O Coronel MARCOU com FERRO a NOIVA… Lampião Fez Ele Provar o FERRO DELE
Você já viu o homem marcar a própria noiva que nem gado? Pois na vila de Poço Fundo o coronel Cícero fez essa malvadeza. Mas o que ele não sabia era que na vila morava um rapaz valente que, vendo a judiação, pegou o rumo da catinga atrás de Lampião. Esse causo é dos bão. Então me diga aí, compadre, de onde você tá escutando essa prosa e já se inscreve no canal para não perder os próximos causos.
Compadre, tem lugar nesse ser tão velho que parece que a justiça desaprendeu o caminho. Um lugar onde o medo senta na cadeira do prefeito, bebe da cachaça do dono da venda e dorme na cama do homem mais rico, mandando mais que a lei de Deus e dos homens. Pois essa era a vila de Poço Fundo, um buraco de poeira e sofrimento, onde um homem só era dono de tudo.
E esse homem era o coronel Cícero Bastos. O nome dele era de Santo, mas a alma era do Tinhoso, um cabra curto de paciência, grosso de trato e rápido no gatilho. O que ele queria, ele tomava. O que ele mandava, o povo tinha que obedecer de cabeça baixa, senão os macacos dele, um bando de jagunço da pior laia, resolviam a desobediência na ponta da peixeira.
O coronel Cícero era dono das terras, das casas, e achava que era dono da vida e da honra de quem morava ali. O povo de Poço Fundo vivia miúdo, rezando baixo, com medo até da própria sombra. E nesse lugar de silêncio forçado vivia a moça mais formosa que aqueles olhos de sertão já tinham visto. Rosalina. Ah, Rosalina.
Tinha os olhos que pareciam guardar a água que faltava na terra e o cabelo era escuro que nem a noite de serra. Mas essa beleza com Pade foi a sua desgraça. Rosalina era órfã, criada por uma tia Velia, e o coronel Cícero, já homem maduro e viúvo, botou os olhos nela e cismou que ela seria sua segunda mulher.
A família da moça, sem ter para onde correr, prometeu a menina para aquele demônio numa troca covarde para garantir a paz e uns trocados. Rosalina vivia triste, sabendo que seu destino era a gaiola de ouro daquele urubu. Mas o coração da gente não obedece ordem de coronel. Na mesma vila morava Juvêncio, um rapaz calado, de pouca prosa, mas de muito valor.
Juvêncio era o oposto do coronel, era bondoso, ajudava quem precisasse e tinha uma coisa que coronel nenhum podia comprar, coragem limpa. E mais, Juventaria. acertava o olho de uma seriema a 200 passos, mas só usava o talento para caçar, pro de comer. Ele e Rosalina tinham um querer bem antigo, daquele que nasce na infância, um respeito, um carinho que ficava só no olhar.
Ele sofria calado, vendo o destino que esperava a moça. O inferno começou a se azeitonar numa festa da padroeira, a vila inteira na praça, o coronel bebendo mais que o poço da vila e de olho em Rosalina, que nem uma águia em cima da presa. Num momento, Juvêncio se aproximou de Rosalina só para lhe dar um boa noite e perguntar se ela precisava de algo.
Foi uma conversa de nada, de respeito, mas o coronel Cícero viu. ciúme e a cachaça fizeram o sangue do infeliz ferver. Ele não fez nada na hora, esperou. Quando a festa mingou, ele mandou os jagunços levarem Rosalina para Casa Grande da fazenda. Vou adiantar o casamento. A noiva vai dormir onde é o lugar dela! Ele gritou pra tia da moça, que se ajoelhou no pó pedindo clemência, mas foi recebida com um empurrão que quase quebra os ossos da velha.

Juvêncio viu a cena de longe, o coração apertado. Mas o que podia fazer um homem só contra oito? Naquela noite, com padre, a lua não teve coragem de aparecer. Na casa grande, o coronel, bêbado de raiva, quis mostrar quem mandava. Você pensa que me engana, sua rapariga, dando prosa para aquele peãozinho de nada? Pois você vai aprender quem é seu dono.
Ele arrastou a moça pelos cabelos até o curral. onde os bois dormiam. Mandou dois jagunços segurarem Rosalina pelos braços, enquanto ele mesmo pegava o ferro de marcar gado, aquele com as iniciais CB e mandava esquentar no braseiro. Rosalina gritava, jurava por Deus que não tinha feito nada, mas o coronel estava cego. Você não é gente, você é minha, que nem meu gado, e vai carregar minha marca para sempre.
E ali na frente dos capangas que riam da desgraça, o ferro quente chiou na pele macia do ombro de Rosalina. O cheiro de carne queimada subiu, misturado com um grito que parecia rasgar à noite. A moça caiu desmaiada, a honra e a pele marcadas pela covardia. A notícia da malvadeza correu à vila no outro dia baixo que nem sussurro de assombração.
Quando o Juventus soube, o mundo dele virou de cabeça para baixo. Aquele rapaz manso sentiu uma raiva que ele nunca tinha conhecido, uma raiva que pedia justiça. Ele olhou pro seu rifle. Sabia que era bom de tiro, mas sabia que sozinho era homem morto. Se ele atirasse no coronel, os jagunços o picariam em pedaços e botariam fogo na vila.
A justiça ali não ia chegar por um homem só. Precisava de mais. Precisava de alguém que fosse mais temido que o próprio coronel, alguém que fizesse o sertão tremer. Sem dizer palavra à mãe, Juventual com farinha, rapadura e água. pegou seu rifle, conferiu a munição e, antes do galo cantar, sumiu na catinga. Ele tinha um rumo.
Ia atravessar o sertão, fosse a pé ou se arrastando, mas não ia sossegar enquanto não encontrasse o único homem que podia queimar o inferno de Cícero Bastos, Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. O caminho pela Caatinga não perdoa a sola do pé de quem não tem o costume. Juvêncio, apesar de ser matuto, era rapaz de vila de chão batido, e não um bicho do mato acostumado a fugir de volante.
O sol daquele sertão parecia ter raiva de quem andava por baixo dele. Rachou o couro do rapaz, secou-lhe a garganta e fez bolhas de água e sangue nascerem debaixo das alpercatas. Ele andou sem saber direito o rumo, apenas seguindo o que o coração mandava para dentro do sertão mais brabo. A comida que levou mal deu pro primeiro dia e a água acabou feito miragem.
A cabeça dele começou a pesar, o corpo a fraquejar e a imagem de Rosalina, com o ombro marcado a ferro e brasa, era o que o empurrava pra frente. Era a raiva, uma raiva santa que servia de água e de farinha. Quando já estava no limite, pensando que seu corpo ia secar ali e virar comida de carcará, ele encontrou um rastro que não era de bicho, nem de gente de bem, um galho de jurema quebrado de um jeito diferente, apontando para uma grota que nem o diabo achava.
Era um sinal, um marco que os vaqueiros diziam ser usado pelos homens de Lampião. O coração de Juvêncio deu um pulo, era medo e era alívio, tudo misturado. Tomou um resto de coragem, apertou o rifle velho que trazia a Tiracolo e se embrenhou na vereda estreita. O mato se fechou atrás dele, não andou nem sem passos e sentiu o cano frio de um rifle cutucando sua nuca.
Para onde tá a cabra, senão tua alma janta no inferno antes da janta? A voz era seca e arretada. Juventou, levantou as mãos devagar, o rifle dele ainda no ombro. Não vim para brigar, vim procurar o capitão virgulino. Trago um causo de injustiça. O homem que saiu do mato era tinhoso, olho de gavião, barbarala e a cara de quem não ria havia muito tempo. Era corisco.
Ele olhou jêncio de cima a baixo, um rapaz limpo, mas com a roupa em farrapos pela viagem. Todo mundo que morre na ponta do meu punhal diz que é injustiça. Rosnou corisco. Fale o que tu quer e fale ligeiro, que minha paciência hoje tá mais curta que coice de porco. Juvêncio, com a boca seca contou. É na vila de Poço Fundo o coronel Cícero Bastos.
Ele a voz do rapaz falhou, não de medo, mas de raiva. Ele o que desgraça? Desembuxa? E Juvêncio falou. Ele marcou a própria noiva, uma moça de família com o ferro de gado. Marcou que nem reis, só por ciúme. Corisco parou. A mão que segurava o rifle afrouchou um pouco. Ele olhou fundo pro rapaz.
Marcar, mulher? Ele cuspiu de lado. Isso nem o tinhoso costuma fazer. Vem comigo, mas se for mentira tua, eu mesmo arranco teu couro e salgo. Levaram Jêncio pelo meio do acampamento escondido. Era gente que não acabava mais. Cangaceiro para todo lado, limpando arma, cozinhando, amolando peixeira.
As mulheres do bando, com seus vestidos coloridos e cartucheiras olhavam o rapaz com curiosidade. E lá, sentado numa pedra maior, debaixo de um juazeiro velho, estava o rei do cangaço, lampião. Os óculos redondos brilhavam no rosto fino. O chapéu de couro enfeitado jogava uma sombra nos olhos. Ele parecia calmo, mas o ar em volta dele era pesado.
Maria Bonita estava ao seu lado e foi para ela que Juvent olhou primeiro, buscando algum sinal de piedade. Capitão disse Corisco. Esse rapaz aqui diz que tem coronel marcando moça que nem bicho. Lampião levantou os olhos lentamente. Os olhos dele pareciam que liam a alma do cabra. Como é teu nome, valente? A voz dele era mansa, mas cortava mais que navalha.
Juvento, senhor, da vila de poço fundo. Lampião fez um sinal para ele se aproximar. Pois conte o causo e conte direito. Não me faça perder tempo com prosa mole. Juvêncio contou tudo, desde o ciúme do coronel, a festa, o arrastamento da moça, até o grito que a vila escutou quando o ferro quente chiou na pele de Rosalina.
Enquanto falava, a raiva lhe dava firmeza na voz. Quando terminou, o silêncio era total. Só se ouvia o vento. Lampião se levantou. Ele era mais alto do que parecia. Andou de um lado pro outro, a mão no punhal. Eita que a história tá esquentando. Um coronel que faz uma malvadeza dessa merece o quê? Eu fico daqui imaginando a raiva desse rapazêncio.
Me diga aí de que canto desse mundão você tá ouvindo essa prosa que eu gosto de saber até onde a voz do sertão tá chegando. E se você tá gostando desse causo e quer saber o que Lampião vai fazer com esse coronel Tinhoso, já se inscreve aí no canal e senta o dedo no gostei que é para não perder o resto da história.
De repente, Lampião parou na frente de Juvêncio. Esse rifle que tu carrega sabe cuspir fogo ou é só para enfeite? Juvêncio aprumou o corpo. Sei com o que ando, capitão. Acerto o olho de um nambu na carreira. Lampião deu um sorriso que não chegou nos olhos. E você veio aqui sozinho pedir a mim, Lampião, para vingar a honra dessa moça? Juvêncio assentiu. Eu vim pedir justiça, capitão.
O que ele fez não se faz nem com bicho e eu sozinho não posso contra ele e os jagunços. Virgulino olhou pro bando, olhou para Maria bonita, que tinha o rosto fechado de raiva. Ele botou a mão no ombro de Juvêncio. Pois você vai ter sua justiça, rapaz. E vai ter do nosso jeito.
Coronel que trata mulher feito gado, vai ser tratado feito bicho de abate. Ele se virou e gritou pro bando: “Prepara as armas e os cavalos. Vamos visitar esse tal de Cícero Bastos em Poço Fundo. Vamos mostrar para ele o que acontece com quem não tem respeito.” O acampamento virou um frevo. Os cabras gritavam, os rifles eram engatilhados.
Juventus sentiu o coração bater forte. Ele tinha conseguido, ele tinha trazido a tempestade paraa porta do coronel. A viagem de volta para Poço Fundo foi outra. Na ida, Juvêncio era um homem fugindo com medo e raiva, se arrastando. Na volta, ele cavalgava no meio do bando de Lampião.
Eram mais de 40 demônios montados, levantando uma nuvem de poeira que parecia anunciar o fim do mundo. Lampião ia na frente, no seu cavalo Baio, conversando com Juvêncio, que nem se fossem velhos conhecidos. O capitão perguntava tudo da vila. Quantos jagunços o coronel tinha? Onde dormiam? Qual era a hora que a casa grande ficava mais descuidada? E Juvêncio, que tinha passado a vida inteira andando por aquelas ruas de terra, sabia responder cada detalhe.
Ele desenhou no chão de terra abatida o mapa da fazenda do Coronel Cícero, que ficava um pouco afastada da vila, num lugar alto, feito uma fortaleza. Mostrou onde ficava o poço, onde ficava o curral, onde Rosalina foi marcada. E onde ficava a casa dos macacos? Lampião olhava o desenho, coçava a barba e dava ordens aos seus cabras.
Corisco, vão fechar a estrada principal. Não quero que saia nem entre ninguém. Zé Baiano, você e mais cinco vão tomar conta da casa dos jagunços. Quero eles presos lá dentro, que nem rato em ratoeira. Não é para matar logo. É para deixar eles escutarem o patrão deles pagando as contas. O plano era entrar na calada da noite.
Juvêncio sentia um frio na barriga que não era de medo, era ansiedade. Ele ia ver de novo Rosalina, mas não sabia o que ia encontrar. Será que ela ainda estava viva? Será que o coronel, depois daquela covardia, tinha feito coisa pior? Lampião pareceu ler o pensamento do rapaz. Se acalme, Juvêncio. Se o coronel tiver tocado num fio de cabelo dela depois da marca, ele vai pagar dobrado.
Mas homem covarde que nem esse gosta é de se amostrar. Ele vai deixar ela viva para todo mundo ver a marca dele. É bicho orgulhoso e é pelo orgulho que ele vai cair. Chegaram nos arredores de Poço Fundo, quando a noite já estava alta e a lua fina que nem unha de moça, mal clareava o caminho. O bando se moveu que nem cobra no mato seco, sem um único ruído.
Juvêncio ia na frente junto com Lampião, mostrando as veredas que só ele conhecia. Chegaram perto da casa grande. Era um casarão feio, escuro, que parecia um bicho adormecido no meio do terreiro. Duas sentinelas, jagunços do coronel, estavam perto da porteira, conversando baixo e fumando um cigarro de palha. Antes que Juventudesse piscar, dois cangaceiros saídos da escuridão, pularam nos homens.
Não teve tiro, foi só o barulho de coisa abafada. E os dois jagunços caíram que nem saco de algodão, amarrados e amordaçados antes de dar o primeiro pio. O caminho estava livre. Lampião fez um sinal. O bando se dividiu. Corisco e seus homens cercaram a estrada. Zé Baiano foi para Senzala, onde os jagunços dormiam, trancando a porta por fora e botando guarda.
O resto do bando cercou a Casagre, Lampião, Juvêncio, Maria Bonita e mais uns cinco cabras de confiança foram pra porta da frente. Juventil tremeu. Capitão ele sussurrou. Rosalina tá lá dentro. Não deixa eles atirarem nela. Lampião botou a mão no ombro dele. Quem vai entrar primeiro é você. E quem vai tirar ela de lá é você. Eu só quero o coronel.
Em vez de arrombar a porta e fazer barulho, Lampião mandou um dos cabras, um tal de gato, que era miúdo e ágil, pular uma janela lateral que Juvêncio disse que vivia aberta. Gato sumiu na escuridão e, um minuto depois, a porta da frente se abriu num rangido pequeno. Estavam dentro da sala de visitas do coronel. O cheiro de cachaça e de fumo de corda era forte. Lampião fez sinal para Juvêncio.
Onde é o quarto da moça? Juvêncio sabia. A tia dele tinha sido cozinheira ali e ele conhecia a casa por dentro. Ele apontou para uma porta no fundo do corredor e o do coronel Juvêncio apontou pra porta principal, no alto de uma escadaria pequena. Pois vá, Lampião disse para Juvêncio. Tire a moça. Nós vamos acordar o dono da casa.
Juventu o coração na boca. Chegou na porta do quarto que estava trancada por fora com um ferrolho pesado. O coronel tratava a noiva feito prisioneira. Juvêncio, com a raiva lhe dando força, botou o ombro contra o ferrolho, mas era forte. Um dos cangaceiros de Lampião chegou perto e com a ponta do punhal forçou a madeira e fez o ferrolho saltar. Juv porta.
O quarto era escuro, com cheiro de mofo e tristeza. E lá num canto, encolhida numa cama pequena, estava Rosalina. Ela estava mais magra, os olhos grandes e assustados. Quando viu Juvêncio, ela botou a mão na boca, pensando que era um sonho ou uma assombração. Juvêncio, é você mesmo? Pelo amor de Deus. Ela estava com um chale velho cobrindo os ombros, escondendo a marca.
Sou eu, Rosalina. Vim te buscar. Vamos embora daqui. Ele foi até ela, mas antes que pudesse tocá-la, a casa inteira tremeu com um estrondo. Era Lampião que tinha cansado de esperar. Ele e os cabras não bateram na porta do coronel. Eles atiraram na fechadura e a porta se abriu com um coice.
O grito do coronel Cícero Bastos foi ouvido lá do quarto de Rosalina. Quem ousa? Quem são vocês, macacos? Cadê meus macacos? E a voz de Lampião, calma e fria, respondeu lá de dentro do quarto: “Boa noite, coronel. Você tem uma visita? A justiça do sertão veio lhe trazer um presente. Quando Juvêncio saiu do quarto, amparando Rosalina, a cena no meio da sala da casa grande era de teatro do inferno.
O coronel Cícero Bastos, o homem que fazia a vila de poço fundo tremer com um olhar, estava de joelhos, vestindo apenas uma cerola longa, de linho fino, amarelada pelo tempo. A barriga dele subia e descia com a respiração pesada de pavor. De cada lado, um cangaceiro de lampião segurava um braço e o homem que o tinha arrastado da cama, um cabra miúdo chamado gato, mantinha a ponta do punhal encostada na goela do coronel.
O homem suava frio. Ao ver Juvêncio e Rosalina saindo do corredor, o coronel arregalou os olhos. A raiva dele, por um instante foi maior que o medo. “Seu desgraçado!”, Ele gritou para Juvêncio. Foi você, seu peão de bosta. Você trouxe esses demônios para minha casa. Macacos, meus homens. Mat.
A voz dele foi cortada pelo som de uma bofetada. Não foi um cangaceiro, foi Maria bonita. Ela tinha andado da porta até o coronel e o tapa que ela deu na cara dele instalou que nenhum tiro de garruxa. “Aprenda a falar com mulher, seu porco”, ela disse a voz baixa e cheia de ódio. “E não adianta gritar! Seus macacos tão bem presos lá na cenzala.
O Zé Baiano tá tomando conta deles e você sabe que o Zé Nun tem paciência para quem grita.” O coronel botou a mão na cara, o queixo tremendo. Foi aí que ele viu Lampião. O capitão estava sentado na cadeira de balanço do próprio coronel, a cadeira de jacarandá, balançando devagar, como se fosse o dono da casa.
Ele não tinha dito uma palavra até ali. Então, Lampião começou e o balanço parou. Você é o tal coronel Cícero Bastos, o homem que marca mulher. O coronel tentou se ajeitar de joelhos. Capitão Virgulino ele começou a voz melosa. Foi um mal entendido essa moça. Ela é minha noiva. Coisa de família. Você sabe como é. Ciúme de homem. Lampião se levantou da cadeira.
Ele andou devagar até ficar cara a cara com o coronel. Os óculos redondos dele pegavam o reflexo da luz do candieiro. Ciúme? Eu sei o que é ciúme. Ciúme faz o cabra zelar, faz o cabra proteger. O que você fez não tem nome de ciúme. O que você fez tem nome de covardia. Tem nome de coisa de bicho ruim.
Lampião olhou para Rosalina, que se encolhia atrás de Juvêncio. Venha cá, minha filha, não tenha medo. Esse homem não vai mais tocar num fio de cabelo seu. Juvêncio, com a mão firme no ombro dela, a guiou até o centro da sala. O coronel olhava para ela com ódio. Rosalina, diga para ele. Diga que você é minha. Diga que você tropeçou e caiu no fogo.
Lampião riu. Uma risada seca. caiu no fogo e o fogo tinha suas iniciais. CB que fogo inteligente esse seu, coronel. A voz de Lampião ficou dura, feito pedra. Eu quero ver. Rosalina tremeu. Eu quero ver a marca que esse valente fez em você. Rosalina olhou para Juvêncio, que lhe deu um aceno de cabeça, encorajando. Juvcio, ele mesmo, com cuidado e respeito, afastou o cabelo da moça e puxou de leve a gola da camisola dela, exp. o ombro.
O silêncio na sala foi tão fundo que se podia ouvir a lenha estalando no fogão lá da cozinha. A marca estava ali, inchada, feia, escura. A pele em volta estava roxa, as duas letras CB gravadas na carne de uma moça que não tinha nem 20 anos. O cheiro de remédio de curandeiro e de carne queimada ainda estava nela. Os cangaceiros, homens brutos, desviaram o olhar, resmungando palavrões entre os dentes.
O próprio JVcio fechou os olhos com força, como se visse aquilo pela primeira vez, a raiva fazendo seus punhos se fecharem. Lampião olhou paraa marca por um longo tempo. Ele não se mexeu. Depois ele se virou pro coronel. O coronel, vendo o rosto de Lampião, começou a chorar. Um choro de medo. Piedade, capitão, pelo amor de Deus. Foi a cachaça, foi o diabo que me atentou.
Lampião balançou a cabeça. O diabo, coronel. Pois o diabo tá aqui. Mas não sou eu. O diabo é você. Você gosta de marcar o que é seu, não é? Você gosta de usar o ferro? O coronel não conseguia responder: “Pois eu também gosto, sabe, coronel? Eu aprendi com meu pai que cada bicho tem que ter a marca do dono.
E você? Você, coronel, você é meu.” Lampião se virou pro bando. A voz dele agora era um trovão. Levem esse homem, levem ele pro curral, onde ele fez o serviço, e tragam o ferro dele, o CB. O coronel Cícero Bastos se debateu, gritou, implorou, mas os cabras de Lampião o levantaram do chão, que nem se ele fosse um boneco de pano, e o arrastaram para fora da casa pelo terreiro escuro, em direção ao local da sua covardia.
Juvêncio abraçou Rosalina, que chorava baixinho no peito dele. A justiça ia começar. O curral da fazenda de Cícero Bastos fedia a medo e a bosta de gado. Era o mesmo lugar onde dias antes a covardia dele tinha florescido. E foi para lá que o arrastaram, os pés descalços se ferindo nas pedras e no cascalho do terreiro. Os cangaceiros fizeram um círculo iluminados apenas pela luz de dois candieiros acesos e pela lua fina que parecia uma navalha no pescoço do céu.
O coronel Cícero tremia tanto que os dentes batiam. Pelo amor de Deus, capitão, me leve para um juiz. Me leve pra polícia, mas não me mate aqui. Ele gemia, a voz grossa deante sumida, dando lugar a um pio de rato. Lampião parou no centro do círculo. Ele olhou em volta, pro chão batido pras estacas da cerca.
Polícia! Lampião repetiu a voz perigosamente calma. Aqui em Poço Fundo, você era a polícia, você era o juiz, você era Deus e o diabo, tudo num couro só. E foi com essa autoridade que você julgou e marcou aquela moça. Ele apontou para Rosalina, que assistia a tudo de longe, perto da porteira do curral, com juvêncio ao seu lado, protegendo-a.
Você acha justo, coronel? Você acha que o seu julgamento foi certo? O coronel rastejava no chão, tentando beijar as botas de Lampião. Foi um erro, a cachaça. Eu pago, eu dou tudo. Eu dou a fazenda, dou o gado, dou dinheiro. O senhor é um homem que entende de valor. Me diga seu preço, capitão. O tapa que Lampião deu no rosto do coronel foi tão forte que o homem virou a cara com um estalo.
Preço? Você acha que a honra de uma moça tem preço? Você acha que a coragem desse rapaz? E apontou para Juvêncio, que atravessou o sertão sozinho para me buscar, tem preço? Você, coronel, é que não vale nada. É um bicho. Lampião fez um sinal com a cabeça. Um de seus cabras, o mesmo que tinha esquentado o braseiro para assar o bode mais cedo, já tinha atiçado o fogo ali no canto do curral.
E lá, com a ponta enfiada na brasa, estava o ferro. O ferro com as iniciais CB, o ferro do coronel. O ferro estava ficando vermelho, soltando faísca. O cheiro de ferro quente começou a tomar o ar. O coronel viu o que ia acontecer e um som saiu dele que não era de homem. Era um uivo de bicho acuado. Não, não, isso não. Piedade.
Me matem com um tiro, uma facada, mas isso não. Lampião se aproximou do fogo, pegou uma luva de couro grossa e segurou o cabo do ferro. A ponta brilhava laranja na escuridão que nem o olho do capeta. Você gosta de marcar o que é seu, não é, coronel? Pois agora você vai saber o que é ser marcado. Mas tem uma diferença. Você marcou ela por covardia.
Eu vou marcar você por justiça. Lampião se virou pro bando. Segurem o porco de costas para cima. Quatro cangaceiros fortes pegaram o coronel. Cícero Bastos se debatia. urrava, tentava morder, mas era inútil. Ele era um homem gordo, de vida mansa, e os cabras de lampião eram feitos de nervo e osso duro.
Deitaram ele no chão de terra, o mesmo chão que Rosalina tinha pisado, e rasgaram a cerola nas costas dele, deixando o lombo branco e gordo exposto. O coronel chorava, babava, implorava: “Rosalina, pede para ele parar. Juvêncio, eu te dou ela. Eu deixo vocês casarem. Piedade. Juvencio se manteve firme, o rosto uma máscara de pedra segurando Rosalina que tinha virado o rosto para não ver. Mas Juvent.
Ele precisava ver. Lampião se aproximou. Ele levantou o ferro no ar. A luz vermelha dançou no rosto suado do capitão. Você disse que ela era sua rez, coronel. Pois reis a gente marca é no lombo. E você, que agiu que nem bicho, vai ser marcado que nenhum. E Lampião desceu o ferro. O som que fez, compade, foi o som do inferno.
Um texi alto, um chiado de água em chapa quente, misturado com o cheiro de gordura queimada e de pelo chamuscado. O grito do coronel Cícero Bastos foi uma coisa que nenhum homem ali jamais esqueceu. Foi um grito que rasgou à noite, que fez os cachorros da vila uivarem de pavor e que fez os macacos presos na cenzala se ajoelharem rezando.
Campeão não tirou o ferro logo ele apertou, contou devagar. Um e para você aprender o que é dor. Dois, para você lembrar da honra que tirou. Três, para você nunca mais levantar a mão para uma mulher. E só então ele puxou o ferro. Nas costas do coronel fumegando, estava a marca CB, em carne viva, funda, queimada. O coronel parou de gritar.
Ele só soluçava tremendo todo, quase desmaiado de dor e de vergonha. “Aou!”, ele murmurou. “Acabou.” Lampião jogou o ferro no chão, onde ele sibilou na terra úmida. O capitão olhou pro homem quebrado no chão. Acabou? Você acha que a sua conta tá paga só com uma dorzinha? A marca de ferro, coronel, o couro cura, a pele cresce de novo.
Mas a marca da vergonha que você botou na moça, essa é na alma. E a alma não tem remendo. Lampião fez um sinal. Levantem ele. Os cangaceiros levantaram o coronel que agora mal parava em pé. Levem ele. Vamos dar um passeio. Quero mostrar uma coisa pro nosso amigo. E eles começaram a andar, arrastando o coronel pelo terreiro, passando pela Casagre e indo em direção ao poço que dava nome à vila.
O poço fundo era um poço antigo, de boca larga, feito de pedra, e dizia o povo que não tinha fundo, que a água ali era ligada com o inferno. O coronel, quando viu para onde o levavam, começou a se debater de novo. O poço não, o poço não, lá é fundo. Eu não sei nadar. Piedade, capitão. Lampião parou na borda do poço.
Ele olhou para baixo paraa escuridão que engolia a luz. Você passou a vida inteira em poço fundo, coronel, e nunca teve a curiosidade de saber o quão fundo ele é? Pois você vai saber agora. Lampião agarrou o coronel pelo que restava da roupa, botou o rosto dele perto do seu. Você jogou a vida desse povo num poço de medo.
Você jogou a honra de Rosalina num poço de vergonha. Você chafurdou num poço de covardia. O coronel agarrava os braços de Lampião. Não, não. Pois agora, Coronel Cícero Bastos. Lampião disse a voz baixa: “Vá pro fundo!” E com um empurrão, um só, Lampião soltou o homem. O coronel Cícero não gritou.
Foi um som surpreso, um an, enquanto ele caía na escuridão. O corpo dele desapareceu e, por uns segundos, não se ouviu nada. E então lá debaixo, muito longe, veio o som. Splash, um barulho oco, fundo, um barulho de coisa pesada caindo em água funda. Os cangaceiros se aglomeraram na beira do poço. Juvêncio e Rosalina se aproximaram devagar.
Primeiro ouviram o coronel se debatendo, tcindo, cuspindo água. Socorro! Eu tô me afogando. Me tirem daqui! Ele bateu na água por talvez um minuto, mas a dor da queimadura nas costas, o peso do corpo e o pavor fizeram ele cansar rápido. Os gritos ficaram mais desesperados, pelo amor de Deus! E depois mais fracos, um borbulhar, um último suspiro e silêncio.
Nada, só o eco da água batendo nas pedras lá embaixo. O coronel Cícero Bastos, o dono de poço fundo, tinha finalmente conhecido o fundo do seu poço. A noite, em poço fundo, ficou em silêncio. Um silêncio que o povo da vila não conhecia. Não era o silêncio do medo, era o silêncio do alívio, como se a terra pudesse respirar de novo perto do poço.
Rosalina ainda tremia, mas não era de medo. Juventou o próprio lenço do pescoço, o único pedaço de pano limpo que tinha, e com um cuidado que parecia uma reza, limpou as lágrimas do rosto dela. Acabou, Rosalina, ele disse baixo, a voz firme. Você não precisa mais ter medo. Eu tô aqui. Ela olhou para ele e, pela primeira vez em muito tempo, os olhos dela tiveram um brilho de estrela.
Ela só pegou na mão dele e apertou. Não precisava de mais palavra. O noivado estava selado ali na frente da lua e da justiça. Lampião viu a cena de longe, limpou o suor do rosto, guardou o punhal e ajeitou o chapéu. A justiça da noite estava feita. Ele olhou pro bando que já se ajeitava nas montarias e sua voz cortou a madrugada.
Vamos embora, cambada. A noite foi boa, mas o dia já vem raiando. E virando o cavalo, gritou para Corisco: “Me disseram que lá para as bandas de serra torta tem outro coronel se achando dono do mundo. Vamos fazer uma visita.” E o bando de Virgulino Ferreira desapareceu na catinga, deixando para trás uma vila livre e o cheiro de justiça no ar. M.
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