Convidei meu pai para se juntar a mim…

À noite, em São Estevão da Serra, um pequeno vilarejo entre as colinas do Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, era quente, envolto no aroma de jasmins e terra úmida. As ruas de paralelepípedos brilhavam sob a luz dos lampiões antigos. O canto distante dos grilos acompanhava meus passos enquanto eu voltava para casa depois de um jantar com amigas na praça.

Eu tinha acabado de completar 18 anos. Morava com meu pai em uma casa centenária, nos arredores do vilarejo. Minha mãe desapareceu quando eu era só uma criança, deixando-nos apenas algumas fotografias em sépia e um par de cartas que eu nunca entendi completamente. Papai e eu levávamos uma vida tranquila, quase isolada.

Sempre houve entre nós uma confiança silenciosa, sem muitas perguntas sobre o passado. Ao chegar, empurrei a porta de madeira. que rangeu com seu som habitual. Ele me esperava na cozinha, envolto na luz tênue de uma lâmpada antiga, segurando uma xícara de chá com canela e erva doce, como toda noite.

Sua camisa estava ligeiramente desabotoada e as mangas arregaçadas, deixando amostra sua pele morena, marcada pelo trabalho nas vinhas. “Curtiu a noite?”, perguntou com um sorriso sutil. Assenti enquanto me sentava à frente dele, cruzando as pernas. Eu usava um vestido de linho claro, justo na cintura, que deixava meus ombros descobertos.

Senti seu olhar me percorrer rapidamente, embora ele tentasse disfarçar atrás da borda da xícara. “Voltou tarde”, comentou sem repreensão, mas com um tom diferente na voz. A gente se distraiu conversando. Nada demais. respondi. Ficamos um pouco mais batendo papo, até que decidi ir para o meu quarto. Subi as escadas de madeira descalça, curtindo o frescor que ainda pairava no ar.

Ao acender a lâmpada na mesinha de cabeceira, notei algo estranho. O quarto parecia igual, mas não totalmente, como se alguém tivesse mudado um detalhe imperceptível, uma almofada fora do lugar, uma cortina levemente movida. Me olhei no espelho antigo ao lado da cômoda. Minha cabeleira escura caía em ondas um tanto desarrumadas.

Meus lábios estavam levemente inchados pelo calor. Por um instante, me pareceu que não era eu quem me olhava do vidro. Naquela noite, dormi inquieta. Algo no ar me fazia sentir observada. Me enrolei em um lençol leve e deixei a porta entreaberta, como sempre fazia. Mas acordei sobressaltada no meio da madrugada.

Tive a sensação de que alguém estava de pé na frente da minha porta, me olhando em silêncio. Contive a respiração. O coração batia forte no peito. Ousei virar a cabeça, mas só encontrei o brilho distante da luz do corredor e o sussurro do vento entre os ciprestes. No dia seguinte, me acordou o cheiro de café com leite e pão torrado.

Papai sempre preparava o café da manhã aos domingos. Me vesti com um conjunto leve de linho azul claro e sandálias de couro. Desci para a cozinha. Ele já estava sentado folheando um jornal velho, seu cabelo escuro, ainda úmido do banho, e sua camisa branca aberta no colarinho. Ergueu os olhos quando entrei. Dormiu bem? Perguntou, servindo-me uma xícara.

Acho que sim”, respondi ainda perturbada pela noite. Durante o café da manhã, nossos silêncios pareciam mais densos que o habitual. Havia algo no seu olhar que me inquietava. Não era medo, mas uma espécie de melancolia. À tarde, decidi caminhar até o rio, passando pelos vinhedos e pela velha estação abandonada.

A água estava clara e fria. Tirei as sandálias e mergulhei os pés. Fechando os olhos, o sol acariciava minha pele e uma brisa leve brincava com a barra do meu vestido. De repente, tive a sensação de não estar sozinha. Virei rapidamente, mas não havia ninguém, só o rumor das folhas e o ruído da água contra as pedras. Naquela noite, encontrei papai na sala, foliando um álbum de fotos.

Me sentei ao lado dele curiosa. Ao abrir uma página, vi uma imagem da minha mãe de pé ao lado de uma fonte da praça, com um sorriso que parecia esconder algo. Seu vestido florido, o mesmo que eu lembrava vagamente, flutuava ao vento. “Você se parece muito com ela”, sussurrou o papai. “Você ainda lembra dela com dor?”, perguntei.

Ele assentiu sem falar. O ar ficou pesado, como se as memórias tivessem enchido o quarto. Nesse momento, notei como sua mão roçou levemente a minha ao virar a página. Um toque casual, mas minha pele arrepiou. Me afastei sutilmente, disfarçando. “Acho que vou dormir”, murmurei. “Boa noite, alma”, disse ele, mas algo tremeu na sua voz.

Naquela noite, a inquietude voltou. Acordei de novo à meia-noite, desta vez com um som leve, como um suspiro. Me levantei, saí para o corredor e o vi. Estava junto à janela, olhando para o jardim. A luz o banhava parcialmente, delineando sua silhueta. Usava só uma calça de algodão e estava descalço. “Pai”, sussurrei. Ele se virou devagar.

Você também não consegue dormir”, disse. Assenti me aproximando. Ficamos ali os dois em silêncio. Sua voz quando voltou a falar foi quase inaudível. Às vezes acho que o passado não nos solta. E nesse instante algo mudou. Uma tensão invisível nos envolveu. Como se uma verdade reprimida há muito tempo estivesse prestes a romper a superfície.

Mas nenhum de nós ousou pronunciá-la. Eu também não. Ainda. No dia seguinte, acordei com um murmúrio das pombas no telhado e o calor da manhã, entrando pela janela entreaberta. Fiquei uns minutos deitada, abraçando o travesseiro, sentindo a textura da camisola de algodão leve contra minha pele. Ainda tinha na cabeça a imagem do pai na janela na noite anterior.

Sua postura, sua voz, algo no jeito dele me olhar havia me mudado. Desci descalça, o chão fresco sob meus pés. Papai estava na cozinha vestido com uma camiseta cinza e jeans velhos, cozinhando ovos com linguiça. Parecia tranquilo, mas nos seus gestos havia um cuidado incomum. quando se virou para me servir o café da manhã, seu olhar se deteve um segundo a mais do que o habitual, nas minhas pernas, nuas, sob o hobby aberto.

“Hoje você se levantou tarde”, comentou sem repreensão. “Sonhei coisas estranhas”, respondi evitando detalhes. Café da manhã em silêncio. Mas esse silêncio já não era o de antes. havia algo contido no ar, como se os pensamentos de nós dois andassem muito perto um do outro, mas sem se tocar. Depois de comer, decidi dar uma volta pelo vilarejo.

Coloquei um vestido de algodão justo na cintura, com decote quadrado e saia ampla, que se movia ao andar. Um chapéu de aba curta e sandálias com tiras finas completavam o look. Enquanto me olhava no espelho, algo no meu reflexo me fez parar. Não era só como eu me via, mas como sentia que alguém mais me observava através dos meus próprios olhos.

Saí sem dizer muito. Caminhei até a velha biblioteca, fechada há anos. Ninguém ia lá, mas algo me atraiu naquela tarde. As janelas quebradas deixavam entrar a luz e entre as prateleiras empoeiradas encontrei um cantinho com almofadas antigas. Me sentei, deixando a saia se abrir sobre minhas coxas, sentindo o frescor do lugar.

Fechei os olhos por um momento e foi então que senti uma corrente de ar quente como um sopro perto do meu pescoço. Virei sobressaltada. Nada, só silêncio e o eco da minha respiração. Voltei para casa com o coração acelerado. O sol começava a se esconder entre as oliveiras. Encontrei papai no jardim, regando as plantas. Sua camisa estava molhada de suor, colada nas costas.

Ele me olhou com uma mistura de surpresa e alívio. Não sabia onde você estava, disse. Só precisava ficar sozinha, respondi. Ele assentiu, mas se aproximou. Sua mão pousou no meu ombro, leve, quase etérea. Me arrepiei involuntariamente. “Você está bem?”, perguntou-me, olhando fixamente. “Só um pouco confusa”, respondi. Entramos juntos.

Eu subi para tomar um banho. Deixei a a água quente correr pelo meu corpo, tentando clarear os pensamentos. Ao sair, me enrolei em uma toalha macia e parei diante do espelho embaçado. Desenhei com o dedo no vidro uma silhueta, mas quando o vapor se dissipou, eu juraria que atrás de mim, por um instante, se refletiu outra figura parada, me observando da porta entreaberta.

Naquela noite, jantamos algo leve. Papai estava diferente, mais falante. Me contou anedotas da juventude de quando conheceu mamãe em uma festa junina do vilarejo. Como dançaram sob uma chuva inesperada, como ela tinha uma risada que enchia todos os cantos. Eu escutava hipnotizada pela sua voz grave, pelas suas mãos fazendo gestos pequenos, pelo jeito que seus olhos às vezes pousavam em mim, como se procurassem algo.

Fui me deitar, mas o sono não vinha. Usava um pijama macio de tecido fino, que deixava meus braços e pernas descobertos. Deixei a janela aberta para entrar o ar noturno. Fechei os olhos e tentei respirar fundo. Não passaram nem 10 minutos. Quando ouvi passos lentos, firmes, vinham do corredor. O chão rangia levemente.

Meu coração começou a bater forte. A porta se abriu devagar. A silhueta do pai se desenhou contra a luz do corredor. Posso? Disse em voz baixa. Assenti sem falar. Ele entrou. sentou na beira da cama, usava uma camiseta branca justa no peito e calças de pijama de linho. Me olhou por uns segundos, depois baixou o olhar.

Não consigo dormir, admitiu. Eu também não respondi. Houve um silêncio denso. Sua mão pousou no lençol, bem perto da minha. Não me mexi. Às vezes tenho a sensação de que algo se move nesta casa, algo do passado. Disse. Eu também sinto, sussurrei. Ele se inclinou um pouco, o rosto mais perto do meu.

O arre nós ficou mais pesado, mais íntimo. O calor da sua pele, o cheiro de sabonete e madeira me envolveram. Então, com um gesto quase mecânico, ele afastou uma mecha de cabelo da minha bochecha. Seu dedo roçou minha pele. Foi um contato mínimo, mas me atravessou como um calafrio. “Boa noite, alma”, murmurou com voz rouca.

Ele se levantou, cruzou o quarto e saiu sem fechar a porta completamente. Fiquei ali imóvel, sentindo ainda a vibração da sua presença no colchão. Sabia que algo estava se quebrando, que algo novo começava e que não havia jeito de parar. Aquele dia amanheceu com uma neblina leve sobre os telhados de São Estevão. O céu estava encoberto e o ar cheirava a terra úmida.

Me levantei, me sentindo estranhamente inquieta, como se meu corpo tivesse passado a noite toda em tensão. A camisola de alças que eu usava grudava na pele e cada movimento me fazia sentir exposta, como se alguém me observasse ainda da escuridão. Desci para a cozinha com passos lentos. Papai já estava lá, como sempre, preparando café.

Usava só uma calça de linho e uma camisa entreaberta. Seu olhar cruzou com o meu por um instante e senti que algo invisível, mas palpável, nos envolvia. “Dormiu bem ontem à noite?”, disse sem ironia. Acho que sim, embora tenha acordado várias vezes, respondi. Ele se limitou a assentir. Bebemos café em silêncio. A xícara quente entre minhas mãos tremia levemente.

Ele estava mais sério que o habitual, os olhos fixos no jornal, mas claramente ausentes. Eu não conseguia parar de observar seus dedos, seus movimentos pausados, o jeito que ele passava a mão no pescoço quando pensava. Cada um daqueles gestos agora me provocava algo novo, desconfortável, mas impossível de ignorar.

Depois do café da manhã, decidi sair sozinha. Peguei um cardigã fino de malha e um vestido longo de cor, verde escuro, com botões de madeira. O tecido grudava sutilmente no meu corpo a cada passo, e aquela sensação estranha de ser observada me seguiu até que cruzei a ponte de pedra rumo ao antigo moinho. Aquele lugar sempre tinha algo especial.

Rodeado de vegetação selvagem, o rio passava bem ao lado, criando um som constante de água e folhas. Me sentei em uma pedra plana, deixei o vento me despentear e fechei os olhos. Ali senti enfim um pouco de paz até ouvir um estalo atrás de mim. Virei rapidamente. Não vi ninguém, mas as árvores sussurravam algo com o vento, como se quisessem me alertar.

Quando decidi voltar, notei que o vestido estava levemente levantado na coxa, como se alguém ou algo o tivesse roçado. De volta em casa, encontrei papai no escritório de costas, observando uma carta velha. A mesa estava coberta de papéis, algumas fotos antigas e um lenço bordado que reconheci na hora era da minha mãe.

“Onde encontrou isso?”, perguntei em voz baixa. “No sótam.” “Não lembrava de ter guardado,” respondeu. “Me aproximei devagar. Ele não se mexeu. Olhava a carta como se ainda pudesse ouvir a voz dela. Me inclinei levemente sobre seu ombro. O calor do seu corpo me atingiu em cheio. Seu perfume era tênue, amadeirado, familiar.

“Você nunca voltou a ler”, disse. “Não tinha coragem”, respondeu. Peguei a carta das suas mãos com delicadeza. Nossos dedos se roçaram. Senti o arreprimir. Minha respiração acelerou. “Talvez agora seja o momento”, sussurrei. “Nos olhamos por uns segundos.” Ele desviou o olhar primeiro. Seu rosto era sério, mas nos olhos vi algo mais, algo que me fez tremer.

Naquela noite, passamos juntos na sala, como se nenhum dos dois quisesse ir dormir. Papai trouxe uma garrafa de vinho tinto e uma manta de lã. Nos sentamos no sofá, um ao lado do outro. A televisão estava ligada, mas ninguém prestava atenção. A manta caiu sobre minhas pernas nuas. Ele esticou-se o braço como se fosse um gesto casual e o deixou repousar no encosto atrás de mim.

Minha nuca ficou a poucos centímetros do seu cotovelo. Notava seu calor, sua proximidade, a tensão do seu corpo. “Lembra quando você era pequena e gostava de dormir aqui no sofá?”, perguntou de repente. “Você sempre dizia que eu me encolhia como um gatinho e não queria me levar paraa cama porque gostava de me sentir perto.” Respondi.

Fez-se um silêncio desconfortável depois daquela frase. Me dei conta à tarde do que tinha dito. Seu olhar se virou para mim, intenso, profundo. Me senti nua sob aquele peso. “Às vezes penso que você ainda é aquela menina”, murmurou. Não respondi. Me acomodei sob a manta, sentindo o roçar do tecido contra minhas coxas.

Atenção, ficou quase insuportável. Quando subi para o quarto, já não conseguia pensar com clareza. Fechei a porta. Dessa vez não a deixei entreaberta, como sempre. Me deitei com a camisola amassada, os pés descalços acariciando os lençóis frios. O coração batia desordenado e então ouvi uma leve batida na porta. Posso entrar? Era ele.

Não disse nada, mas a porta se abriu. Ele entrou sem acender a luz. Ficou ali em silêncio. A penumbra o cobria quase por completo. Alma, preciso te dizer algo, disse. Me sentei um pouco, me cobrindo com o lençol. Diga. Ele se aproximou devagar, como se temesse o próprio impulso. Sentou ao meu lado e por uns segundos só nos olhamos.

Depois seus dedos deslizaram sobre os meus. Tenho lembrado coisas, coisas que não deveria ter esquecido. Sobre a mamãe disse. Neguei com a cabeça. Sobre você, sobre o que construímos juntos. Engoli em seco. Senti que tudo dentro de mim queria se romper. Sua voz, sua presença, tudo estava carregado de uma eletricidade perigosa.

Não sei o que está acontecendo com a gente, alma, disse enfim. Mas sinto que algo está despertando entre nós. Não respondi. Não podia. Só soube que o momento se tornara irreversível. O amanhecer trouxe uma estranha calma. Acordei com os olhos ainda úmidos, como se tivesse chorado durante o sono. Embora não lembrasse, o lençol estava enrolado nas minhas pernas, e a camisola torcida deixava um dos meus ombros completamente descoberto.

Me sentei na cama tentando ordenar o que tinha sentido na noite anterior. Realmente aconteceu ou foi um daqueles sonhos vívidos que grudam no corpo como umidade? Desci sem fazer barulho. Papai não estava na cozinha. Mas o café já estava pronto. Na mesa havia uma tigela com frutas e um bilhete. Saí para o mercado. Volto logo.

A caligrafia era firme, conhecida. Ainda assim, notei algo diferente no jeito que escreveu e o meu nome para você, alma. Café da manhã em silêncio. Depois me dirigi ao sótam. Algo me impulsionava a buscar respostas, como se o passado tivesse deixado pistas esperando serem encontradas. Subi as escadas de madeira que rangiam sob meus pés.

O sótano cheirava a madeira velha e tempo parado. Abriu uma caixa velha de papelão com fotos em preto e branco. Em uma delas, mamãe estava sentada em um jardim com um vestido longo de gase, enquanto o papai a olhava de trás da câmera. Mas o que me surpreendeu foi outra imagem. Eu com 5 anos dormindo no sofá e papai inclinado para mim perto demais. Sua mão roçava minha bochecha.

Sua expressão era intensa. Um calafrio me percorreu as costas. Não sabia o que me perturbava mais, a foto ou minha reação. Ao vê-la. Desci rapidamente, como se algo me perseguisse. E bem, ao abrir a porta do sóton, papai já estava lá na escada. Me sobressaltei. O que fazia lá em cima? Perguntou. Só procurando memórias”, respondi.

Ele me observou por uns segundos que pareceram eternos. “Tem memórias que é melhor deixar onde estão”, disse em voz baixa, quase sussurrando. Não respondi. Passamos o resto do dia como se nada. Almoçamos no quintal, onde o sol se filtrava entre as folhas do limoeiro. Ele cortou pedaços de melancia e ofereceu com um sorriso.

Me fixei nas suas mãos outra vez. grandes, cuidadosas, com marcas de trabalho e calor. Quando uma gota de suco caiu no meu peito bem no decote, ele desviou o olhar bruscamente. O silêncio voltou. À tarde saímos para caminhar pelo vinhedo. O calor do dia baixava e a terra soltava um aroma doce. Usava um vestido branco, justo, com alças finas, e sentia cada brisa como carícia.

Lembra quando vínhamos aqui com a mamãe? Perguntei. Ela adorava esse lugar, respondeu. Paramos junto a uma árvore seca. De repente o vi mais vulnerável que nunca. Seus ombros levemente caídos, o olhar perdido na terra. Às vezes não sei se te criei bem, disse sem me olhar. Por que diz isso? Porque tenho sentido coisas que não sei se deveria sentir. Porque você mudou.

Meu coração deu um salto. Não sabia se tinha medo ou algo mais. E você também mudou, disse sem pensar. Ele me olhou, o vento levantou mechas do meu cabelo e senti seu olhar me percorrer. Não havia palavras para o que flutuava entre nós. Só o som dos grilos e nossas respirações alteradas.

Ao chegar em casa, a tensão era insuportável. Cada gesto, cada olhar, cada roçar de mãos acidental se sentia como uma explosão contida. Naquela noite, enquanto me preparava para dormir, notei algo estranho no quarto. O lenço da mamãe que eu tinha deixado na cômoda, não estava. Procurei por todo lado até encontrá-lo sobre o travesseiro, cuidadosamente dobrado.

Não podia ser coincidência. Me deitei, mas deixei a lâmpada acesa. Usava uma camiseta fina e uma calcinha de algodão claro, leves demais para uma noite tão carregada. Perto das 2as da madrugada, ouvi de novo os passos. Dessa vez não me assustei. Me sentei na cama antes que batesse na porta.

A porta se abriu sem som. Papai entrou e sentou onde sempre. Seus olhos estavam escuros, intensos, cansados. “Não consigo dormir”, disse como se fosse uma desculpa. “Eu também não”, respondi. Nos olhamos e então ele estendeu a mão e pegou a minha. Sua pele estava morna. Não foi um gesto rápido. Seus dedos se entrelaçaram com os meus devagar, como se aquele contato fosse inevitável.

Não sei em que momento deixamos de ser só pai e filha”, disse com voz rouca. “Não sei se deveria me sentir culpado ou grato.” “Não diga mais nada”, sussurrei com um tremor na voz, mas não soltei sua mão. Nesse momento, entendi que o que começara como silêncio agora se tornava confissão, que algo dentro de mim mudara e que já não haveria volta atrás.

As primeiras luzes do amanhecer começaram a pintar o quarto de um tom quente e dourado. Não tinha dormido, ainda deitada, com sua mão na minha, como se aquela união física impedisse o tempo de avançar. Ele respirava devagar, sentado na beira da cama, com a cabeça levemente inclinada para baixo. A sombra da noite ainda cobria a parte do seu rosto.

Mexi levemente sob o lençol, sentindo a fricção do algodão macio contra minha pele. A camiseta fina que usava subira um pouco durante a noite, deixando a amostra parte da barriga. Notei que seus olhos baixaram por um instante, embora logo voltasse a me olhar diretamente. “Precisamos conversar”, disse com um fio de voz. Assenti.

Minha garganta estava seca. Não posso mais ignorar isso, alma. O que está crescendo entre nós? Eu sei. Interrompi com um sussurro. Ele se ergueu, soltando minha mão com cuidado, como se temesse quebrar algo frágil. caminhou até a janela e ficou ali observando os vinhedos ao longe. O sol começava a nascer, tingindo o céu de tons alaranjados.

Não quis que isso acontecesse, continuou, “Mas cada dia te vejo mais parecida com sua mãe e ao mesmo tempo, você não é ela. Você é você, uma mulher.” Me levantei devagar. O chão estava frio, mas não importava. Me aproximei dele e parei ao lado. Sua presença me envolvia como uma brisa quente. Quis tocá-lo, mas algo me deteve. Ele notou.

Alma, isso não é certo, disse. E se o que sentimos não cabe no certo nem no errado? Perguntei com voz trêmula. E se simplesmente existe? Ele se virou. Estava tão perto que eu podia sentir o calor do seu hálito. Seus olhos brilhavam com algo que não soube nomear. Dor, desejo, amor, culpa. Não dissemos mais nada. Só nos olhamos pelo que pareceram séculos.

Depois ele saiu do quarto, fechando a porta atrás de si, sem barulho. O resto do dia foi uma tentativa falha de normalidade. Cozinhamos, trabalhamos no jardim, trocamos frases curtas, fingimos não lembrar da noite. Mas tudo estava ali, em cada gesto, em cada olhar que durava um segundo a mais do que o necessário.

À tarde decidi voltar ao rio. usava um vestido vermelho de linho solto, mas com uma abertura lateral que deixava entrever minhas coxas ao andar. O vento brincava com o tecido e minha mente seguia envolta em um turbilhão de emoções. Tirei as sandálias e caminhei pela margem, sentindo a areia úmida entre os dedos dos pés.

Me sentei na grande pedra onde tudo começara. Fechei os olhos e deixei o sol aquecer minha pele. Sentia o murmúrio da água como um canto distante e então soube, havia algo mais, algo que não me haviam contado. Naquela noite esperei que ele viesse, mas não veio. A casa estava silenciosa demais.

Subi ao sótam, guiada por uma necessidade que não sabia explicar. Procurei entre caixas, entre pastas antigas até encontrá-la. Uma carta escrita à mão com a letra da minha mãe. Tremendo. Abri e comecei a ler. Se você está lendo isso, provavelmente eu já não estou mais. Eu soube há tempos. Não era uma mulher fácil de entender.

Amei muito o seu pai, talvez demais, mas também vi nele algo escuro, algo que um dia você poderia despertar. A carta caiu das minhas mãos. Minhas pernas tremiam. Corri escadas abaixo. Papai estava na cozinha de costas cortando pão. Parei em seco. Não soube o que dizer. Ele se virou devagar, como se já soubesse que algo mudara.

Encontrou, não é? Disse? Assenti. Lágrimas começavam a se acumular nos meus olhos, mas não conseguia parar de olhá-lo. O que a mamãe quis dizer? O que era isso que eu poderia despertar? Ele se aproximou devagar, não disse nada por uns segundos, depois pegou meu rosto entre as mãos, como se eu fosse de cristal. A alma, ela me conhecia mais do que eu pensava.

E você me olhou de um jeito que ninguém mais fez. Você me amou alguma vez como filha? Perguntei com voz quebrada. Ele fechou os olhos. Seus dedos tremiam. Te amei de formas que não soube controlar. outras que me consumiram em silêncio. Um silêncio absoluto caiu sobre nós. Só se ouvia o tic-taque do relógio na sala. Então, sem dizer mais nada, ele me abraçou.

Um abraço que não era de pai nem de amante, era algo mais profundo, mais trágico. E nesse momento soube nosso amor era impossível, mas era real, e isso era o mais perigoso de tudo.