Olá, meus queridos. Tudo bem com vocês? Hoje trouxe uma história que vai mexer profundamente com o coração dos cada um de vós. É uma história verídica que aconteceu aqui no Brasil no período mais negro da nossa história, a escravidão. Eu sei que é um tema pesado, mas é muito importante nós conhecermos essas histórias, compreender o sofrimento que passou por esta terra, o que os nossos antepassados ​​viveram.

Então, pega num cafezinho, acomoda-se aí, porque a história que vão ouvir agora é de cortar o coração, mas também é de coragem, de luta e de esperança. Vamos conhecer a história verídica de Isaura, uma jovem escrava branca que foi perseguida pelo próprio Senhor de uma forma obsessiva e cruel. E agora vou deixar que ela própria vos conte tudo o que viveu, cada detalhe, cada sofrimento, cada esperança.

Presta bem atenção, porque cada palavra aqui é importante. O meu nome é Isaura. Nasci no ano de 1840, numa quinta em Campos dos Goitacazes, na província do Rio de Janeiro. A minha mãe Juliana era uma escrava mulata de pele clara, filha de uma negra com um senhor branco. O meu pai era Miguel, o feitor português da quinta, um homem de olhos azuis e cabelos loiros.

Quando nasci, foi uma surpresa para todos os que me viram. Minha pele era branca como a neve, os meus olhos eram azuis como o céu de verão. E os meus cabelos eram louros e ondulados como os trigais que via nos livros. Ninguém que me visse diria que era filha de uma escrava, mas eu era. E essa foi a minha maldição desde o primeiro dia que respirei neste mundo.

A senhora da quinta, a dona Ester, era uma mulher bondosa, religiosa e de coração puro. Quando me viu ainda beber nos braços de a minha mãe, teve pena e decidiu que eu não seria criada nas cenzalas como as outras crianças escravas. Levou-me para a casa grande e criou-me quase como se fosse a sua própria filha. Aprendi a ler e a escrever, coisa rara até para as raparigas brancas da época.

Estudei francês, italiano, aprendi a tocar piano com perfeição, a bordar com delicadeza, a pintar aguarelas. Usava vestidos finos de musselina e seda, dormia numa cama com lençóis de linho. Comia à mesa da família como se fosse uma senhora. Mas por mais que vivesse como uma senhora, por mais que a minha pele fosse branca e os meus modos fossem refinados, eu nunca poderia esquecer o que era realmente uma escrava, uma propriedade, uma coisa.

O comendador Almeida, marido da dona Ester e dono da quinta, nunca gostou de mim. Olhava-me com desprezo. Achava um absurdo eu ser tratada como igual aos brancos, mas respeitava a vontade dos seus esposa, que teimava em proteger-me. A minha mãe morreu quando eu tinha apenas 12 anos, uma febre que a consumiu em poucos dias, fazendo-a definhar até tornar-se apenas pele e osso.

Lembro-me de tê-la visto pela última vez deitada numa cama simples da cenzala, o seu rosto pálido e suado, os olhos encovados olhando-me com tanto amor. Ela segurou a minha mão com a pouca força que ainda tinha e disse com a voz fraca: “Exaura, minha filha, tu nasceu com a cor da liberdade, mas transporta as correntes da escravidão.

Nunca se esqueça de quem é, de onde veio. A liberdade é o bem mais precioso que existe. Chorei muito nesse dia. Dona A Ester consolou-me, abraçou-me, enxugou as minhas lágrimas, mas nada poderia preencher o imenso vazio que a minha mãe deixou. Os anos passaram devagar. Eu cresci e tornei-me uma rapariga.

Aos 17 anos, já era considerada uma das mulheres mais belas da região. Embora poucos soubessem que eu era escrava. A Dona Ester protegia-me como uma leo protege os seus filhotes, mantinha o meu segredo e vivia numa bolha de falsa liberdade dentro daquela quinta. Mas em 1857, tudo mudou de forma brutal e definitiva.

A Dona Ester adoeceu gravemente, uma doença do coração que a deixou fraca e pálida. Nos últimos dias de vida, ela deu-me chamou ao seu quarto. Estava deitada, tão magra, que parecia uma boneca de porcelana. prestes a quebrar. Com lágrimas nos olhos cansados, ela segurou a minha mão e disse: “Ixaura, minha querida filha do coração, perdoa-me.

Eu tentei, tentei muito garantir a sua liberdade em testamento. Pedi ao comendador que assinasse a sua carta de alforria, mas o meu filho Leôcio é o herdeiro de tudo. Ele é um homem de coração duro, de alma corrompida. Tenha muito cuidado, minha filha. Muito cuidado. Morreu três dias depois e com ela morreu a minha última e única proteção neste mundo cruel.

Leôcio era o filho único da dona Ester e do Comendador Almeida. O pai já tinha falecido anos antes, deixando tudo nas mãos do filho. Leôcio tinha 32 anos. Era rico, belo, aos olhos de muitas mulheres, mas tinha um coração podre por dentro. Jogava nas cartas até perder fortunas, bebia até cair e tinha fama de ser extremamente cruel com os escravos.

Mandava açoitar por qualquer coisa, castigava sem piedade. Desde que eu era jovem, olhava-me de um jeito que me fazia sentir nua e suja, mesmo estando completamente vestida. Mas enquanto dona Estera estava viva, ele nunca se atreveu a me tocar ou dizer uma palavra inapropriada. Uma semana após o funeral da sua mãe, O Leôncio chamou-me à biblioteca da Casagre.

Entrei com o coração apertado de medo. Ele estava sentado numa poltrona de couro, um copo de vinho tinto na mão, o olhar fixo em mim, como um predador olha para a sua presa. Exaura! Disse ele com um sorriso que me arrepiou até aos ossos. Você sabe que agora esta quinta é minha e tudo o que há nela, cada pedra, cada árvore, cada animal, cada escravo é também meu, inclusive você.

Senti o meu sangue gelar nas veias. Senhor Leôcio respondi com a voz trémula, tentando manter a compostura. A Dona Ester criou-me como filha, me educou como uma senhora. Ele interrompeu-me com uma gargalhada cruel e trocista. Não é filha de ninguém, Isaura. És uma escrava, minha escrava, e a a partir de hoje vai servir-me.

Mas você, vais servir-me de um jeito muito especial. Nessa noite fugi a correr para o meu quarto e tranquei a porta com as mãos a tremer. Chorei até não ter mais lágrimas, até sentir a garganta arder. Sabia exatamente o que ele queria de mim. Sabia que sendo escrava não tinha como me defender perante a lei. Eu era uma propriedade, um objeto, uma coisa sem vontade própria.

Minha beleza, que antes era motivo de orgulho para dona Ester, era agora a minha maior maldição. Nos dias seguintes, Leôcio começou a perseguir-me incansavelmente pela casa. Aparecia nos locais onde eu estava. Mandava-me chamar a qualquer hora do dia e da noite. Inventava desculpas para me tocar, para ficar perto de mim.

Eu esquivava-me, fugia, mas ele voltava sempre com mais intensidade. Uma tarde, encurralou-me no corredor escuro da Casa Grande. Tentou beijar-me a força, os seus lábios cheirando a bebida. Empurrei-o com toda a força que tinha e corri desesperada. Ele gritou atrás de mim com raiva e desejo misturados. Você pode correr, Isaura, mas não tem para onde ir.

És minha, minha propriedade. Foi nesta época terrível que conheci o Tobias. Ele era um jovem lavrador, dono da quinta vizinha chamada Ibituba, de ideias abolicionistas, que estava a visitar a região. Encontramo-nos numa missa na igreja da cidade, um domingo de sol. Os nossos olhares se cruzaram durante o sermão e foi como se o mundo deixasse de girar.

Depois da missa, aproximou-se de mim e conversámos à porta da igreja. Ele não sabia que eu era escrava. Para ele, eu era apenas uma rapariga bonita, educada e amável. Começamos a nos encontrar em segredo. Eu mentia para Leôcio. Dizia que ia visitar uma amiga na cidade, mas na verdade encontrava-me com Tobias na praça, perto do rio debaixo das árvores antigas.

Tobias me fazia sentir novamente humana. Ele me tratava com respeito, com carinho verdadeiro. Falava sobre a liberdade, sobre a justiça, sobre um Brasil sem escravidão. Contava os seus sonhos de ver todos os homens livres e iguais. E eu me apaixonei-me pela primeira vez na vida. Eu apaixonei-me verdadeiramente, com todo o meu coração, mas sabia que aquilo era impossível, que era um sonho condenado desde o início.

Como poderia contar a ele que eu era escrava, que pertencia a outro homem, que não tinha direito nem sobre o meu próprio corpo, nem sobre o meu próprio destino? Foi o meu pai Miguel, que revelou-me a sua identidade nessa época. Trabalhava como feitor na fazenda de Tobias e quando nos viu juntos deu-me procurou.

Com lágrimas nos olhos me disse: “Isaura, eu sou o teu pai. Adorei o teu mãe mais do que tudo neste mundo, mas não a pude salvar. Agora vou fazer tudo para te salvar.” Abracei o meu pai pela primeira vez, sentindo um amor que não conhecia. Mas havia outras pessoas que odiavam-me. Rosa era uma escrava que trabalhava na quinta, uma mulher cheia de inveja e maldade.

Ela sentia raiva de mim por causa dos privilégios que a dona A Ester dava-me. A Rosa vivia fazendo intrigas, espalhando mentiras, tentando prejudicar-me de todas as formas possíveis. Era amante de Leôcio e fazia tudo para me colocar contra ele. O Leôcio descobriu os meus encontros com Tobias. Não sei se foi a Rosa quem contou ou se me seguiu, mas descobriu.

Uma noite, entrou no meu quarto sem bater, embriagado, com os olhos vermelhos de raiva e ciúme. “Então é verdade”, disse ele, a voz cheia de veneno e ódio. “Você está a encontrar-se com aquele abolicionista idiota? Acha que ele vai salvar-te? Acha que ele vai casar com uma escrava com uma propriedade?” Tentei negar, mas ele avançou para mim como um animal furioso.

Agarrou-me pelo braço com tanta força que deixou marcas roxas na minha pele branca. “Você vai esquecer este homem agora mesmo”, ele disse, aproximando o seu rosto do meu. “Ou vou fazer com que se arrependa de ter nascido. Vou fazer-te sofrer de formas que nem imagina”. No dia seguinte, O Leôcio mandou-me trancar no quarto.

Estive três dias inteiros sem sair, recebendo apenas água e pão seco. Quando finalmente me soltou, mandou um recado a Tobias, dizendo que eu tinha partido para o interior com urgência e não queria mais vê-lo. O meu coração se partiu em mil pedaços. Não pude sequer despedir-me do homem que amava, mas o pior ainda estava para vir.

Leôcio havia casado com Malvina, uma rapariga doce e bondosa da corte. Filha do rico coronel Fontoura. Malvina não sabia da maldade de Leôcio. Quando chegou à quinta, ela ficou encantada comigo, com a minha educação, a minha música. Tornámo-nos amigas. Ela não percebia porque o marido me olhava daquela forma estranha, porque ele ficava obsecado por uma escrava.

Um dia, Tobias conseguiu vir até à quinta. Ele encontrou-me nos jardins e declarou o seu amor. Disse que me queria comprar de Leôncio, dar-me a liberdade, casar comigo. O meu coração encheu-se de esperança, mas Leôcio, louco de ciúmes e de obsessão, armou uma cilada terrível. Ele marcou um encontro falso numa cabana abandonada no meio da plantação, dizendo a Tobias que eu estaria lá à espera.

Malvina, suspeitando de algo, seguiu Tobias até lá. Os dois estavam a conversar dentro da cabana quando Leôcio, pensando que eu estava lá com Tobias, trancou as portas e ateou o fogo. O incêndio foi rápido e violento. Tobias e Malvina morreram queimados vivos. Eu só soube depois quando vi o fumo a subir ao céu e ouvi os gritos desesperados.

A escrava santa, que era amiga de Malvina, testemunhou tudo, mas foi ameaçada de morte por Francisco, o feitor cruel de Leôcio. Quando descobri que Tobias tinha morrido daquela forma horrível e que Malvina, aquela rapariga inocente, também morrera pela minha causa, algo dentro de mim morreu também. Passei semanas em estado de choque, sem conseguir comer ou dormir descansado.

Leôcio fingiu estar de luto pela sua mulher, mas na verdade estava satisfeito por ter eliminado o seu rival. Ele condenou-me a trabalhos pesados ​​como castigo. Passei a trabalhar na lavoura, transportando água, lavando roupa, fazendo os serviços mais duros. retirou todos os privilégios que dona Ester me tinha dado.

Passei a dormir numa pequena cenzala separada, a comer restos de comida, a usar roupa velhas e rasgadas. E todas as noites ele batia-me à porta, pedindo, implorando, ameaçando. Oferecia-me vestidos, jóias, uma casa própria, se eu me tornasse sua amante. Mas eu sempre recusava, mesmo sabendo que cada recusa significava mais castigos, mais sofrimento.

Eu rezava todas as noites pedindo forças a Deus. Pensava na minha mãe, nas suas palavras no leito de morte. Nasceu com a cor da liberdade, mas transporta as correntes da escravidão. E foi aí que tomei a decisão mais difícil e corajosa da minha vida. Eu ia fugir, mesmo que isso custasse a minha vida. Uma madrugada de setembro de 1858, enquanto todos dormiam profundamente, juntei as poucas coisas que tinha: um vestido velho, um pedaço de pão, o terço da minha mãe.

Vesti roupas simples, Amarrei um lenço na cabeça para esconder os meus cabelos louros e fugi pela mata. Caminhei a noite inteira por estradas de terra escura, escondendo-me sempre que via alguém aproximar-se. Tinha medo, muito medo. Sabia que se me apanhassem seria marcada a ferro quente na cara, açoitada até a carne abrir, talvez morta como exemplo.

Mas o medo de ficar era infinitamente maior do que o medo de fugir. O meu pai Miguel ajudou-me. Ele fugiu comigo juntamente com o André e a Santa, um casal de escravos amigos que também sonhavam com a liberdade. Conseguimos chegar a Recife depois de semanas de caminhada perigosa, apanhando boleia em carroças de comerciantes, escondendo-nos em quintas abandonadas, dormindo ao relento nas noites frias.

Quando finalmente vi o mar pela primeira vez, chorei de emoção. Nunca tinha visto o mar. Era azul, imenso, infinito, livre, como eu tanto queria ser. No Recife, mudamos os nossos nomes para não sermos descobertos. Eu me tornei o meu pai tornou-se Anselmo. Conseguimos uma pequena casa numa rua tranquila e foi aí que encontrei o meu segundo amor, Álvaro.

Álvaro era um jovem advogado abolicionista, de ideias avançadas para a época, rico e de família tradicional. Conhecemo-nos numa loja de tecidos. Ele ficou encantado comigo, começou a cortejar-me. Começamos a fazer planos de casamento, de uma vida juntos, de fugir para a Europa, onde eu poderia ser verdadeiramente livre e ninguém saberia do meu passado.

Pela primeira vez depois da morte de Tobias, voltei a ser feliz, verdadeiramente feliz. Mas a felicidade durou pouco, como sempre duravam as minhas alegrias. Seis meses depois, numa noite que parecia comum, o Álvaro convidou-me para um baile na alta sociedade do Recife. Eu hesitei, tinha medo de ser reconhecida, mas ele insistiu tanto que aceitei.

Foi o meu maior erro. No baile, enquanto dançávamos uma valsa, um homem me reconheceu. Era Martinho, um capitão do mato que Leôcio tinha contratado para me encontrar. Ele apontou-me no meio do salão e gritou: “Esta mulher é uma escrava fugida. Ela pertence ao Senr. Leôcio de Campos dos Goitacazes. O salão inteiro parou.

Todos me olharam com horror e nojo. Álvaro ficou pálido, sem compreender. Tentei explicar, mas as palavras não saíam. Fui arrastada para fora do baile, algemada como uma criminosa. O Álvaro tentou defender-me, correu para a esquadra, apresentou petições, ofereceu dinheiro, mas a lei estava contra mim. Eu era propriedade de Leôcio.

O juiz determinou a minha devolução ao legítimo proprietário. A viagem de regresso a Campos dos Goitacazes foi um pesadelo que jamais esquecerei. Fui agrilhoada pelos pés e pelas mãos como um animal selvagem. Leôcio estava à espera quando cheguei com um sorriso de satisfação doentia no rosto. “Bem-vinda de volta, Isaura”, disse, acariciando o meu rosto com uma mão fria.

“Agora vai aprender o que acontece com escravas ingratas que fogem dos seus donos”. Passei um mês inteiro fechada num quartinho escuro e húmido, sem janelas, sem luz, recebendo apenas água suja e farinha velha uma vez por dia. O meu corpo emagreceu até aos ossos aparecerem. A minha pele ficou pálida como a morte.

Os meus cabelos perderam o brilho dourado, mas o meu espírito, a minha alma, o meu espírito recusava-se a quebrar, se recusava a render-se. Quando finalmente soltaram-me, o Leôcio chamou-me novamente à biblioteca, mas desta vez algo era diferente no olhar dele. Ele parecia cansado, quase humano. “Exaura”, disse ele com uma voz que queria parecer gentil. Eu amo-te.

Sei que não acredita, mas é a mais pura das verdades. Casa comigo. Faço de ti minha esposa legítima, não minha escrava. Te darei tudo o que quiser. Olhei para ele com todo o desprezo que sentia. Nunca, respondi com firmeza. Prefiro morrer escrava. Prefiro morrer no tronco a ser sua esposa. Mataste o Tobias. Você matou Malvina.

Você destruiu tudo o que eu amava. Nunca. A sua expressão mudou completamente. A a falsa gentileza desapareceu como fumo. Então vai morrer escrava mesmo. Pode ter certeza disse ele e saiu batendo com a porta com violência. O Leôcio mandou-me trabalhar a cortar cana no sol escaldante, colocou-me no tronco por horas, humilhou-me de todas as formas possíveis.

A Rosa ria-se de mim feliz com o meu sofrimento, mas eu resistia dia após dia, até que Deus não me abandonou completamente. Álvaro, que nunca deixou de me amar, conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar a minha alforria. Vendeu propriedades, pediu empréstimos, juntou cada moeda, ofereceu ao Leôcio o triplo do meu valor de mercado.

Leôcio, que estava completamente endividado por causa do jogo e da bebida, perdendo tudo, acabou aceitando o dinheiro. Precisava de pagar dívidas urgentes. No dia 15 de março de 1860, assinei a minha carta de alforria com mãos tremendo de emoção. Chorei como nunca tinha chorado na vida. Eram lágrimas de dor por tudo o que sofri, de alívio por ser finalmente livre, de alegria por conquistar o que a minha mãe tanto sonhou para mim.

Liberdade, essa palavra doce e poderosa, liberdade. Casei com o Álvaro numa cerimónia simples, mas emocionante no Recife, no dia 2 de Maio de 1860. O meu pai Miguel estava lá a chorar de felicidade. O André e a Santa também. Usei um vestido branco simples, mas senti-me a mulher mais bela e livre do mundo. O Álvaro e eu dedicamos as nossas vidas à causa abolicionista.

Usamos o nosso dinheiro e a nossa influência para ajudar os outros escravos a comprarem as suas alforrias. Escondemos fugitivos em nossa casa. Lutamos incansavelmente por um Brasil sem correntes. Soube anos mais tarde que Leôcio morreu em 1865, completamente arruinado, embriagado, sozinho, abandonado até pelos últimos escravos que ainda tinha.

Não senti pena, não senti raiva, senti apenas nada. Ele não merecia sequer os meus pensamentos. Vivi uma vida longa. Vi os meus cabelos ficarem brancos, vi rugas marcarem o meu rosto, mas vivi livre. Tive filhos com Álvaro. Vi os meus netos crescerem. E no no dia 13 de maio de 1888, quando a princesa Isabel assinou a lei áurea, abolindo completamente a escravatura no Brasil, chorei de alegria, lembrando a minha mãe, o Tobias, o Malvina, de todas as mulheres e homens que sofreram como eu sofri.

Morri em 1902, aos 62 anos, rodeada pela minha família. A minha última palavra foi livre, porque vivi escrava. Mas morri livre. Esta é a minha história, a história de Isaura, uma escrava branca que lutou com todas as forças pela própria liberdade num país que teimava em acorrentar-me. Que a minha história nunca seja esquecida.

E assim termina o emocionante relato de Isaura, meus queridos. Uma história que dói no coração, que nos faz refletir, mas que é muito importante nós conhecer e nunca esquecer. Essa história é real e foi baseada no romance A escrava Isaura, escrito pelo autor brasileiro Bernardo Guimarães em 1875, durante o período final da escravatura no Brasil.

Mas não se pense que é apenas ficção literária, não. Bernardo Guimarães se inspirou em casos reais que aconteceram no Brasil imperial, principalmente na região de Campos dos Goitacazes, no Rio de Janeiro, que na altura era uma das maiores regiões produtoras de açúcar e café do país, com dezenas de milhares de escravos a trabalhar em condições desumanas.

A situação das escravas brancas ou mulatas que nasciam de relações entre senhores brancos e escravas negras era extremamente comum no Brasil escravocrata. Estas mulheres viviam numa situação terrível e contraditória. Eram brancas por fora, mas escravas pela lei. Muitas foram abusadas sexualmente, perseguidas, vendidas e até mortas pelos próprios proprietários ou pelos filhos destes senhores.

A história de Isaura representa a realidade dolorosa de milhares de mulheres que sofreram às mãos de senhores cruéis durante mais de 300 anos da escravatura no Brasil. O romance de Bernardo Guimarães foi adaptado para a televisão duas vezes. A primeira versão de 1976 foi um sucesso mundial gigantesco, sendo vendida para mais de 100 países.

A novela foi tão importante que na União Soviética a palavra quinta entrou para o dicionário russo. Em Cuba, o governo cancelou o racionamento de energia para que o povo pudesse assistir. E na Bósnia e na Sérvia, que estavam em guerra, foi decretado cessar fogo durante os capítulos. A segunda versão foi produzido pela Record em 2004 e também fez muito sucesso.

É fundamental nós conhecer estas histórias para nunca esquecer o que aconteceu, para honrar a memória destas pessoas que sofreram tanto e para garantir que nunca mais que aconteça. A escravatura foi abolida oficialmente em 1888 com a lei Áurea. Mas as suas consequências profundas ainda estão presentes na nossa sociedade até aos dias de hoje, no racismo estrutural, na desigualdade social, na injustiça que muitos ainda enfrentam.

Fontes históricas e literárias sobre este período incluem o romance original A escrava Isaura de Bernardo Guimarães, 1875. Documentos do Arquivo Nacional sobre a Escravatura em Campos dos Goitacazes e na província do Rio de Janeiro. Estudos académicos sobre a condição das escravas no Brasil imperial e as adaptações televisivas de 1976, TV Globo e 2004 Record TV, que pesquisaram profundamente o período.

Bom, meus queridos, espero de coração que tenham gostado desta história e que ela tenha tocado o coração de vós tanto quanto tocou o meu. A história de Exaura é uma história de dor, mas também de resistência, de coragem, de luta pela liberdade. Me conta aqui nos comentários de qual estado ou cidade do Brasil estão assistindo a este vídeo.

Adoro saber de onde são os nossos queridos ouvintes. Mando um abraço enorme, apertado e carinhoso para cada um de vós. E muito obrigada, de verdade, por me terem acompanhado até aqui, por terem conhecido a história da Isaura. Até ao próximo vídeo, os meus amores. Um beijo gigante no coração de cada um.