josefa, vais voltar para a Senzala, de onde nunca deveria ter saído.”
A guerra começou nesse dia. Rodrigo e os seus irmãos contrataram advogados do Rio de Janeiro, homens caros que conheciam todas as leis coloniais e todas as formas de contorná-las. Argumentaram que o pai estava senil, que tinha sido manipulado por uma escrava feiticeira, que o testamento violava as leis da herança.
Eu não tinha dinheiro para advogados, mas o notário, um homem chamado Dr. Bernardo, decidiu ajudar-me. Não sei porquê. Talvez tivesse pena, talvez acreditasse em justiça, talvez apenas quisesse ver um escândalo de perto. Ele trabalhou de graça, reuniu documentos, provou que o Senhor Francisco estava em perfeito juízo quando fez o testamento, trouxe testemunhas que confirmaram que sempre tratou aquelas crianças como filhos.
O processo durou meses, meses em que vivi no inferno. Dona Mariana tirou-me da casinha e atirou-me de volta na cenzala com as crianças. Tirou a comida boa, tirou as roupas decentes, colocou os rapazes mais velhos para trabalhar no eito como escravos comuns. António, meu primogénito, que já tinha 17 anos, regressava todos os dias com as mãos sangrando de cortar cana. João, de 16, apanhava do feitor sempre que abrandava. As meninas lavavam a roupa do amanhecer até à noite e não podia fazer nada mais do que assistir e rezar para que a justiça colonial, tão raramente justa para os negros, desta vez fosse diferente.
Dona Mariana tentou matar-me, não diretamente, ela era demasiado esperta para isso, mas tentou. Mandou-me dar comida estragada, esperando que eu adoecesse e morresse. Mandou o feitor chicotear-me por qualquer motivo inventado. Uma vez me fechou no tronco durante dois dias inteiros sob o sol abrasador, sem água, sem comida. Eu sobrevivi porque outras escravas que tinham pena de mim ou que respeitavam a memória do Senr. Francisco, davam-me água escondido à noite. Sobrevivi porque tinha 10 razões para sobreviver. 10 filhos que precisavam de mim viva para ter qualquer hipótese de liberdade.
Em outubro de 1788, 8 meses após a morte do Senr. Francisco, o juiz proferiu a sentença. O testamento era válido. Eu e os meus 10 filhos éramos livres e éramos donos legais de 250 hectares de terra do antigo engenho de São Francisco. Terra boa com ribeiro, mata, área cultivável e uma casa de três quartos. Além disso, recebíamos 10 escravos para trabalhar a terra e uma quantia em dinheiro, cinco contos de réis para começar a produção.
Quando o Dr. Bernardo me deu a notícia, desabei no chão e chorei durante horas. Os meus filhos me abraçaram, todos a chorar também, sem acreditar que aquilo era real, que finalmente éramos livres. Mas a vitória tinha um sabor amargo, porque sabia que a dona Mariana nunca aceitaria aquilo e estava certa.
Três dias depois da sentença, na noite de 28 de outubro de 1788, homens armados invadiram a minha nova casa. Eram seis contratados por Rodrigo, com ordens para nos expulsar ou matar-nos. Mas o Dr. Bernardo tinha previsto aquilo e tinha avisado o capitão mor da vila. Havia soldados protegendo a minha propriedade. Houve tiros, gritos. Um dos invasores morreu, outros fugiram. O Rodrigo foi preso, processado e condenado a pagar uma multa pesada. A sentença dizia claramente: “Aquelas terras eram minhas e qualquer tentativa de me tirar dali seria considerado crime contra a propriedade legal”.
A notícia espalhou-se como fogo, uma escrava que se tornou sinhá, uma negra dona de terras e de escravos. Um escândalo que abalou não só o recôncavo baiano, mas todo o Brasil colonial. Os padres pregavam contra mim nos púlpitos, dizendo que eu era um exemplo de pecado e a desordem. Agricultores vizinhos recusavam a comerciar comigo. Mulheres brancas cuspiam-me para o chão quando eu passava.
Mas também havia os que me apoiavam. Outros escravos viam-me como esperança, como prova de que era possível mudar de vida. Alguns homens, livres, pobres, respeitavam-me porque eu tinha lutado e vencido contra a elite. E os comerciantes de Salvador não preocupavam com a cor da minha pele, apenas com a cor do meu dinheiro.
Comecei a plantar tabaco e mandioca nas minhas terras. Não era cana. Não daria o imenso lucro da cana, mas era algo que eu conseguia gerir. Os meus filhos mais velhos ajudavam-me, aprendiam a gerir, a negociar, a lidar com os escravos que agora trabalhavam para nós.
Sim, escravos. Eu que fui escrava a vida inteira, era agora dona de escravos. A ironia não me escapava, mas eu os tratava diferente. Dava melhor comida, não permitia castigos severos. Prometia alforria para quem trabalhasse bem durante 10 anos. Não era perfeito, não era justo, mas era melhor do que a maioria dos senhores.
Dona Mariana faleceu em 1791, 3 anos depois de ter perdido o processo. Dizem que morreu de desgosto, de vergonha, de raiva acumulada. Não fui ao enterro, não senti pena. Aquela mulher tentou matar-me, tentou destruir os meus filhos e o único arrependimento que tenho é não ter podido dizer-lhe na cara que sobrevivi, que venci, que os meus filhos eram livres e prósperos, enquanto os filhos legítimos dela estavam falidos e amargurados.
Os anos seguintes foram difíceis, mas bons. A quinta prosperou. Não ficámos ricos, mas vivíamos bem. Os meus filhos cresceram livres, educados, respeitados por alguns, odiados pelos outros, mas livres. António casou com uma mulher livre, parda, e teve cinco filhos. João administrava a parte do tabaco da propriedade. As meninas casaram com homens livres, alguns negros, alguns pardos, todos escolhidos por elas, não impostos.
E eu, Josefa, a ex-escrava, passei a ser a dona Josefa. Senhora de terras, mãe de 10 filhos livres, vencedora de uma guerra que não deveria ter ganho. Hoje, em 1810, tenho 55 anos. O meu corpo está cansado de tantos partos, tanto trabalho, tantas lutas. Mas a minha alma está em paz, porque quando olho em redor e vejo os meus filhos, os meus netos, as minhas terras, sei que valeu a pena.
Valeu cada lágrima, cada humilhação, cada noite em que o Senhor Francisco usou-me, cada dia em que a dona Mariana tentou destruir-me. Valeu porque transformei a dor em vitória, transformei a escravidão em liberdade, transformei 10 filhos proibidos numa família próspera e livre.
A minha história é estranha, é perturbadora, está cheia de contradições. Fui amante de um senhor de engenho, mãe dos seus sacanas, depois senhora de escravos eu própria. Não sou heroína, não sou santa, não sou exemplo puro de nada. Sou apenas uma mulher que fez o que teve de fazer para sobreviver e para dar aos seus filhos uma melhor hipótese de vida.
E neste Brasil de 1810, onde a escravatura ainda reina e provavelmente vai reinar durante muitas décadas, a minha história é um raio de luz, uma prova de que o impossível por vezes acontece, de que uma escrava pode virar, de que 10 os filhos proibidos podem herdar terras, de que até neste sistema brutal, cruel, desumano, há brechas onde a vida encontra um caminho.
Sei que a minha história será esquecida, que daqui a 100 anos ninguém se vai lembrar de Josefa do Engenho de São Francisco. Mas enquanto eu viver, vou lembrar-me. Vou lembrar-me de cada filho que dei à luz, de cada luta que venci, de cada vez que me disseram que eu não tinha direito a nada e provei que estavam errados.
E vou ensinar os meus netos a lembrarem-se também, porque a memória é tudo o que sobra quando o corpo já não aguenta mais. E a minha memória é de fogo, de sangue, de dor, mas também de vitória, de uma vitória que não deveria existir, mas existe. E ninguém me pode tirar isso.
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