O sol de Agosto castigava o solo de Barro Vermelho da Vila de Santa Maria, mas dentro do casarão de azulejos portugueses, o ar parecia ainda mais pesado, carregado de uma eletricidade que não vinha do tempo, mas das palavras. Sim. A Gabriela, sentada em sua cadeira de balanço na varanda sombreada, fingia concentrar-se no bordado de linho, mas seus ouvidos estavam aguçados, como os de uma caçadora.
Lá embaixo, perto do poço, onde as lavadeiras batiam a roupa, o som do trabalho era entrecortado por risadas abafadas e sussurros que subiam à encosta como fumaça. O nome Vicente ecoava em cada frase interrompida. Não era apenas um nome, era uma sentença de fascínio e medo. Vicente era o novo braço forte da fazenda vizinha, um homem cujo porte físico parecia esculpido em ébano polido, alto, com ombros que pareciam largos o suficiente para carregar o mundo, e coxas que tensionavam o tecido rústico de suas calças a cada passo, ele não caminhava,
ele dominava o chão que pisava. Mas não era sua força no roçado que alimentava as fofocas das cinhazinhas e a luxúria das escravas? Era a lenda de sua ferramenta. Dizia-se entre as sombras das cenzalas e os cantos dos moinhos que Vicente possuía uma dotação descomunal, algo que desafiava a anatomia e a lógica. O boato era cru e direto.
Ele tinha a fama de partir ao meio qualquer mulher que tivesse o atrevimento ou a sorte de se deitar com ele. Não era apenas uma questão de tamanho, mas de uma virilidade indomável, uma potência que deixava marcas não apenas na alma, mas no corpo de quem o recebia. Gabriela sentiu um calafrio desconhecido percorrer sua espinha, um formigamento que começou na nuca e desceu lentamente até o baixo ventre.
Ela olhou para as próprias mãos. brancas e delicadas e imaginou o contraste daquela pele com o negrume imponente de Vicente. A ideia de ser partida, de ser preenchida por algo tão vasto, que pudesse realmente romper suas barreiras causava-lhe um pavor delicioso. “O que tanto olhas, Maria?”, perguntou Gabriela quando sua mucama pessoal se aproximou para lhe trazer um refresco de pitanga.
Maria, uma jovem de olhos espertos e lábios carnudos, hesitou. Ela também estava com os ouvidos no poço. Nada, senh falando do Vicente da fazenda de baixo. Dizem que o homem é um perigo. Perigo? Gabriela arqueou a sobrancelha, fingindo desdém. Um escravo. Que perigo pode oferecer um homem que vive sob o chicote? Maria aproximou-se mais, baixando o tom de voz até tornar-se um murmúrio cúmplice.
Não é perigo de faca, Sim. Há, é perigo de cama. Dizem que ele não tem pena de mulher nenhuma, que quando ele entra a mulher perde o fôlego e o juízo. Dizem que a rosa da casa grande de lá foi inventar de provar e agora tá lá recolhida, sem conseguir sequer fechar as pernas de tanta dor e de tanto gosto. O coração de Gabriela deu um solavanco.
A imagem mental foi instantânea, vicente, em toda sua glória bruta, movendo-se sobre uma mulher até que ela não fosse nada além de um grito de dor e êxtase. Ela pensou no marido, o coronel, que chegava tarde cheirando a tabaco e cachaça, e que em 5 minutos terminava um serviço burocrático e o osso, deixando-a sempre com uma sensação de vazio, tanto físico quanto emocional.
O membro do marido era apenas uma formalidade. O de Vicente, pelo que diziam, era um acontecimento. Naquele momento, Vicente cruzou o pátio central, carregando dois sacos de café como se fossem penas. Ele parou por um segundo, limpando o suor da testa com o antebraço musculoso. O movimento fez com que seus músculos peitorais saltassem sob a camisa aberta e a calça, apertada pelo esforço revelava um volume que fez Gabriela desviar o olhar, envergonhada, mas com a imagem gravada a fogo em sua mente. O sussurro das cenzalas não era
apenas fofoca, era um chamado. Gabriela sentiu que sua vida de porcelana estava prestes a ser estraçalhada por aquela força da natureza. O calafrio agora era um incêndio. Ela sabia, enquanto observava o caminhar pesado e seguro de Vicente, que a vila inteira falava daquela ferramenta por um motivo. E ela, a distinta Gabriela, estava disposta a descobrir se uma mulher poderia realmente sobreviver a ser partida ao meio por aquele homem.
O calor da tarde parecia ter concentrado inteiramente dentro dos aposentos de Siná Gabriela. As janelas de madeira pesada estavam semicerradas, permitindo apenas que filetes de luz dourada cortassem a penumbra, revelando a poeira que dançava no ar. Gabriela estava sentada na borda de sua cama de docel, o corpete do vestido já frouxo, buscando um ar que insistia em fugir.

“Entrem e fechem a porta”, ordenou ela, a voz ligeiramente trêmula: “Maria e Carmen obedeceram. eram suas mucamas de maior confiança, aquelas que conheciam cada segredo do casarão, desde as traições dos coronéis até as ervas usadas para curar males do corpo. Elas se entreolharam, sentindo que o assunto daquela tarde não seriasobre rendas ou o cardápio do jantar.
Eu ouvi o que diziam no poço, começou Gabriela, sem rodeios, embora suas bochechas estivessem tingim profundo. Falem-me de Vicente, sem mentiras, sem exageros de lavadeiras. O que há de verdade naquela história de que ele de que ele é capaz de ferir uma mulher na cama? Carmen, a mais velha e experiente, soltou um riso nervoso, abafando a boca com a ponta do avental.
Maria, por sua vez, baixou os olhos, mas não conseguiu esconder o brilho de malícia. Assim, começou Carmen aproximando-se da cama. O que o povo fala é pouco perto do que os olhos vêm. Eu estava na lavanderia quando ele tirou a roupa para se banhar no rio escondido, ou assim ele pensava. Eu e Maria estávamos atrás das samambaias.
Gabriela inclinou o corpo para a frente, o coração martelando contra as costelas. E o que viram? Vimos o que não parece ser de um homem comum. Sá”, disse Maria, a voz agora num sussurro urgente. A ferramenta dele, Nossa Senhora, é da cor da noite mais escura e brilha com o suor, mas o que assusta e ao mesmo tempo atiça, é o tamanho.
É grossa como o braço de uma criança e comprida? Ah, sim. Ah, parece que não tem fim. Quando ele se move, aquilo balança pesado, como se tivesse vida própria. Não é como o que estamos acostumadas a ver por aqui. É uma coisa bruta feita para dominar. O rosto de Gabriela ardeu como se tivesse sido atingido por um braseiro. Ela tentou imaginar o que as escravas descreviam comparando mentalmente com a figura minguada do marido.
E a Rosa? Perguntou Gabriela, a voz quase sumindo. É verdade que ela não consegue andar? Verdade purinha. confirmou Carmen balançando a cabeça. Eu mesma ajudei a passar banha com ervas nela ontem. A coitada está toda assada, com a pele das coxas em carne viva. E as partes, bem sim a as partes dela estão inchadas como se tivesse passado um cavalo por cima.
Ela chora de dor, mas quando a gente pergunta se ela se arrepende, ela dá um sorriso que chega a dar medo na gente. Diz que Vicente não tem nenhuma delicadeza. Ele pega, vira a massa e entra com tudo, sem querer saber se a mulher está pronta ou não. Ele abre caminho na marra. Ele a partiu ao meio. A pergunta escapou dos lábios de Gabriela antes que ela pudesse conter.
Quase isso sim. Ah, respondeu Maria, os olhos fixos nos da patroa. Rosa disse que sentiu cada polegada rasgando por dentro, que o fôlego sumiu e ela achou que ia morrer de tanto prazer e de tanta dor. Vicente é um bicho. Simá. Ele não faz graça, ele faz estrago. Nunca vimos nada igual em toda a província.
Dizem que ele é descendente de reis guerreiros na África e que a força dele se concentrou toda ali entre as pernas. Gabriela sentiu umedecer repentino entre suas próprias coxas, uma sensação de urgência que a fez apertar os lençóis de seda com força. O relato das mucamas pintava uma imagem de Vicente que era, ao mesmo tempo, aterradora e irresistível.
A ideia de um homem que não tinha pena, que usava sua ferramenta colossal para subjugar e transformar o corpo de uma mulher, perseguia seus pensamentos mais proibidos. Ele é tão grande assim, Maria”, insistiu Gabriela, como se quisesse gravar a medida no ar. Maria usou as mãos para indicar uma distância que fez Gabriela perder o ar.
Daqui até aqui, sim. E a grossura, bem, nem duas mãos juntas fechariam em volta. O silêncio caiu no quarto, interrompido apenas pela respiração pesada de Gabriela. Ela dispensou as mucamas com um gesto rápido, mas as palavras delas ficaram ecoando. A curiosidade que antes era uma faísca, agora era um incêndio.
Ela precisava ver, precisava sentir, precisava saber se seu corpo de porcelana aguentaria ser moldado por aquele ferro em brasa. O calor da tarde em Santa Maria parecia evaporar o juízo de qualquer um, mas para Rosa, aquela quentura era apenas um reflexo do que queimava entre suas pernas. Rosa não era mulher de se contentar com farelos, enquanto as outras escravas apenas sussurravam e desviavam o olhar, quando Vicente passava com seu tórax de carvalho e braços que pareciam fundidos em ferro, ela decidiu que a lenda
precisava de uma prova. Ela queria sentir o que significava ser partida ao meio. O encontro aconteceu nos fundos do canavial, onde o açúcar no ar se misturava ao cheiro de terra úmida. Quando ela o confrontou, Vicente não sorriu. Ele apenas a olhou com aquele olhar firme, de quem conhece o próprio peso e o dano que pode causar.
Não houve cortejo. No momento em que as mãos grandes dele envolveram a cintura de rosa, ela soube que tinha cometido um erro delicioso e irremediável. Tem certeza, pequena? A voz dele era um trovão baixo que vibrou no peito de Rosa. “Tenho”, ela respondeu, embora o corpo já tremesse. O que se seguiu foi o que Rosa descreveria mais tarde, entre gemidos de dor e flashes de memória pecaminosa, como um atropelo de carne.
Quando Vicente se libertou das roupas, Rosa sentiu o ar escapar dos pulmões. Oque as mucamas Maria e Carmen diziam era um eufemismo. A ferramenta de Vicente era uma arma negra, latejante e de uma espessura que desafiava a natureza humana. Quando ele a tomou, não houve delicadeza. Vicente era um homem de forças brutas e instintos puramente masculinos.
A primeira investida foi como um rasgo. Rosa sentiu que sua alma seria empurrada para fora pelo topo da cabeça. Vicente não tinha pena. Ele a segurava com as mãos imensas, imobilizando-a contra a terra. enquanto seu quadril trabalhava com uma cadência implacável, cada estocada era um choque que percorria a espinha dela, uma invasão que a forçava a se abrir além do que imaginava ser possível.
O prazer vinha misturado a uma agonia surda, um estiramento extremo que a deixava sem voz, apenas com os olhos arregalados, vendo o céu girar acima da cabeça de Vicente. Três dias depois, o cenário na cenzala era de espanto e curiosidade. Rosa estava deitada sobre uma esteira de palha, coberta apenas por um lençol fino de algodão.
Ela não conseguia ficar de pé. Suas coxas, normalmente ágeis, estavam rígidas e afastadas, pois o simples contato da pele com a pele era um suplício. Ela estava assada, a pele interna, delicada, fora esfolada pela fricção do membro colossal e pelo suor salgado daquela batalha carnal. Maria e Carmen aproximaram-se com uma tigela de banha de carneiro, misturada com arruda e calêndula para aliviar o inchaço.
Quando levantaram o lençol, soltaram um suspiro de horror e fascínio. “Nossa Senhora Rosa, ele te desgraçou”, murmurou Carmen, vendo o rastro da brutalidade de Vicente. Rosa soltou um gemido quando a banha fria tocou sua pele em carne viva, mas para a surpresa das outras, um sorriso débil e vitorioso surgiu em seus lábios rachados.
Ele não é homem, Carmen, é um animal. Ele me pegou como se eu fosse um pedaço de cana e meeu. Eu sentia ele chegando lá no fundo, onde nenhum outro jamais encostou. Parecia que ele ia me atravessar. As escravas ouviam boqueabertas. Rosa relatou que no auge da luxúria pediu para ele parar, mas Vicente apenas a apertou com mais força e continuou o serviço, surdo aos apelos, focado apenas em descarregar sua virilidade monstruosa.
Ele era implacável. Não havia o fazer amor dos livros. Era uma possessão. “Eu não ando hoje nem amanhã”, suspirou Rosa, fechando os olhos enquanto a memória do preenchimento absoluto a fazia estremecer. Mas se ele me chamasse de novo, depois que esse inchaço baixar, eu ia rastejando, porque depois de Vicente, qualquer outro homem vai parecer um menino brincando.
A notícia do estado de Rosa correu à fazenda e subiu as escadas do casarão. Quando Sha Gabriela ouviu os detalhes, os três dias de invalidez, a pele assada, a falta de piedade do escravo e o tamanho que parecia não caber em mulher nenhuma. Ela sentiu que o fogo que a consumia por dentro havia se transformado em uma obsessão. O sacrifício de Rosa era a confirmação que faltava.
Vicente era realmente o homem que partia ao meio, e Gabriela, em sua cama de seda e solidão, começava a desejar que ele fizesse o mesmo com ela. A noite em Santa Maria não trazia alívio, apenas um silêncio opressor interrompido pelo canto melancólico das corujas e o estalar da madeira velha do casarão. No quarto principal, o cheiro de lavanda das roupas de cama era sufocado pelo odor acre de tabaco e conhaque que exalava do coronel. Sim.
A Gabriela estava deitada móvel. fitando o docel da cama, como se buscasse ali uma resposta para a angústia que lhe corroía as entranhas. O coronel aproximou-se. Não havia carinho, apenas o hábito de quem exerce um direito de posse. Suas mãos, enrugadas e frias, tatiaram o corpo de Gabriela com uma pressa desajeitada.
Ele bufa perto do ouvido dela, um hálito quente que a fazia querer se encolher. Quando ele finalmente se posicionou sobre ela, Gabriela sentiu o peso de um homem que envelhecia sem nunca ter aprendido a incendiar uma mulher. O contraste era uma facada em sua autoestima. Enquanto sua mente estava povoada pelas imagens de Vicente, o ébano brilhante, os músculos que pareciam saltar da pele, a promessa de uma força que poderia estraçalhá-la, a realidade que a tocava era minguada.
Quando o marido finalmente se libertou das ceras e tentou a penetração, Gabriela teve que conter um suspiro de escárnio. O membro do coronel era uma ofensa à sua imaginação, pequeno, flácido e de uma finura que lembrava, como ela mesma pensou com amargura, um pé de galinha. Ele parecia se perder na vastidão do desejo que ela agora nutria.
Não havia preenchimento, não havia pressão, não havia o atrito que faz o sangue ferver. Era um movimento rítmico e burocrático, uma fricção inútil que não chegava nem perto de despertar qualquer centelha em seu ventre. Ela se sentia um deserto, seca, vasta e intocada, apesar do homem que se esforçava sobre ela. “É só isso?”, ela se perguntava.
Enquanto o coronelsoltava gemidos curtos de satisfação egoísta. É essa a vida que me cabe. Morrer de sede ao lado de um poço raso. Para não gritar de frustração, Gabriela fechou os olhos com força. Na escuridão de suas pálpebras, ela invocou o demônio que a perseguia. Ela imaginou o pátio do engenho. Imaginou o Vicente caminhando em sua direção, o sol batendo nas costas largas, a calça de algodão rústico marcando aquele volume que Maria e Carmen juraram ser capaz de partir uma mulher.
Ela imaginou aquelas mãos de gigante segurando seus quadris, não com a fraqueza do marido, mas com a autoridade de quem sabe que vai possuir cada centímetro de carne. Na sua mente, ela não era mais a distinta à Gabriela. Era apenas uma fêmea esperando o impacto. Imaginou a entrada de Vicente, lenta, brutal, ocupando cada espaço vazio, esticando sua pele, fazendo-a arfar, não por educação, mas por absoluta falta de ar.
Imaginou a dor que Rosa sentiu, e aquela dor, em sua fantasia, transformava-se no prazer mais agudo que já concebera. O coronel deu um último solavanco e desabou ao seu lado, ressonando em poucos segundos. Satisfeito com sua performance medíocre, Gabriela permaneceu desperta, o corpo latejando de uma necessidade não atendida.
Ela sentia-se suja, não pelo ato com o marido, mas pela pobreza daquele toque. A finura do pé de galinha do coronel era o símbolo de sua prisão. Ela passou a mão pelo próprio ventre, sentindo o calor da pele. Estava faminta. A lenda de Vicente agora não era apenas um boato de senzala. Era sua única esperança de se sentir viva. Ela sabia que o perigo era imenso, que sua reputação estava em jogo, mas a lembrança do estado de rosa, a invalidez de três dias, a pele assada, agora lhe parecia um troféu que ela estava disposta a conquistar. Amanhã!”,
sussurrou ela para a escuridão do quarto. “Amanhã eu darei um jeito. O deserto daquela noite só serviu para garantir que na tarde seguinte o encontro no Engenho Velho deixaria de ser um sonho para se tornar a mais violenta e prazerosa das realidades. O dia amanheceu com um mormaço que parecia grudar a seda do vestido à pele de Gabriela, mas o desconforto físico não era nada comparado à inquietação que lhe fustigava a alma.
Da varanda do casarão, protegida pelo rendilhado de madeira que lhe servia de escudo e esconderijo, ela observava o pátio. Lá embaixo, o mundo pertencia a Vicente. Ele estava encarregado de descarregar as pesadas sacas de grãos, tinha dispensado a camisa e o sol do meio-dia transformava sua pele negra em uma armadura de ébano líquido.
A cada movimento, Gabriela sentia a garganta secar. Os músculos das costas de Vicente se contraíam e relaxavam como serpente sob a pele. O esforço fazia com que as veias de seus braços saltassem, revelando uma força que era, ao mesmo tempo, magnífica e aterrorizante. O que mais a perturbava, porém, era o movimento do quadril dele sob a calça de brin rústico.
A cada passo pesado, o volume que alimentava os pesadelos e fantasias da vila se denunciava, balançando com uma densidade que parecia desafiar a gravidade. Gabriela lembrou-se da descrição de Maria: “Parece que tem vida própria, senh” Ela sentiu um latejar úmido entre as pernas, uma resposta instintiva e traidora do seu corpo, aquela visão de virilidade bruta, ela não podia mais viver de ecos.
As histórias de Rosa, os risos de Carmen e a mediocridade do coronel haviam se tornado uma prisão de frustração. Gabriela precisava da prova. precisava saber se aquele homem era realmente capaz de parti-la, de preenchê-la de tal forma que o resto do mundo perdesse o sentido. “Maria”, chamou ela sem desviar os olhos da figura de Vicente no pátio.
A Mucama apareceu prontamente, lendo no rosto da patroa uma determinação que nunca vira antes. “Sim, senh vá até lá. Diga a ele que uma ferramenta do engenho velho, aquele desativado perto da mata, está precisando de reparos urgentes. Diga que eu estarei lá às 3 da tarde para mostrar o que deve ser feito.
E Maria, Gabriela, finalmente virou-se, os olhos brilhando com uma febre perigosa. Certifique-se de que ninguém mais ouça, nenhuma alma. Maria engoliu em seco, compreendendo a gravidade do convite. O engenho velho era um lugar esquecido, cercado por mato alto e sombras densas, longe dos olhos vigilantes do coronel e dos capatazes.
Era o cenário perfeito para um crime ou para um pecado inesquecível. Lá embaixo, Gabriela viu quando Maria se aproximou de Vicente. Ela observou a interação como se fosse uma peça de teatro silenciosa. A Mucama falou baixo e Vicente parou o que estava fazendo. Ele não olhou para a varanda imediatamente. Ele apenas inclinou a cabeça, ouvindo a mensagem.
Então, lentamente ele ergueu o olhar. Pela primeira vez, seus olhos se encontraram. Não houve a submissão esperada de um escravo. O olhar de Vicente era um desafio. Ele sabia exatamente o que aquele convite significava. Ele não sorriu, mas houveum brilho de compreensão em suas pupilas escuras. Ele assentiu uma única vez, um pacto silencioso selado sob o sol inclemente.
O restante do dia foi uma agonia de minutos que se arrastavam como horas. Gabriela mal tocou na comida, sentindo o estômago apertado. Ela se preparou como se fosse para um ritual. Lavou-se com água de rosas, mas evitou os perfumes fortes para não deixar rastros. Escolheu um vestido de algodão mais simples, sem tantas anáguas, prevendo que a facilidade de despir-se seria necessária.
Enquanto caminhava em direção ao engenho velho, o som de seus próprios passos nas folhas secas parecia ensurdecedor. O medo tentava fazê-la recuar. sussurrando sobre a crueldade de Vicente e o destino de Rosa, mas o desejo era um senhor mais poderoso. Ao chegar a porta de madeira apodrecida do engenho, ela parou.
O cheiro de mofo e açúcar fermentado preenchia o ar. Lá dentro, entre as sombras das moendas paradas, ela viu um vulto. Vicente já estava lá. Ele não estava trabalhando. Estava encostado em uma viga de madeira, esperando-a com a paciência de um predador. Assim a veio. A voz dele profunda e rouca fez o corpo de Gabriela vibrar até os ossos. Eu vim, Vicente.
Quero ver se a fama que você carrega é justiça ou apenas conversa de cenzala. Vicente deu um passo à frente, saindo da sombra. A luz que filtrava pelo telhado quebrado iluminou sua imponência. Ele levou a mão ao cordão da calça, desfazendo o nó com uma lentidão que era pura tortura. Assim é delicada demais para o que eu tenho para oferecer.
Pode não aguentar o tranco. Gabriela sentiu o desafio no ar. O calafrio desconhecido agora era uma labareda. Ela deu um passo em direção a ele, fechando a porta atrás de si, selando o destino daquela tarde. O boato estava prestes a se tornar carne e ela, a orgulhosa Sha, estava prestes a descobrir o que significava de fato ser partida ao meio.
O interior do engenho desativado cheirava a tempo parado, madeira úmida e o adocicado persistente do melaço que um dia escorrera por aquelas moendas. A luz do sol filtrada pelas frestas do telhado de telhas de barro caía em feixes dourados sobre o chão batido, iluminando a poeira que flutuava no ar. Vicente estava parado no centro do galpão, uma estátua de ébano que parecia grande demais para aquele espaço.
Assim, a tem certeza do que veio buscar? A voz de Vicente era um estrondo contido, uma vibração que Gabriela sentiu ressoar no fundo do seu ventre. Ela não respondeu com palavras. O fôlego estava curto, preso na garganta pela visão do homem à sua frente. Com as mãos trêmulas, Gabriela desfez os laços do seu vestido. O tecido de algodão escorregou pelos seus ombros, revelando a pele alva, quase translúcida, que contrastava com a penumbra do lugar.
Ela ficou apenas de combinação, sentindo-se vulnerável e, ao mesmo tempo, possuída por uma audácia que nunca imaginou ter. Vicente não se moveu de imediato. Ele a estudou com olhos famintos, percorrendo cada curva de seu corpo com uma posse que nenhum senhor jamais teve sobre ele. Então, com um movimento decidido, ele desfez o nó da corda que sustentava suas calças de brm.
Quando o tecido caiu, o mundo de Gabriela parou. Ali diante dela estava a razão de todos os sussurros, o mito transformado em carne e sangue. A ferramenta de Vicente era uma visão que desafiava a realidade, negra, latejante e de uma imponência que fazia o coração de Gabriela martelar contra as costelas. Ela se projetava com uma força que parecia capaz de romper qualquer barreira.
Era grossa, comprida e ostentava veias que desenhavam um mapa de puro vigor masculino. Gabriela sentiu os joelhos fraquejarem. O que Maria e Carmen descreveram não chegava nem perto da magnitude daquela peça de anatomia bruta. “Venha cá”, ordenou ele. A voz de Vicente não admitia recusas. Gabriela caminhou até ele, sentindo o calor que emanava daquele corpo massivo.
Quando as mãos imensas dele envolveram sua cintura, ela soltou um gemido baixo. Os dedos de Vicente eram fortes, calejados pelo trabalho, mas havia uma precisão neles que a deixava sem defesas. Ele a ergueu com uma facilidade assustadora e assentou sobre uma mesa de madeira maciça, abrindo suas pernas sem qualquer hesitação.
O contato inicial foi um choque elétrico. Quando a ponta daquela dotação colossal encostou na entrada de Gabriela, ela arregalou os olhos. O volume era tão vasto que ela sentiu que não haveria espaço. Vicente não usou de delicadezas supérfluas. Ele pressionou lentamente, permitindo que ela sentisse cada milímetro daquela invasão.
Gabriela arfou, as mãos buscando apoio nos ombros largos dele, as unhas cravando-se na pele escura. “É muito, é demais, Vicente”, ela sussurrou. A voz entre o pânico e o êxtase. Aguenta senh entrega. Ele respondeu e com um impulso firme, ele se acomodou de vez. Gabriela soltou um grito abafado contra o pescoço dele. A sensação era de ser literalmentepartida ao meio.
Vicente ocupava cada canto, cada fresta, esticando as paredes de seu corpo a um limite que ela não sabia existir. Era uma plenitude dolorosa e absoluta. Pela primeira vez na vida, Gabriela sentiu-se preenchida. Não era o toque fútil do marido, era uma força da natureza que a rei vindicava por dentro. Vicente começou a se mover.
Cada estocada era como um golpe de martelo em brasa. Ele a segurava com força, os músculos dos braços saltando enquanto ele a trazia para si, aprofundando o contato até que não restasse 1 mil separação. O som da carne batendo contra a carne preenchia o engenho, misturado aos suspiros pesados de Vicente e aos gemidos descompassados de Gabriela. Ela estava em trans.
A dor inicial havia se transformado em uma queimação intensa, um prazer agudo que a fazia revirar os olhos. Ela sentia a força bruta de Vicente, a falta de piedade em seus movimentos, que a tratavam não como uma senhora de engenho, mas como uma mulher faminta por sua virilidade. Ele a possuía com uma fome ancestral, sem pressa, mas com uma intensidade que a deixava sem ar.
Quando o clímax veio, foi como uma explosão que estilhaçou sua consciência. Gabriela sentiu o jato quente de Vicente inundá-la, um peso profundo que parecia selar seu destino. Ela desabou contra o peito dele, suada, trêmula e com a sensação de que seu corpo nunca mais seria o mesmo. O apelido de Vicente não era apenas um boato, era uma verdade escrita em sua carne.
Ela havia sido partida e naquela destruição encontrara a vida. O silêncio que se seguiu ao encontro no Engenho velho era apenas quebrado pelo som da respiração pesada de Vicente e pelo estalar da madeira, sob o peso daquele ato monumental. Quando o escravo finalmente se afastou, Gabriela sentiu um vazio súbito, seguido por uma onda de calor que parecia latejar de dentro para fora.
Ela tentou se mover, tentou deslizar para fora da mesa de madeira, mas suas pernas simplesmente não responderam. Sim. Ah. Vicente murmurou, sua voz ainda carregada pela rouquidão do esforço. Ele estendeu a mão para ajudá-la, mas Gabriela apenas balançou a cabeça, os olhos arregalados, enquanto a realidade física do que acabara de acontecer começava a se manifestar.
Ao tentar fechar as pernas, um grito mudo morreu em sua garganta. A dor era aguda, um estiramento que parecia ter alcançado fibras que ela nem sabia que possuía. Ela estava aberta. A sensação de preenchimento colossal de Vicente deixara um rastro de fogo. Cada movimento mínimo causava um atrito que ardia, como se brasas tivessem sido colocadas entre suas coxas.
Ela descobriu naquele instante o preço real da fama de Vicente. Ele não apenas possuía, ele marcava o território com uma brutalidade que transformava o corpo feminino. Com um esforço hercúlio e o apoio das paredes do engenho, Gabriela conseguiu se vestir. Suas mãos tremiam tanto que os laços do vestido ficaram frouxos e desajeitados.
Ao dar o primeiro passo em direção ao casarão, ela quase desabou. Suas coxas estavam rígidas e a pele interna, tão delicada, estava esfolada e inchada. O caminhar era um suplício. Ela precisava dar passos curtos, mantendo as pernas levemente afastadas para evitar o contato agonizante da pele assada. Ao entrar no casarão pelas portas dos fundos, Maria a esperava nas sombras.
A mucama não precisou de uma palavra sequer. Ao ver o rosto pálido de Gabriela, o suor frio em sua testa e, principalmente, o jeito travado e sofrido com que ela subia os degraus, Maria entendeu tudo. “Ai, minha nossa senhora! Ele não teve pena mesmo”, sussurrou Maria, correndo para amparar a patroa por debaixo do braço.
“Leve-me para o quarto, Maria. Feche as portas. Eu eu não consigo andar”, conseguiu dizer Gabriela. a voz entrecortada pela dor. Uma vez nos aposentos, o desastre físico foi revelado. Ao retirar a combinação, Gabriela viu as marcas de Vicente, as impressões digitais dele, ainda marcadas em roxo em seus quadris, e a vermelidão intensa na região íntima.
Ela estava em carne viva. O prazer avaçalador de minutos atrás agora era uma fatura cobrada em dor puríssima. Maria trouxe compressas de água fria e banha de sucupira. tentando acalmar o incêndio que consumia a pele da Siná. No entanto, o maior desafio não era a dor, mas o coronel.
Quando o sol começou a se pôr e os passos pesados do marido ecoaram no corredor, Gabriela sentiu o pânico subir pela garganta. Ela não podia ser tocada. O simples pensamento de receber o marido, por menor que ele fosse, parecia uma tortura insuportável diante do estado em que seu corpo se encontrava. Gabriela. A voz do coronel veio de trás da porta.
O jantar está posto e depois espero que esteja mais animada do que ontem. Gabriela fechou os olhos com força, mordendo o lábio para não soltar um gemido de dor enquanto se acomodava sob. “Não subirei, senhor”, respondeu ela, forçando uma voz fraca. Uma enchaqueca terrível me abateu desdea tarde.
A luz me cega e o estômago revira. Peço que jante só e me perdoe, mas preciso de escuro e silêncio absoluto. Houve um silêncio do outro lado. O coronel, acostumado com a fragilidade feminina que ele mesmo cultiva, resmungou algo sobre mulheres de vidro e se retirou. Foi a primeira de muitas mentiras. Nos dois dias seguintes, Gabriela viveu uma reclusão forçada.
Alegou em disposição gástrica, febre e dores nas juntas. Ela assistia da sua janela rosa caminhar pelo pátio com o mesmo andar travado. E as duas trocaram um olhar rápido, um pacto de sangue e segredo. Gabriela estava marcada. Ela sabia que, por mais que a dor passasse, seu corpo agora guardava a memória daquele preenchimento. Ela estava estragada para a mediocridade do marido e enquanto inventava desculpas para manter o coronel longe de sua cama, seu pensamento traidor e sedento já calculava quantos dias faltavam para que o inchaço baixasse e ela pudesse mais
uma vez ser partida ao meio por Vicente. O terceiro dia amanheceu com um mormaço sufocante que parecia pressagiar o inevitável. Gabriela, embora ainda sentisse o latejar sordo entre as coxas e a pele sensível ao menor toque do tecido, já não podia mais sustentar a farça da enfermidade. As desculpas de enxaqueca e febre haviam se esgotado diante da impaciência do coronel, que começava a circular a porta do quarto como um lobo faminto e irritadiço.
Ao cair da noite, o som das botas do marido no corredor não trouxe o medo habitual, mas uma náusea profunda. Quando ele entrou, o cheiro de aguardente e fumo de corda pareceu invadir cada poro de Gabriela. Ela estava deitada, envolta em sua camisola de seda mais fina, mas sentia-se como se estivesse vestindo uma armadura de gelo.
“Espero que a saúde tenha retornado, Gabriela”, disse o coronel, desabotoando o colete com movimentos bruscos. Já tive paciência demais com os seus desfalecimentos. Ela a sentiu em silêncio, sentindo o corpo tensionar. O coronel não perdeu tempo com preliminares. Ele nunca o fazia. Para ele, o ato era uma descarga necessária, uma obrigação da esposa.
Quando ele se livrou das roupas e subiu no leito, Gabriela fechou os olhos e, por um instante, a imagem de Vicente, o ébano suado, a força bruta, a ferramenta que a havia transformado, inundou sua mente. Mas a realidade que se seguiu foi um choque de amargura. Quando o coronel finalmente tentou a penetração, o impacto emocional em Gabriela foi devastador.
Onde Vicente havia sido um ferro em brasa, dilatando sua carne, ocupando cada milímetro e esticando seus limites até o limite do grito, o marido não era nada. O membro dele, pequeno e fino como o famigerado pé de galinha, parecia ter se tornado ainda menor diante da memória do gigante. Gabriela sentiu-se larga, imensa, como uma catedral vazia, onde um vento frio soprava sem encontrar resistência.
Não havia pressão, não havia o preenchimento que a fizera perder o fôlego três dias antes. O movimento do marido era patético. Ele se esforçava bufando contra o pescoço dela, mas Gabriela mal conseguia sentir que havia algo ali dentro. Era como se ele estivesse tentando preencher um oceano com uma gota de água.
Um sentimento de desolação tomou conta dela. Ela percebeu com uma clareza cruel que o encontro com Vicente a havia moldado. O escravo não apenas a possuira, ele havia reescrito a anatomia do seu desejo. Agora, o seu corpo, que fora expandido pela virilidade colossal de Vicente, parecia não mais reconhecer a existência de algo tão ínfimo quanto o que o coronel oferecia.
Ela estava aberta demais, profunda demais para aquele homem minguado. O ato prosseguiu em um silêncio cortante, apenas interrompido pelos sons rítmicos e desajeitados do coronel. Gabriela mantinha o olhar fixo no teto, sentindo-se uma fraude. Ela sentia a humidade, mas não era de excitação. Era o resquício das pomadas que Maria passara e o suor da angústia.
O prazer que ela agora sabia ser uma força capaz de partir uma mulher ao meio, era uma memória distante e inalcançável naquele leito conjugal. Quando o marido finalmente terminou, soltando um suspiro de alívio e virando-se para o lado para dormir, Gabriela continuou ali, olhando para a escuridão. O vazio físico que sentia entre as pernas era o reflexo do vazio em sua alma.
Ela compreendeu a maldição que caira sobre ela. Ao provar do fruto proibido de Vicente, ela se tornara incapaz de se satisfazer com o que era permitido. “É inútil”, sussurrou ela, tão baixo que nem o silêncio pôde ouvir. Ela sabia que aquela sensação de estar vazia não passaria. O coronel nunca mais seria o suficiente.
A partir daquela noite, cada toque do marido seria um lembrete da sua insignificância. O prazer agora tinha um dono, um mestre que a aguardava nas sombras do engenho velho. Gabriela percebeu, com um misto de pavor e excitação, que sua vida agora seria uma busca incessante por aquele preenchimento brutal, pois só Vicentepossuía a chave e o tamanho para fechar o abismo que se abrira dentro dela.
O vício não começou no corpo, mas no pensamento. Nos dias que se seguiram aquela noite desoladora com o marido, Gabriela descobriu que a memória da carne é muito mais persistente do que a da alma. O casarão, com suas paredes grossas e janelas coloniais havia se tornado uma caixa de eco, onde cada som, o ranger de uma porta, o bater de um martelo no pátio, arremetia a Vicente.
Ela era agora uma refém, uma prisioneira do preenchimento que só o escravo sabia dar. A rotina de Siná Gabriela transformou-se em um teatro de aparências. Durante o café da manhã, sob o olhar severo e distraído do coronel, ela mantinha a postura ereta, a xícara de porcelana equilibrada entre dedos finos, enquanto sua mente percorria as curvas do corpo de ébano de Vicente.
Ela ou via pela janela, carregando cestos, movendo-se com aquela graça animal que denunciava a potência escondida sob as calças de brm. Às vezes, o olhar de Vicente subia e encontrava o dela. Era um jogo perigoso, um segundo a mais de contato visual e o mundo poderia desmoronar, mas o perigo era o tempero que tornava o vício ainda mais incontrolável.
As tardes tornaram-se o centro de sua existência. O engenho velho não era mais um lugar de reparos fictícios, era o seu templo de luxúria. Gabriela já não sentia medo da dor que a deixava sem andar. Ao contrário, ela ansiava por ela. A ardência, o inchaço e a sensação de ser partida tornaram-se as únicas provas reais de que ela estava viva.
Mais uma vez, Maria, sussurrava ela para Amucama, que agora era sua única confidente e vigia. Diga a ele que estarei lá quando o sol começar a cair. Os encontros tornaram-se cada vez mais selvagens. Vicente, percebendo que a patroa se entregava com uma fome que rivalizava com a dele, deixou de lado qualquer vestígio de hesitação. Ele a possuía em cima das sacas de café contra as vigas de madeira, ignorando os vestidos caros que se rasgavam sob sua força.
Gabriela entregava-se ao abandono total. Ela buscava o impacto, buscava aquela sensação de limite, onde o tamanho descomunal de Vicente a obrigava a esquecer quem era, sua posição social e até seu próprio nome. A cada entrega, ela se sentia mais moldada a ele. O corpo de Gabriela parecia terse transformado em um molde perfeito para a ferramenta de Vicente.
O prazer era tão profundo, tão visceral, que as noites com o coronel tornaram-se quase cômicas em sua mediocridade. Ela aceitava o toque minguado do marido, com uma indiferença gélida, fechando os olhos e contando os minutos para que ele terminasse sua performance de pé de galinha. Por dentro, ela ria. Ela sabia o que era ser possuída por um gigante enquanto o marido brincava de ser homem.
O vício, porém, cobrava seu preço na vigilância. Gabriela tornou-se mestre na arte da dissimulação. Ela inventava festas religiosas, visitas a comadres inexistentes e horas extras de bordado para garantir seus momentos com Vicente. A tensão sexual entre os dois no pátio, diante de todos, era quase palpável.
Quando Vicente passava por ela e o cheiro de seu suor e da terra a atingia, Gabriela sentia os joelhos fraquejarem. Ela precisava dele como um sedento. Precisa de água. E a imensidão de Vicente era a única coisa capaz de saciar aquela sede. Ela percebeu que não havia mais volta. Estava viciada na brutalidade, no tamanho que a fazia arfar de dor e deleite, e na certeza de que, após Vicente, nenhum outro homem jamais conseguiria tocá-la sem que ela sentisse o eco do vazio.
Ela era a, mas em segredo era a submissa daquele que a partia ao meio todas as tardes, transformando sua vida em um jogo de sombras, onde a luz só existia entre as pernas de Vicente. O calor de Santa Maria parecia ter se tornado um inimigo pessoal de Siná Gabriela. Cada nascer do sol trazia consigo uma luz que feria seus olhos e um abafamento que parecia comprimir seus pulmões.
Mas não era apenas o clima. O primeiro sinal veio em uma manhã de terça-feira, quando o cheiro do café fresco que ela tanto amava subiu às escadas e atingiu suas narinas. O estômago de Gabriela deu uma volta completa e ela mal teve tempo de alcançar a bacia de porcelana antes de ser sacudida por um enjoo violento e amargo. É o mormaço, simá.
O tempo está virando murmurou Maria enquanto limpava a testa da patroa com um pano embebido em água de colônia. Mas Gabriela sabia no fundo de sua alma que não era o tempo. Seu corpo, aquele mesmo corpo que Vicente havia moldado com suas mãos de gigante e preenchido com sua força brutal, estava emitindo sinais que ela não podia mais ignorar.
Seus seios, antes delicados estavam pesados e sensíveis, com as auréulas escurecidas, como se tivessem sido tocadas pelo ébano da pele de seu amante, que havia o atraso. A lua havia passado e o sangue que deveria marcar sua feminilidade mensal simplesmente não viera. Ela se olhou no espelho de moldura dourada,despindo-se da camisola de seda.
Passou a mão pelo ventre, que ainda parecia plano aos olhos alheios, mas que para ela já carregava uma densidade nova, um peso que não era dela. O pânico frio e cortante começou a serpentear por sua espinha. O sangue de Vicente”, pensou ela, e um calafrio a percorreu. “Eu carrego nas minhas entranhas o fruto daquele que me partiu ao meio.
” A descoberta trouxe uma dualidade insuportável. Por um lado, havia uma satisfação primitiva, uma conexão eterna com a virilidade monumental de Vicente. Por outro, havia o pavor absoluto da morte. Naquela vila naquele tempo, uma grávida de um escravo era uma sentença de desgraça, ou coisa pior. O coronel, apesar de sua mediocridade na cama, era um homem de honra violenta e orgulho cego.
Naquela tarde, no esconderijo do Engenho velho, o encontro foi diferente. O desejo ainda estava lá, latente e feroz, mas Gabriela agia com uma cautela desesperada. Quando Vicente a tomou em seus braços, ela sentiu a força dele de uma maneira nova. Ela olhou para aquele homem para aquela ferramenta colossal que a havia subjugado tantas vezes e percebeu que a vida que crescia nela era o resultado inevitável daquela entrega sem limites.
Vicente não tinha pena na hora da luxúria e agora a natureza também não teria pena dela. “Você está diferente, Simá”, disse Vicente, a voz profunda vibrando contra o peito dela enquanto ele a segurava após o ato. Seu cheiro mudou. Gabriela estremeceu. Vicente, com seus instintos de bicho, sentia a mudança antes mesmo que ela se tornasse visível.
“Eu carrego um segredo, Vicente. Um segredo que pode nos matar”, sussurrou ela, escondendo o rosto no pescoço suado do homem. Ele não respondeu imediatamente. Suas mãos imensas, que tantas vezes a haviam deixado sem andar, agora pousaram com uma estranha proteção sobre o ventre de Gabriela. O silêncio no engenho era pesado, carregado com a gravidade do que estava por vir.
O segredo não era mais apenas uma memória de prazer ou uma marca de dor nas coxas. Era carne, osso e um sangue que não era o do coronel. Nos dias que se seguiram, os enjoos tornaram-se mais frequentes e as desculpas para evitar o marido tiveram que se tornar mais elaboradas. Gabriela vivia em um estado de vigília constante, observando cada olhar do coronel, cada comentário das outras senhoras da vila.
Ela via o filho de Vicente crescendo dentro de si e, a cada vez que sentia um movimento sutil nas entranhas, lembrava-se do preenchimento avaçalador das tardes no engenho. O medo e a paixão agora caminhavam de mãos dadas. Ela era uma mulher marcada, carregando o DNA do homem que partia ao meio em sua linhagem aristocrática.
O segredo estava cravado nela, e Gabriela sabia que em poucos meses o mundo veria o que ela tentava esconder, que a de Santa Maria pertencia em corpo e alma à brutalidade inesquecível de Vicente. O ambiente no casarão dos Albuquerque estava carregado não apenas pelo mormaço de janeiro, mas por um silêncio que cortava como navalha.
O coronel, homem de poucas palavras, mas de instintos forjados na vigilância de suas terras, começara a observar a esposa com uma atenção que Gabriela desconhecia. Ele não era inteligente, mas era bicho de fazenda. farejava a mentira como quem fareja a chuva antes dela cair. Na mesa de jantar, o som dos talheres de prata batendo na porcelana era o único ruído.
Gabriela mantinha os olhos fixos no prato, sentindo o estômago dar voltas. O Enj era agora um companheiro constante, mas o pavor de que o marido notasse sua palidez era ainda maior. “Você anda muito distante, Gabriela”, disse o coronel, a voz seca, enquanto limpava os lábios com o guardanapo de linho. As enchaquecas não cessam, o bordado não avança e suas visitas ao engenho velho tornaram-se frequentes demais para uma mulher da sua posição.
Gabriela sentiu o sangue fugir do rosto. O coração martelou tão forte que ela achou que ele saltaria pelo peito. “Óhoho, é fresco, senhor. O calor desta casa me sufoca”, respondeu ela, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem por baixo da mesa. “Frescor ou distração?” O coronel estreitou os olhos, aqueles olhos miúdos que agora pareciam buscar nela um sinal de traição.
“Ouvi dizer que aquele escravo novo, o tal Vicente, anda fazendo reparos por lá. Um homem de fama perigosa. Dizem que as mulheres da vila perdem o juízo com ele. A menção ao nome de Vicente foi como um choque elétrico. Gabriela apertou as coxas por baixo da saia, sentindo o latejar que a memória de Vicente sempre lhe provocava.
O segredo em seu ventre pareceu pesar toneladas naquele momento. Ela percebeu que o cerco estava se fechando. O coronel não tinha provas, mas tinha a suspeita. E para um homem como ele, a suspeita era o suficiente para armar um chicote ou uma garruxa. Ao subir para os aposentos, Gabriela desabou. Ela sabia que o jogo de riscos havia chegado ao limite.
Se continuasse a ver Vicente, onascimento da criança, que ela já sentia ser o fruto indisfarçável daquela pele de ébano, seria a sentença de morte de ambos. Ela viu a imagem de Vicente sendo arrastado, a força dele subjugada pelo ferro e o horror a paralisou. Maria chamou ela quando a Mucama entrou para preparar a cama. Não haverá encontro amanhã, nem depois. Avise a ele. Diga que o coronel está de olhos abertos.
Diga que ele deve se manter longe, na lida pesada, e que não deve sequer olhar para a casa grande. Maria assentiu, os olhos cheios de uma tristeza cúmplice. Ela sabia que a separação era necessária, mas sabia também o que aquilo custaria a alma da patroa. A noite foi um tormento. Gabriela deitou-se ao lado do marido, sentindo o cheiro de fumo dele e o vazio de sua presença.
O desejo por Vicente, no entanto, não respeitava decretos de segurança. Mesmo em pânico, seu corpo clamava pelo preenchimento avaçalador. Ela fechava os olhos e sentia a falta daquela mão gigante em sua cintura, daquela invasão que a fazia sentir-se partida e completa ao mesmo tempo. Era um vício cruel. Ela precisava parar para sobreviver, mas sentia que sem o toque de Vicente já estava morrendo por dentro.
Nas sombras do quarto, ela acariciou o ventre. O cerco estava fechado. A liberdade que encontrara no pecado agora se transformava em uma cela de silêncio. Ela teria que carregar o filho do gigante em segredo, enquanto o desejo continuava a queimar, como um incêndio subterrâneo, pronto para devorar o que restava de sua sanidade. O adeus a Vicente não era uma escolha, era um sacrifício de sangue, mas a fome por ele, ela sabia, seria eterna.
O ar daquela noite estava tão parado que o próprio tempo parecia ter medo de avançar. No horizonte, nuvens carregadas de eletricidade prometiam uma tempestade que se recusava a cair, apenas aumentando a opressão no peito de Siná Gabriela. No Engenho velho, o cenário de tantas tardes de glória e pecado. As sombras agora não eram um convite, mas um velório.
Vicente estava lá, mas não havia o vigor habitual em sua postura. Ele parecia maior do que nunca, uma silhueta de ébano fundida à escuridão, mas seus olhos, que sempre foram labaredas de desejo e desafio, carregavam agora o peso da despedida. Ele sabia, com a sabedoria ancestral de quem lê os sinais da terra e do sangue, que o tempo da luxúria terminara.
O ventre de Gabriela, que ele vira crescer sob suas mãos calejadas era agora um relógio de areia, marcando os minutos que restavam de sua vida. Assim sabe que não posso ficar. A voz de Vicente era um trovão baixo carregado de uma dor que ele não se permitia demonstrar em gestos.
Quando essa criança chorar pela primeira vez, o mundo vai saber o que fizemos. E o coronel não vai querer o meu sangue apenas. Ele vai querer a minha alma. Gabriela sentiu as pernas falharem. Ela se aproximou dele, buscando o calor daquele corpo que a havia partido ao meio e reconstruído tantas vezes. Suas mãos brancas, pequenas e trêmulas, perderam-se na vastidão do peito de Vicente.
Ela sentiu a batida do coração dele, um ritmo forte e constante, como o tambor de uma guerra que eles haviam perdido. “Para onde você vai, Vicente?”, ela sussurrou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios. O que será de mim sem o seu preenchimento, sem a sua força, vou morrer de vazio nesta casa de mortos? Vicente assegurou pelos ombros, a força dos seus dedos deixando marcas que ela levaria como relíquias.
Vou para onde o homem branco não entra sem pagar com a vida. Vou para o catucá, o quilombo me espera assim lá. Eu sou homem, não sou ferramenta. A última noite de despedida não foi de movimentos selvagens ou da brutalidade erótica que os caracterizava. Foi um encontro de silêncios e de uma dor que transcendia a carne.
Vicente a possuiu uma última vez, mas houve uma estranha e terrível melancolia em cada estocada. Ele apreencheu com a lentidão de quem quer gravar a própria essência no útero daquela mulher, como se quisesse garantir que o filho que ali crescia jamais esquecesse a linhagem de gigantes de onde vinha. Gabriela gemia não apenas pelo tamanho que a dilatava, mas pela consciência de que aquele era o último sopro de vida verdadeira que ela sentiria.
Quando o ato terminou, Vicente não se vestiu imediatamente. Ele ficou ali observando Gabriela sob a luz pálida da lua que filtrava pelo telhado quebrado. Ele tocou o ventre dela, um gesto de posse. E a Deus cuide do que é nosso. Ele vai ter a minha força. E quando assim a olhar para ele, vai lembrar que houve um homem que a fez pequena para torná-la grande.
Sem mais palavras, Vicente recolheu suas poucas posses. Ele se moveu em direção à porta do engenho, fundindo-se a mata densa que rodeava a propriedade. Gabriela ficou para trás, nua sobre as sacas de café, sentindo o semen quente escorrer por suas coxas e o vazio da alma se tornar um abismo.
Ela ouviu o estalar de umgalho na distância e o silêncio absoluto que se seguiu. Vicente havia partido. O homem que partia ao meio, as mulheres da vila. Agora era uma lenda que se embrenhava no quilombo do catucá, deixando para trás uma marcada, uma criança proibida e um rastro de saudade que nenhuma penitência seria capaz de apagar. A tempestade finalmente caiu, lavando o pátio do engenho.
Mas Gabriela sabia que nada lavaria a marca de Vicente de dentro dela. Ela voltou para o casarão, caminhando com dificuldade, não apenas pela dor física que o gigante sempre lhe deixava, mas porque agora carregava o peso de um mundo inteiro em suas entranhas, sem o braço dele para ajudá-la a sustentar.
O quarto principal do casarão estava mergulhado em uma penumbra abafada, onde o cheiro de suor, ervas fervidas e o medo ancestral de Gabriela se misturavam em um coquetel sufocante. As janelas estavam cerradas, mas o calor de Santa Maria parecia atravessar as paredes de pedra, testemunhando o esforço final daquela que porve meses carregara um segredo que latejava a cada movimento.
Gabriela estava exausta. O parto fora longo, uma batalha de horas que parecia mimetizar a força bruta de quem gerara aquela vida. A cada contração, ela sentia o eco do preenchimento de Vicente. Parecia que o filho, assim como o pai, reivindicava seu espaço com uma imposição que a partia novamente.
Maria e Carmen, as únicas presentes além da velha parteira, trocavam olhares carregados de uma tensão que ia além da saúde da patroa. Elas sabiam o que estava por vir. “Força, sim, há! Já se vê o topo da cabeça! Exclamou a parteira, uma mulher de mãos calejadas e olhos que já haviam visto de tudo naquela colônia. Com um último grito que pareceu arrancar a alma de Gabriela, a criança finalmente se libertou.
O choro que ecoou pelo quarto não foi um gemido fraco, foi um brado forte, um anúncio de existência que fez o coração de Gabriela parar. O silêncio que se seguiu não foi o de alívio, mas um silêncio mortal, denso o suficiente para ser cortado por uma faca. A parte, que segurava o recém-nascido, paralisou. Seus braços tremeram levemente.
Maria e Carmen recuaram um passo, levando as mãos à boca em um gesto de puro choque. A criança não era apenas morena. O menino que a parteira sustentava era retinto, de uma pele escura e profunda como a noite sem estrelas. um ébano absoluto que brilhava sob a luz das velas. Não havia margem para dúvidas. Os traços eram inconfundíveis, o nariz largo, os lábios carnudos e a estrutura óssea, que já prometia a robustez do gigante que fugira para o quilombo.
Era a cópia em miniatura de Vicente, uma prova viva e gritante de que o homem que partia ao meio havia deixado sua marca definitiva na linhagem dos Albuquerqu. Gabriela, pálida como o lençol que a cobria, tentou se erguer nos cotovelos. “Deixe-me vê-lo”, sussurrou a voz falhando. Quando a parteira, sem dizer uma palavra, aproximou o bebê, Gabriela sentiu o mundo desabar e se reconstruir em um instante. Era o horror e a beleza.
O horror pela sentença de morte que aquela cor representava e a beleza de ver a força de Vicente ali em seus braços. A criança abriu os olhos. Olhos escuros e firmes que pareciam já carregar o desafio do pai. “Meu Deus! Sim!”, murmurou Carmen, a voz trêmula de pavor. O coronel, se ele entrar por aquela porta, o silêncio do quarto era apenas quebrado pelo som da respiração pesada do bebê e pelo estalar das velas.
As mulheres ali presentes sabiam que o que seguravam não era apenas um recém-nascido, mas uma bomba pronta para explodir a estrutura daquela sociedade escravagista. A verdade não estava mais escondida nas entranhas ou nos sussurros do engenho velho. Ela estava ali exposta, retinta e innegável. Gabriela olhou para a porta trancada, imaginando o coronel à espera no corredor, e depois voltou o olhar para o filho.
O medo era imenso, mas algo no vigor daquela criança a fez cerrar os dentes. O fruto da tarde no engenho era real, era carne de sua carne. E ela percebeu que a partir daquele momento, sua vida seria uma mentira eterna para proteger a única verdade que a fizera se sentir mulher. Limpem-no”, ordenou Gabriela, uma autoridade desesperada surgindo em sua voz.
Envolvam-no em mantas grossas e Maria, prepare-se. O jogo ainda não acabou. O silêncio mortal foi substituído por uma atividade frenética e silenciosa. O nascimento da verdade fora um choque, mas a sobrevivência exigiria uma audácia que apenas uma mulher moldada pela força de Vicente poderia ter. O quarto ainda cheirava a sangue, suor e ao óleo de amêndoas usado para limpar o recém-nascido.
Mas para Gabriela, o ar cheirava a perigo iminente. O bebê, envolto em rendas caríssimas de bruxelas que contrastavam violentamente com o ébano profundo de sua pele, descansava nos braços de Maria. A porta do quarto rangeu. O coronel impaciente e bufando como um animal que presente algo errado, entrouantes mesmo de ser anunciado.
Então a voz dele ecoou, carregada de uma autoridade ríspida. Onde está o herdeiro dos Albuquerque? O silêncio que se seguiu foi absoluto. Maria e Carmen baixaram as cabeças, os corpos trêmulos. A parte recuou para as sombras. Gabriela, sentada entre os travesseiros, pálida, mas com um brilho gélido nos olhos que nunca tivera antes, fez um sinal para que Maria aproximasse a criança.
Ela sentiu uma força estranha percorrer sua espinha, a mesma força bruta que Vicente lhe injetara nas tardes de engenho. Quando o coronel puxou o canto da manta e viu o rosto da criança, o tempo pareceu congelar. Ele recuou um passo, os olhos saltando das órbitas. O rosto dele passou do vermelho ao roxo em segundos. A mão direita buscou instintivamente o cabo da faca na cintura.
Que que ultrage é este, Gabriela? A voz dele saiu como um engasgo. Este menino, ele é retinto. Ele tem a cor da noite. Você me deu um filho de escravo na minha própria cama. Gabriela não desviou o olhar. Com uma frieza que surpreendeu a si mesma e paralisou as mucamas, ela soltou um riso curto e seco, quase de escárnio. “Cuidado com suas palavras, coronel”, disse ela, a voz firme como o aço.
“O senhor fala do seu próprio sangue? Ou será que sua memória é tão curta quanto sua visão?” O coronel parou, confuso pela audácia da esposa. “O que está dizendo, mulher? Olhe para este menino. Estou dizendo que o senhor ignora as histórias da minha família, mentiu ela com uma convicção aterradora. Minha bisavó, dona Constança, era filha de uma linhagem de nobres portugueses que passaram gerações nas colônias da África e da Índia.
Houve um antepassado, um capitão mor de sangue moreno muito antigo, cujo rastro se perdeu, mas que sempre foi o segredo guardado à sete chaves pelos meus. O sangue antigo às vezes pula gerações, coronel. Ele dorme por 100 anos para acordar quando quer. Ela fez uma pausa dramática, observando o marido.
Sabia que a lógica era frágil, mas conhecia o ponto fraco do homem, a vaidade e o pavor do ridículo. O senhor prefere acreditar que eu, uma Albuquerque, me deitaria com a ralé da senzala, colocando em risco minha honra e a sua? Gabriela continuou desafiadora. Ou prefere aceitar que a nobreza de Portugal tem raízes mais profundas e escuras do que sua ignorância supõe? Se o Senhor gritar aos quatro ventos que este filho não é seu, a vila inteira rirá do Senhor.
Dirão que o grande coronel foi traído debaixo do próprio nariz. O Senhor quer ser o corno da província ou o pai de um herdeiro com sangue de conquistadores distantes? O coronel olhou para o bebê e depois para a Gabriela. A dúvida lutava com o orgulho em seu rosto rústico. Ele imaginou as risadas nos bares, os coxichos na igreja, o fim de sua autoridade.
Se aceitasse a história do antepassado moreno, ele manteria o respeito e a linhagem intacta perante a sociedade. A mentira de Gabriela era uma saída honrosa para um homem covarde demais para enfrentar a verdade. Sangue antigo! Resmungou ele, limpando o suor da testa com as mãos trêmulas. De fato, ouvia histórias de linhagens nobres que tinham essas cores na Europa.
Exatamente, selou Gabriela, sentindo um alívio amargo. Ele tem a força dos Albuquerqu e a cor da nossa história oculta. Olhe para a robustez desse menino. Ele será um gigante entre os homens. O coronel aproximou-se e, com um toque desajeitado, aceitou a criança. O menino Vicente, pequeno gigante em roupas de seda, não chorou, apenas encarou o pai com a mesma altivez do homem que realmente o gerara.
O coronel escolheu a cegueira para salvar a própria face. E Gabriela, vitoriosa em sua desgraça, soube naquele momento que sua vida seria um eterno teatro, onde a única verdade que importava era que ela havia salvo o filho de Vicente, custasse o que custasse. O tempo em Santa Maria não corria.
Ele se arrastava pesado como as correntes que um dia Vicente carregara e que agora, de uma forma invisível, acorrentavam a alma de Gabriela. 10 anos se passaram desde aquela tarde de tempestade no Engenho velho, e o casarão dos Albuquerque tornara-se um mausoléu de silêncio e poeira dourada. Gabriela vivia em uma redoma de vidro soprado, mantendo as aparências de uma matrona respeitável, mas por dentro ela era apenas cinzas.
O brilho nos olhos que o desejo de Vicente havia acendido apagara-se por completo, dando lugar a uma melancolia vítria. Ela cumpria suas funções, presidia os jantares, coordenava as mucamas e sentava-se ao lado do coronel nos eventos da vila. O marido, cada vez mais curvado e consumido pelo vício no tabaco, tornara-se uma figura patética.
Ele nunca mais ousara procurar o leito de Gabriela com a insistência de antes. A presença do filho, aquele menino de pele retinta e força descomunal que corria pelo pátio, era um lembrete constante de uma dúvida que o coronel preferia enterrar no fundo de uma garrafa de aguardente. A vida íntima deGabriela era um deserto gélido.
Após ter sido partida ao meio pela magnitude de Vicente, o toque de qualquer outro homem, e principalmente o do marido, era uma ofensa. Ela nunca mais sentira o preenchimento, a pressão bruta, ou o êxtase que a fazia perder o juízo. Ela era uma mulher que conhecera o topo da montanha e agora era obrigada a viver no vale das sombras.
Frequentemente, nas noites de insônia, ela passava a mão pelas coxas, sentindo a ausência do fogo e da dor deliciosa que a deixara sem andar. A memória daquela ferramenta colossal era o seu único tesouro, uma relíquia erótica que ela guardava em segredo absoluto. Mas em meio às cinzas havia um sol. O jovem Antônio, como fora batizado o filho, era a única alegria que restava em seus dias.
Aos 10 anos, o menino já possuía os ombros largos e o olhar altivo de Vicente. Ele não caminhava como os outros filhos de coronéis. Ele dominava o espaço com uma força física que assustava os capatazes e encantava a mãe. “Olhe para ele, Maria”, dizia Gabriela, observando o filho de sua janela. Ele tem as mãos do pai, a mesma firmeza.
Antônio era a prova viva de que Gabriela não sonhara. Cada vez que ela abraçava o filho, sentia o vigor daquela linhagem de gigantes. O menino era retinto, lindo e indomável, carregando a mentira do sangue antigo, com uma naturalidade que desarmava qualquer boato malicioso. Ele era o seu triunfo e a sua penitência. Ver Antônio crescer com a beleza de Vicente era a única coisa que impedia Gabriela de se entregar à loucura da solidão.
Sobre Vicente restavam apenas sussurros que chegavam com os viajantes do sertão. Diziam que no quilombo do catucá havia um líder, um guerreiro de porte atlético que nenhum capitão do mato conseguia capturar. Gabriela sabia que era ele. Ela nunca o procurou e ele nunca voltou, mas o vínculo que os unia estava ali correndo pelo pátio do casarão.
Gabriela envelhecia com a dignidade das tragédias. Ela sabia que morreria naquela casa, ao lado de um homem que nunca a conheceu de verdade, cercada por luxos que não preenchiam o vazio que Vicente deixara. Mas quando o peso da infelicidade tornava-se insuportável, ela fechava os olhos e se transportava de volta ao engenho velho. Ela sentia novamente a invasão brutal, a força que a rompia e a completava, e o som da voz de Vicente, dizendo que ela nunca o esqueceria.
Ela morreria insatisfeita, faminta por um toque que o mundo não podia mais lhe dar, mas morreria, sabendo que, por um breve e violento período de sua vida, ela fora amada por um titã. Sua vida era feita de cinzas, mas no coração daquelas cinzas, o fogo de Vicente ainda ardia, protegido pelo amor que ela dedicava ao filho, o pequeno herdeiro de uma paixão que partiu ao meio linhagem para criar algo novo e eterno. No.
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