A tarde caía como chumbo derretido sobre a quinta de São Sebastião. O calor de março transformava o ar em algo quase sólido, denso, sufocante. Dona Catarina de Albuquerque Melo estava novamente na varanda do segundo andar, recostada na cadeira de baloiço em pau santo, que rangia a cada movimento.

O leque de penas de avestruz movia-se com preguiça diante do seu rosto, mas não trazia alívio. Nada trazia alívio naquela casa. O seu marido, o visconde Arnaldo de Melo, toscia no quarto ao lado aquela tosse seca, irritante, que ecoava pelas paredes como um lembrete constante da fragilidade daquele homem. Casada há três anos, a Catarina conhecia cada som daquela residência, o arrastar das pantufas do marido no corredor, o tinir da colher contra a chávena de chá medicinal, o silêncio gélido que preenchia o leito conjugal todas as

noites. Tinha 24 anos e sentia-se murchar como as flores no jardim que ninguém regava em condições. A sua pele ainda era firme, os cabelos castanhos ainda brilhavam quando soltos, mas que diferença fazia! O visconde tocava-a com a mesma frequência com que ia à missa, uma vez por mês, no máximo, e sempre com a delicadeza nervosa de quem teme partir porcelana fina.

Não havia paixão, não havia suor, não havia peso. Foi por isso que os seus olhos começaram a vaguear, para além dos limites do jardim ornamental, para além das rosezeiras importadas da Europa, até ao terreno baldio, onde erguiam o novo celeiro. A construção tinha começado três semanas antes.

15 homens trabalhavam sob o sol inclemente, carregando madeira, martelando pregos, erguendo vigas. Catarina observava-os com o tédio de quem assiste a formigas a trabalhar. Até que viu o Cael, não sabia o seu nome nesse primeiro dia. Sabia apenas que ele era diferente. Enquanto os outros escravos transportavam as toras em duplas ou trios a gemer sob o peso da madeira, aquele homem simplesmente colocava os troncos sobre os ombros largos e caminhava sozinho, como se transportasse nada além de ar.

Catarina inclinou-se para a frente na cadeira. O leque parou de se mover. Devia ter os seus 30 anos, talvez menos. A pele era da cor do mógno envernizado, esticada sobre músculos que pareciam esculpidos em pedra. Não usava camisa. Nenhum deles usava, mas nos outros isso passava despercebido. Nele, a ausência de tecido era um convite obsceno.

Os ombros eram montanhas, o peito subia e descia com a respiração controlada. As costas formavam um triângulo perfeito de força bruta quando baixava-se para erguer outra tora. E então aconteceu. Kell levantou um tronco que dois homens tinham tentado mover minutos antes. A Catarina viu os músculos do abdómen dele se contraírem. Viu as veias saltarem-lhe nos braços, viu a madeira ranger em protesto antes de ceder.

Ergueu-a acima da cabeça por um instante, apenas para ajustar o equilíbrio, e depois colocou-a sobre os ombros. O suor escorria pelo sumo da espinha dele, desaparecendo na cintura das calças rasgadas. A Catarina sentiu algo que não sentia há anos. Uma onda de calor subindo do ventre, espalhando-se pelo peito, incendiando as faces. Não era o calor de março, era outra coisa, algo primitivo, algo faminto.

Ela apertou os dedos nos braços da cadeira de balanço. A madeira gemeu. Cael caminhou até ao celeiro com aquela tora monstruosa nos ombros, os músculos das coxas flectindo a cada passo. E Catarina percebeu que a sua respiração estava acelerada. Percebeu que havia mordido o lábio inferior sem querer. Percebeu que, pela primeira vez em três anos de casamento, o seu corpo estava acordando.

“Como é que um homem aguenta tanto peso?”, sussurrou ela para ninguém. E depois, com a voz ainda mais baixa, quase um pecado dito em voz alta. “O que mais ele aguenta?”, a pergunta ficou suspensa no ar quente como fumo. A Catarina se levantou-se da cadeira, as mãos a tremerem ligeiramente, entrou no quarto, fechou a porta e encostou-se a ela.

O coração batia demasiado depressa. Ela levou a mão ao peito, sentindo o ritmo frenético sob o corpete apertado. Lá fora, o som da construção continuava, marteladas, vozes de comando. E, se ela prestasse atenção, conseguia ouvir o baque surdo madeira sendo depositada no chão. Madeira que Cael carregava, madeira que dominava com aquelas mãos enormes.

Catarina fechou os olhos pela primeira vez em anos. Não pensou no marido doente, nas obrigações sociais, nas visitas fastidiosas das outras senhoras da região. Pensou apenas em força, em peso, em suor masculino a brilhar ao sol. pensou em Kyle e soube, com a terrível certeza de quem reconhece o próprio abismo, que aquele pensamento não a abandonaria tão cedo. Talvez nunca mais a abandonasse.

A tarde caía como chumbo derretido, mas dentro do peito da dona Catarina, algo começava a arder com a intensidade de metal em brasa. Os dias seguintes foram uma tortura apurada. A Catarina acordava com o sol e corria até à varanda antes mesmo de o marido despertar. Posicionava a cadeira de baloiço no ângulo exato que permitia-lhe observar o canteiro de obra sem parecer óbvia.

Levava bordados, um livro, qualquer pretexto, mas os seus olhos nunca tocavam no tecido ou nas páginas. Estavam sempre fixos lá em baixo, procurando aquele corpo entre os outros. O Cael era fácil de encontrar. Bastava procurar o homem que trabalhava como se fosse dois. Ela começou a notar pormenores, a forma como ele amarrava um pano vermelho na testa para impedir que o suor escorresse nos olhos, a forma como esticava as costas de meia em meia hora, arqueando a coluna para trás, fazendo com que os músculos do abdómen se contraírem numa

exibição involuntária de anatomia masculina. O facto de ele nunca gritava, nunca se queixava, nunca pedia ajuda. Os outros escravos respeitavam-no. A Catarina percebia isso. Quando Cael passava, afastavam-se um pouco, davam espaço. Não era medo propriamente, era reconhecimento. Ali estava um homem que a natureza tinha esculpido para carregar o mundo aos ombros.

E Catarina queria ser carregada. O pensamento surgiu numa manhã de quinta-feira, enquanto ela o observava erguer uma viga inteira sozinho. A madeira devia pesar o equivalente a três homens. Cael a levantou-se do chão, ajustou o equilíbrio e caminhou com ela como se fosse um ramo seco. Catarina imaginou aqueles braços à volta da sua cintura.

Imaginou ser erguida com a mesma facilidade. Imaginou o que aquela força poderia fazer com um corpo como o dela. O leque caiu da sua mão. Ela nem se apercebeu. Catarina. A voz do marido arrancou-a do trans. Visconde Arnaldo estava à porta da varanda, enrolado no hobby da seda, parecendo menor do que nunca.

Os olhos dele eram fundos. rodeados de olheiras roxas. Ele tucia naquele pano branco que já tinha manchas amareladas. Está bem? Chamei três vezes. Catarina forçou um sorriso. Perdão, querido. Estava distraída com o com o jardim. As rosas estão a morrer. Arnaldo olhou para as rosezeiras sem interesse. Mande o jardineiro cuidar disso.

Ele se aproximou-se, tocou-lhe levemente no ombro. Tem passado muito tempo aqui fora. O sol não é bom para a sua pele. Preciso de ar. Ela respondeu mais seca do que pretendi. Então, mande trazerem o guarda-sol francês. Ele torciu novamente, virando o rosto. Não quero que fique com a pele manchada como as mulheres do campo.

Catarina assentiu em silêncio. Arnaldo deu meia volta e arrastou-se de volta para dentro da casa. Ela ouviu a porta do escritório a fechar. Ele passaria lá o dia, revendo livros de contabilidade, escrevendo cartas para a corte, fingindo que ainda tinha alguma relevância política. Ela voltou os olhos para o estaleiro de obras.

Caelo estava bebendo água. Alguém tinha trazido um balde e uma concha de metal. Ele inclinou a cabeça para trás e despejou a água sobre o rosto, sobre o pescoço, sobre o peito. A água escorreu pelos sucos dos músculos, brilhando como mercúrio líquido. Ele abanou a cabeça e gotas voaram em todas as direções. Catarina sentiu a boca secar.

Precisava de fazer alguma coisa. Não podia continuar apenas observando como uma menina tola. Ela era a senhora daquela quinta. Tinha poder, tinha meios. Mas o que é que ela exatamente pretendia fazer? A resposta surgiu dois dias depois, durante o jantar. Arnaldo comentava a construção do celeiro. Está a custar mais do que o previsto.

Resmungou, cortando a carne com dificuldade. Estes negros comem demais e trabalham devagar. Catarina não levantou os olhos do prato. Pensei que a obra estivesse adiantada. Adiantada. Quem te disse isso? Observo da varanda. Parecem eficientes. Arnaldo deu uma gargalhada seca. Não percebe de construção, querido.

São preguiçosos todos eles. Ele bebeu vinho, manchando os lábios de vermelho escuro. Há um especialmente grande que está a ser útil. Cael, acho que é o nome. O feitor disse que ele vale por três. Estou a pensar vendê-lo depois que a obra terminar. Posso obter um bom preço. O garfo da Catarina parou no ar. vender? Claro.

Não preciso de tanta força bruta depois de o celeiro estar pronto. Melhor lucrar enquanto ele ainda é jovem. A Catarina colocou o garfo sobre o prato com mais força do que pretendia. O som ecoou pela sala de jantar. Isso é precipitado. Um trabalhador eficiente é difícil de encontrar. Arnaldo encarou-a com surpresa.

Desde quando se interessa pela administração dos escravos? Desde que percebi que você está a pensar em se desfazer de um património valioso por impulso. O silêncio que se seguiu foi pesado. Arnaldo limpou a boca com o guardanapo, lentamente, estudando a esposa. Você está estranha ultimamente. Estou aborrecida. Ela respondeu.

E era verdade, parcialmente. Então aceite o convite da baronesa de Itu. Ela pediu-lhe que a visitasse. Não quero estar a ouvir mexericos sobre quem está à espera do herdeiro. Arnaldo suspirou. Catarina, me deixe-o tomar conta da casa, Arnaldo. É o que me resta. Ela levantou-se, a cadeira raspando no chão. Preciso de me retirar.

A digestão é pesada. Ela saiu antes que ele pudesse responder. No corredor, encostou-se à parede, respirando fundo. O coração batia descompassado. A menção à venda de Kyle tinha provocado algo visceral nela. Pânico, raiva, possessividade. Ele não podia ser vendido porque ela ainda não tinha tocado nele.

A noite caiu pesada sobre a quinta. A Catarina não conseguia dormir. Arnaldo ressonava ao seu lado, um som fraco e irregular que a irritava. Ela se levantou-se, colocou o hob de seda e foi até à janela. Lá em baixo, as cenzalas estavam escuras. Apenas uma fogueira ardia no centro do pátio, onde alguns escravos ainda conversavam em voz baixa.

Ela procurou K entre as sombras, mas não o encontrou. E foi então que a ideia surgiu simples, direta, perigosa. Se ela não podia ir ter com ele, ela iria trazê-lo até ela. Na manhã seguinte, a Catarina chamou Josefa, a mucama mais velha. Preciso que que dê um recado ao feitor. Sim, senh a lenha da minha lareira está a acabar.

Quero que seja reposta hoje e quero que seja o escravo Cael a trazê-la. Josefa hesitou. Cael. Sim. Ah, ele trabalha na construção. Eu sei onde ele trabalha, mas ele é forte, não é? Consegue carregar mais lenha de uma só vez, é mais eficiente. A lógica era fraca, mas a autoridade, na voz de Catarina, não deixava espaço para questionamentos.

Josefa fez uma vénia. Como quiser, palavra-passe. A Catarina passou o resto da manhã preparando-se. Escolheu um vestido azul claro, mais simples do que o habitual, mas que marcava a cintura. Penteou os cabelos soltos, não presos no severo coque de sempre. Passou perfume nos pulsos, no pescoço, entre os seios.

Arrumou a lareira, removendo a lenha velha, criando uma necessidade real, e esperou. A tarde chegou. Três pancadas na porta. Catarina sentiu o estômago apertar. Entre. A porta abriu-se. Cael entrou. Ele era maior do que parecia de longe. Precisou de baixar ligeiramente a cabeça para passar pela porta.

Os ombros preenchiam o batente. Ele transportava uma pilha absurda de lenha nos braços, como se fossem palitos. E então os seus olhos se encontraram. A Catarina esqueceu como respirar. De perto era avaçalador, o rosto era anguloso, a mandíbula quadrada, os lábios cheios, os olhos eram castanhos escuros, quase negros, e transportavam algo que ela não esperava ver num escravo.

Inteligência, consciência. Ele sabia, sabia porque havia sido chamado. Onde é que era lenha? Sim. A voz era grave, rouca, vibrando no peito amplo. Catarina apontou para a lareira com a mão que tremia ligeiramente. Ali Caelo atravessou o quarto. Cada passo era silencioso, apesar do tamanho. Ajoelhou-se diante da lareira e começou a empilhar a lenha com uma precisão quase delicada.

As mãos eram enormes, calejadas, mas moviam-se com cuidado. Catarina aproximou-se, parou a meio metro dele. O cheiro a suor de madeira, de terra invadiu os seus sentidos. Era tão diferente do perfume doce do marido, da água de colónia importada, das saquetas de lavanda. Era real, era animal. “Fizeste-te mal?”, ela perguntou, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

K parou, virou a cabeça ligeiramente, sem olhar para ela. Não, Sá. Tem um corte no braço. Era mentira. Não havia corte nenhum. Mas Catarina precisava de uma razão para lhe tocar. Cael olhou finalmente para ela. Os olhos dele estudaram o seu rosto por um momento demasiado longo. Ele sabia que era mentira e ela sabia que ele sabia, mas ele estendeu o braço.

Catarina ajoelhou-se ao lado dele. O coração batia tão alto que ela tinha a certeza de que ele podia ouvir. Ela tocou-lhe no braço com a ponta dos dedos. A pele estava quente, não quente era pouco. Estava a arder, como se houvesse fogo debaixo da carne. Ela deslizou os dedos pelo bíceps dele, fingindo procurar o corte inexistente.

O músculo era duro como pedra. Não havia nada de macio naquele homem. Tudo nele era sólido, denso, construído para aguentar. Não vejo ferimento”, disse baixinho. “Achei que a Catarina não terminou a frase. Os seus dedos ainda estavam sobre a pele dele. Cael virou o corpo para encará-la.

Ajoelhados assim, estavam quase da mesma altura. Ela podia ver as gotas de suor na têmpora dele. Podia sentir o calor a emanar daquele corpo, como se ele fosse uma fornalha humana.” Sim, disse. E havia um aviso na voz, sendo estabelecido um limite. Mas Catarina já tinha cruzado todos os limites dentro da própria cabeça. “Você carrega tanto peso”, sussurrou ela.

“Não dói”, habituei-me. “Pode carregar mais”. O silêncio que se seguiu foi elétrico. Os olhos de Kell estreitaram-se ligeiramente, como se estivesse a decifrar uma charada. E depois, com uma lentidão deliberada, respondeu: “Depende do que assim quer que eu carregue.” Catarina deveria ter recuado, deveria ter-se levantado, dispensado ele, voltado para a sanidade.

Mas a sanidade mental havia ficado na varanda há semanas, quando ela viu-o pela primeira vez. Ela se inclinou-se para a frente, apenas alguns centímetros. “Deixe-me aliviar o seu peso, K.” Ele não respondeu. “Não era preciso. A respiração dele tinha mudado, mais lenta, mais profunda. Os músculos do abdómen se contraíam e relaxavam sob a pele suada.

E depois, quebrando todas as regras, desafiando todas as leis, Cael levantou a mão lentamente, dando tempo para ela afastar-se. Ela não se afastou. Os dedos dele tocaram-lhe no pulso, envolveram completamente. A mão dele era tão grande que o polegar e o indicador se encontravam em redor do braço fino de Catarina.

Ele não apertou, apenas segurou. Isso é perigoso, Simã, eu sei. Pró dois. Eu sei. Cael estudou-a por mais um momento e depois, com uma suavidade que contrastava com o tamanho brutal, ele levantou-lhe o pulso até aos próprios lábios e beijou-lhe a pele ali. Foi apenas um roçar, mas Catarina sentiu o impacto atravessar todo o seu corpo, acendendo cada terminação nervosa.

Ela o fegou. Cael soltou-lhe o pulso e se afastou. levantou-se, voltou a ser o escravo obediente. A lenha está pronta, senh precisa de mais alguma coisa? A Catarina não conseguia formar palavras. Abanou a cabeça, Kell fez uma reverência e saiu do quarto. A porta se fechou. Catarina ficou ajoelhada diante da lareira, a tremer.

Levou o pulso aos próprios lábios, tocando no local onde tinha beijado. Ainda estava quente. Lá fora, o som da construção recomeçou. marteladas, vozes, madeira a ser arrastada. Mas dentro do quarto de Catarina o silêncio era ensurdecedor, e no pulso dela ainda pulsava o beijo de um homem que não deveria existir no mundo dela, mas existia, e ela precisava tê-lo de novo.

Os dias que se seguiram foram uma dança cuidadosa entre o desejo e a cautela. Catarina não podia chamar Cael novamente tão cedo, seria suspeito. Depois ela voltou à varanda, voltou à cadeira de baloiço, mas agora tudo havia mudado. Já não era observação passiva, era comunicação silenciosa. Cael trabalhava lá em baixo e de vez em quando erguia os olhos na sua direção, apenas um segundo, um olhar que atravessava a distância como uma flecha.

Ela respondia com um gesto discreto, um movimento do leque, um toque no colar. sinais que qualquer outra pessoa interpretaria como nervosismo, mas entre eles havia um idioma novo a ser construído. Arnaldo não percebia nada. Estava demasiado ocupado com a própria fragilidade. A tosse havia piorado.

O médico vinha duas vezes por semana, aplicava sangue sugas, recomendava repouso. O visconde passava os dias fechado no escritório ou deitado, queixando-se do calor, da comida, da incompetência dos criados. Catarina representava a esposa dedicada durante as refeições, mas a sua mente estava sempre noutro lugar, no celeiro, na força de um homem que a podia erguer com a mesma facilidade com que erguia a madeira.

A oportunidade surgiu numa tarde de chuva. O temporal chegou sem aviso, transformando o céu em chumbo líquido. Os trabalhadores correram para para se abrigar, mas a construção precisava ser protegida. Madeira molhada apodrecia e Arnaldo cobraria caro por qualquer prejuízo. Catarina observava da varanda coberta.

Viu Cael permanecer lá fora sozinho, cobrindo as pilhas de tábuas com lonas. A chuva caía com violência, encharcando-o em segundos. A água escorria-lhe pelos músculos, transformando a pele em bronze polido. Foi aí que ela tomou a decisão, desceu as escadas, atravessou o corredor, passou pela cozinha, onde as cozinheiras fitaram-na com o espanto.

“Sim, há a chuva. Preciso de verificar se a lenha está sendo protegida adequadamente”, ela mentiu, pegando numa capa de chuva. Saiu pela porta das traseiras. A chuva era um cortina densa. A Catarina correu pelo caminho de pedras, a lama salpicando as suas botinas. O vestido pesava colado na pele. Ela não ligava.

Chegou ao celeiro no momento em que Cael terminava de atar a última lona. Ele viu-a e congelou. Por um instante, apenas se encararam sob a chuva torrencial. Então, A Catarina entrou no celeiro. Era um espaço amplo, ainda em construção. Pilhas de madeira por todos os lados, cheiro a serradura molhada, escuro, exceto pelos relâmpagos que iluminavam tudo em flashes brancos.

Cael entrou atrás dela, fechou a porta. A chuva se transformou num som abafado contra o telhado de telha. Eles estavam encharcados. A Catarina tirou a capa, atirou-o para o chão. O vestido colava-se no corpo, transparente em alguns locais. Ela viu os olhos de Kyle descerem por a sua silhueta antes de ele forçar o olhar para cima.

Assim, ah, não devia estar aqui. Onde é que eu deveria estar, Kyl? No meu quarto, bordando, fingindo que estou viva. A voz dela saiu mais alta do que pretendia. Havia ali anos de frustração, anos de ser tocada com luvas de seda, anos de ser tratada como uma boneca de porcelana. Kyle deu um passo na sua direção. Apenas um.

Isso não vai terminar bem. Nada na minha vida acaba bem. Pelo menos deixem-me escolher como destruir tudo. Ele abanou a cabeça devagar. Sim. Ah, não sabe o que é pedindo. Eu sei exatamente o que estou pedindo. Catarina deu um passo em frente. Agora estavam a poucos centímetros um do outro. Estou a pedir para me tratar como se eu fosse real, não frágil, não delicada. Real. Caelrou os punhos.

Ela via a batalha a acontecer dentro dele, o treino de uma vida inteira, dizendo recuar, mas algo mais primitivo, mais forte, empurrando-o para a frente. Se eu tocar assim, há de verdade, ele disse baixinho. Não vai ser gentil. Ótimo. A voz dela tremeu. Estou cansada de bondade. Houve um momento de suspensão.

Um relâmpago iluminou o celeiro e no clarão branco, a Catarina viu o rosto de Kyle. viu o homem vencer o escravo. Deu um passo à frente e apensou contra a pilha de madeira atrás dela. O impacto arrancou o ar dos pulmões de Catarina. A madeira era áspera contra as suas costas. O corpo dele era uma parede de músculos e calor contra a sua frente.

Ela estava presa entre duas solidezas e, pela primeira vez em anos, sentiu-se exatamente onde deveria estar. Cael colocou as mãos na madeira, uma de cada lado da cabeça dela, aprisionando-a. O rosto dele desceu até ficar a centímetros do dela. Última oportunidade de sair. Sá Catarina levantou a mão e tocou-lhe no peito. Sentiu o coração a bater ali em baixo, forte e constante, como marteladas.

Me mostra o que aguenta carregar. Foi o último pedaço de permissão que ele precisava. A boca de K desceu sobre o dela com uma fome que Catarina nunca havia experimentado. Não era o beijo tímido do marido, era uma reivindicação, posse. Ele beijou-a como se quisesse consumir e ela respondeu com a mesma intensidade, os dedos enterrando-se nos músculos do peito dele.

As mãos dele desceram pela cintura dela, grandes o suficiente para envolverem completamente. Ele ergueu-a como se ela não pesasse nada. Catarina enlaçou as pernas à volta da cintura dele e foi como escalar uma montanha sólida, inabalável. Cael virou-a, apoiando-a sobre uma bancada de madeira. As mãos dele subiram pelas coxas dela, empurrando o vestido molhado para cima.

A sua pele estava ardente, apesar da chuva. O contraste entre o frio do tecido e o calor das suas mãos arrancava-lhe fegos de Catarina. Quero sentir o teu peso”, sussurrou ela contra a boca dele. E Cael obedeceu. Ele inclinou-se sobre ela e a Catarina sentiram a massa de músculos pressionando-a contra a madeira.

Não era avassalador, era preenchedor, como se todos os espaços vazios dentro dela estivessem finalmente sendo ocupados. Ele apoiou os antebraços de cada lado do corpo dela, distribuindo o peso, mas ainda assim ela sentia a presença física do mesmo como uma âncora. As bocas se encontravam e se separavam em um ritmo frenético.

Os dedos da Catarina exploravam as costas dele, sentindo os músculos se moverem sob a pele. Era como tocar geografia. Montanhas e vales, força pura transformada em carne. Cael desceu a boca pelo pescoço dela, mordendo levemente. Catarina arqueou as costas, um gemido escapando-lhe dos lábios. As mãos dele puxaram o decote do vestido, expondo os ombros o início dos seios.

Ele beijou cada centímetro de pele revelada com uma reverência que contrastava com a intensidade anterior. “Se a demasiado macia para um mundo tão duro”, murmurou contra a pele dela. “Então proteja-me dele”, respondeu ela, puxando-lhe o rosto de volta para o dela. “Sê o meu mundo.” Eles fundiram-se novamente. Não havia mais siná e escravo.

Havia apenas dois corpos reconhecendo o que precisavam um do outro. A chuva caía lá fora, lavando o mundo. No interior do celeiro, rodeados pela madeira que Cael dominava todos os dias, criavam o seu próprio universo. O tempo perdeu significado. Poderiam ter sido minutos ou horas. A Catarina perdeu a conta de quantas vezes atingiu o ápice da loucura, o corpo inteiro se contraindo, as unhas arranhando as costas dele.

Cael segurava o seu clímax com um controlo impressionante, prolongando-o dela, fazendo-a estremecer repetidamente, até que ela implorou para ele se permitir a mesma libertação. Quando finalmente aconteceu, ele enterrou o rosto no pescoço dela, um rosnado baixo vibrando no peito. As mãos enormes agarraram a madeira com tanta força que a bancada rangeu.

Catarina sentiu o tremor percorrer-lhe o corpo, aquele corpo que parecia indestrutível, revelando vulnerabilidade apenas para ela. Ficaram assim longos minutos, respirações acalmando, corações desacelerando. Cael levantou a cabeça, os olhos procurando-os dela. Havia algo novo ali. Medo talvez, ou percepção do que tinha sido feito.

Não pode voltar atrás agora?” Catarina disse baixinho, acariciando-lhe o rosto. Nunca quis voltar atrás. Ele beijou a palma da mão dela, mas agora assim a pertence-me também. Bom, ela sorriu. Um sorriso verdadeiro, o primeiro em anos, porque já eras meu. Do lado de fora, a chuva começava a diminuir. O mundo real estava a regressar, mas dentro daquele celeiro, entre aquelas tábuas de madeira, tinha sido construído algo que não podia ser desfeito.

A Catarina sabia que havia consequências. Sabia que estava a brincar com o fogo num mundo que queimava pessoas como ela e Kyle, sem hesitar. Mas, pela primeira vez desde que tinha casado, ela sentia que estava viva e isso valia qualquer preço. As semanas seguintes foram um jogo perigoso de roubadas e olhares. Catarina inventava desculpas para ir ao celeiro.

Precisava de verificar se a estrutura estava segura. Queria supervisionar o acabamento. Arnaldo nunca questionava. esposas não percebiam de construção, então se ela queria fingir interesse que fosse. Cael e ela desenvolveram uma linguagem corporal. Quando era seguro, ele deixava a porta do celeiro entreaberta.

Quando havia riscos, permanecia trancada. A Catarina aprendeu a ler estes sinais como quem lê palavras. Encontravam-se na escuridão entre as pilhas de madeira. Às vezes conversavam, por vezes apenas se tocavam em silêncio. Outras vezes, quando a urgência era demasiado grande, se entregavam aquela mistura de sangue e suor que os definia.

A Catarina descobria o corpo dele aos poucos, as cicatrizes nas costas, marcas do tronco que ele levara quando mais novo, a queimadura no ombro de um acidente com ferro em brasa, a forma como ele sempre se colocava entre ela e qualquer som suspeito, protegendo-a instintivamente. Ela contava-lhe sobre a sua vida, a infância mimada, o casamento arranjado, a descoberta de que o luxo não preenchia a solidão.

Caelo escutava-o com atenção genuína, algo que Arnaldo nunca tinha feito. O que queria ser?”, ele perguntou uma tarde enquanto ela traçava os músculos do braço dele com o dedo. “Livre”, respondeu ela sem hesitar. Cael deu uma gargalhada sem humor. Então, nós os dois quer a mesma coisa. “Já pensou em fugir?” Ele ficou sério.

Todo o escravo pensa, mas o pensamento não leva ninguém longe. Capitão do mato traz de volta. E aí não precisou de completar. Ela sabia o que acontecia com os escravos capturados. Catarina entrelaçou os dedos nos dele. Se eu te pudesse libertar, não podes não. Sem destruir a própria vida. Talvez a minha vida precise de ser destruída.

Cael virou-se para ela. Sério? Não diz isso. Tem comida, teto, segurança. Eu não deixo-o deitar isso fora por minha causa. E se eu quiser jogar, então eu não deixo. Ele puxou-a para mais perto, envolvendo-a naquele abraço que parecia escudo. És a única coisa boa que eu tenho. Não vou deixar que o mundo destrua você.

Catarina aconchegou-se contra o peito dele, ouvindo o coração bater forte e regular. Naquele momento, rodeada por aquela força, ela podia fantasiar que o mundo lá fora não importava, mas o mundo importa sempre. A primeira fissura, na realidade, veio numa manhã de julho. A Catarina acordou enjoada, correu para a bacia e vomitou o jantar da noite anterior.

Josefa, que estava a arrumar o quarto, largou tudo e correu para ajudá-la. “Sim, está bem, deve ser algo que comi”, Catarina, murmurou limpando a boca, mas no fundo ela sabia. Conhecia o seu próprio corpo, conhecia os sinais, os seios mais sensíveis, a fadiga constante, a ausência da menstruação.

Ela estava à espera de um filho. O pânico veio primeiro, gelado, paralisante. Arnaldo mal a tocava. A última vez tinha sido há meses. uma tentativa patética que terminou com ele desistindo a meio, alegando dor no peito. Não havia forma de o filho ser dele. Catarina sentou-se na cama, as mãos tremendo. Josefa encarava-a com preocupação.

“Chame o médico, Catarina disse automaticamente. Sim, senh médico veio no dia seguinte, examinou-a com a descrição habitual, fez perguntas e finalmente confirmou o que ela já sabia. Parabéns, Dona Catarina, pelos meus cálculos. é de aproximadamente dois meses. O visconde ficará feliz Catarina forçou um sorriso. Sim, muito feliz. Quando o médico saiu, ficou sozinha no quarto, a mão sobre o ventre ainda plano.

Dentro dela crescia a evidência física do que tinha feito. Uma criança, o filho de Cael. Ela precisava de contar a ele. Esperou até ao anoitecer, desceu até o celeiro, o coração a bater descompassado. Cael estava lá a empilhar as últimas tábuas. A construção estava quase concluída. Ele viu-a e sorriu. Aquele sorriso que era só dela. Sim.

Ah, não devia est aqui. Está escurecendo. Preciso de te contar algo. O sorriso dele desapareceu ao captar o tom da voz. O que foi? Catarina respirou fundo. Estou à espera de um filho. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até os sons da noite pareceram cessar. Cael deu um passo atrás, como se tivesse levado um murro.

Tem a certeza? O médico confirmou hoje. E o Viscondde? Mal me toca há meses. Catarina aproximou-se. Cael, é seu? Nosso. Passou a mão pelo rosto, o pânico a tomar conta. Isso é sim. Ah, isso é um problema. Eu sei. Ela pegou nas mãos dele, mas também é nosso. Uma parte de ti e de mim. Uma parte que nos pode matar. Cael encarou-a.

Quando nascer, vão ver, vão saber. Nem sempre os bebés nascem parecidos com os pais. Catarina. Foi a primeira vez que usou o nome dela sem o título. Sabe como eu sou, conhece a minha cor. Se essa criança nascer parecida comigo, vão-te matar. E a mim também. Então a gente foge para onde? Com que dinheiro e grávida? A Catarina não tinha respostas.

só tinha medo e uma criança a crescer dentro dela. Cael puxou-a para um abraço apertado. “Vou arranjar um jeito”, ele murmurou contra os cabelos dela. “Juro que vou arranjar maneira.” Mas ambos sabiam que não havia jeito. O mundo que habitavam não permitia amores como o deles. Não permitia filhos nascidos do desejo que ultrapassava a linha proibida.

E agora o tempo contava contra eles. Dentro de sete meses, a verdade viria ao mundo, pequena, gritando, negável. E quando isso acontecesse, não haveria mais esconderijo possível. Catarina fez o que toda a mulher da sua posição faria. Mentiu. Naquela noite, após regressar do celeiro, ela procurou o marido.

Arnaldo estava no escritório, como sempre, a rever livros contábeis sob a luz ténue de uma lamparina. Ela entrou sem bater. “Analdo, preciso de te contar algo.” Ergueu os olhos cansado. “O que foi agora, Catarina?” Respirou fundo e forçou lágrimas. Não foi difícil. O medo era real. Estou à espera de um filho. O silêncio foi longo.

Arnaldo pestanejou várias vezes, como se processando informação impossível. O quê? Estou grávida? Dois meses. O médico confirmou hoje. Arnaldo levantou-se tão rápido que a cadeira caiu para trás. Mas como nos mal naquela noite? Catarina segurou-lhe a mão, lembra-se? Há dois meses. Teve aquela melhora, disse que se estava a sentir forte.

Ela olhou nos olhos dele, vendendo a mentira. Foi naquela noite. Ela viu a mente dele a trabalhar, tentando lembrar-se. Havia mesmo uma noite há meses em que ele havia tentado. Não conseguiu completar o ato, mas tentou. Na memória nebulosa dele, talvez fosse possível acreditar que conseguiu.

Eu Arnaldo tocou no rosto dela com mãos trémulas. Eu vou ser pai, vai. O sorriso que se abriu no rosto pálido dele era genuíno. Pela primeira vez em anos, o Arnaldo parecia feliz. Um herdeiro. Finalmente um herdeiro. Catarina forçou-se a sorrir de volta. Sim, um herdeiro. Arnaldo puxou-a para um abraço desajeitado.

Vou escrever para a corte. Vou anunciar. O meu filho vai ter título Terras Futuro. Ela aninhou-se contra o peito magro dele, escondendo a culpa no rosto. Precisamos de ser cuidadosos. A gravidez é delicada. Claro, claro. Afastou-a estudando-a. Vai ter o melhor cuidado. Vou trazer outro médico da capital. Nada de trabalho pesado, nada de saídas.

Catarina sentiu o estômago apertar. Saídas. Vai ficar em repouso. Não Quero arriscar perder o meu herdeiro por descuido. E assim começou a prisão. Os meses seguintes foram tortura. Arnaldo tratava Catarina como porcelana mais frágil ainda. Ela não podia descer as escadas sem ajuda. Não podia caminhar pelo jardim sem companhia.

Não podia definitivamente aproximar-se do celeiro. Josefa virou a sua guarda permanente. A mucama não saía do lado dela, monitorizando cada movimento. A Catarina não conseguia mais encontrar Cael. Mal conseguia vê-lo da varanda, porque Arnaldo trancava as janelas para protegê-la das correntes de ar. Ela definhava na própria prisão dourada.

A noite deitada na cama, as mãos sobre o ventre que crescia. Catarina pensava em Cael. Será que ele achava que ela o havia abandonado? Será que entendia que não tinha escolha? A construção do celeiro foi concluída. A obra que havia sido o pretexto para tudo, estava terminada. E Arnaldo, fiel à palavra, mandou o feitor preparar Cael para a venda.

Catarina sóbe quando ouviu a conversa por acaso. Estava na sala de costura, onde passava os dias a bordar roupas de bebé que talvez nunca pudesse vestir no seu filho. Arnaldo conversava com o feitor no corredor. Quanto você achas que ele vale, Cael? Uns três contos, senhor. Ele é forte, saudável, jovem, vai render bem. Bom, quero que leve-o ao mercado na semana que vem.

Preciso do dinheiro para preparar o quarto do meu filho. Catarina deixou a agulha cair, as mãos gelaram. iam vender Cael. O pai do bebé que crescia dentro dela seria vendido como gado. Ela precisava de fazer algo. Naquela noite esperou que Arnaldo dormisse. Ele dormia cedo ultimamente, o corpo fraco a pedir descanso.

Catarina levantou-se com cuidado, colocou o passatempo e saiu do quarto. Desceu as escadas em silêncio, atravessou a casa escura, saiu pela porta dos fundos. A lua estava cheia, iluminando tudo com luz prateada. Catarina atravessou o terreno em direção às cenzalas. Nunca lá tinha estado. Senhora não ia às cenzalas, mas ela já não era apenas uma senhora, era uma mulher desesperada.

Encontrou a cabana de Cael no fundo. Era pouco mais do que um barraco de madeira, com uma porta velha e janela sem vidro. Ela bateu levemente. Silêncio. Bateu outra vez. A porta abriu-se. Kell estava lá. Olhos arregalados ao vê-la. Sim. Ah. O quê? A Catarina entrou e fechou a porta. O espaço era minúsculo, uma esteira no chão, um cobertor fino, nada mais.

Assim viviam as pessoas que sustentavam o luxo dela. “Não pode vir aqui”, Kyle sussurrou desesperado. “Se alguém ver, vão vender-lhe.” Ela o encarou. Na próxima semana. Ouvi a conversa. Cael fechou os olhos. Eu sabia. O feitor avisou-me. Não posso deixar que isso aconteça. Não pode impedir. Abriu os olhos e havia resignação ali.

Sou propriedade do visconde. Ele faz o que quer comigo. Posso comprar-lhe. Tenho joias. Joias do seu marido. Ele vai notar se desaparecerem. Cael segurou-lhe os ombros. Catarina, acabou. Nós acabamos. Não. Ela sacudiu a cabeça. Não acabou. Temos um filho que pensa que é dele, mas não é. É seu, nosso.

Catarina colocou a mão dele sobre o ventre redondo. Está aqui a crescer, parte de si. K manteve ali a mão, os olhos marejando. Nunca vou conhecer essa criança. Vá, vamos arranjar um jeito. Não tem jeito. A voz dele saiu mais alta do que devia. Ele respirou fundo, controlando-se. Você vai criar essa criança como filho do visconde. Vai dar a ele o nome, o título, o futuro e eu vou estar noutra quinta, carregando lenha para outro senhor.

É assim que tem que ser? Não aceito. Tem de aceitar. Cael puxou-a para um abraço. Promete uma coisa. O quê? Se a criança nascer parecendo-me, se tiver a minha cor, os meus traços, inventas uma história. Diz que a doença, diz o que for, mas protege-a. O nosso filho. Filho, filha, não importa. Ele beijou-lhe a testa. Protege, porque eu não vou poder.

Catarina agarrou-se a ele, chorando. Não é justo. Nunca foi. Eles ficaram assim durante longos minutos, segurando um ao outro na escuridão daquela cabana miserável. Dois mundos que nunca deveriam ter-se encontrado, mas se encontraram e agora pagavam o preço. “Eu Amo-te”, Catarina sussurrou. Era a primeira vez que dizia.

Cael apertou o abraço. Também amo a sempre vou amar. Foi o adeus que não quiseram dar, mas precisavam. A Catarina voltou para a casa antes do amanhecer, subiu às escadas, deitou-se ao lado do marido que ressonava e chorava em silêncio até o sol nascer. Na semana seguinte, Cael foi vendido. Ela não viu a partida. Arnaldo não permitiu.

Não é cena para a mulher grávida presenciar, disse. Mas ela ouviu o som das correntes, o barulho da carroça a afastar-se e o silêncio que se seguiu. Cael tinha saído da sua vida, mas dentro dela transportava a única parte dele que ninguém lhe podia tirar. Os meses finais da gravidez foram um borrão de ansiedade.

A Catarina comia pouco, dormia menos ainda. Passava as noites acordada, as mãos sobre a barriga, conversando com a criança que ali crescia. “Você precisa parecer-se com ele”, sussurrava ela. “Com o viscondde, por favor, pelo amor de Deus, se pareça com ele. Mas sabia que Deus raramente ouvia preces de mulheres que tinham quebrado tantos mandamentos.

O trabalho de parto começou numa noite de tempestade. A Catarina acordou com as dores, ondas de agonia que começavam nas costas e espalhavam-se pelo corpo inteiro. Ela gritou. O Arnaldo acordou sobressaltado. O bebé, Josefa, chamem a parteira. A casa transformou-se em caos. Criados a correr, a parteira chegando encharcada pela chuva.

Catarina sendo levada para o quarto preparado. As horas se arrastaram. A dor era insuportável. Pior do que qualquer coisa que ela já tinha sentido, a parteira gritava ordens: “Empurra mais! Não pares!” Catarina empurrava até sentir que ia morrer. E talvez fosse melhor morrer. Talvez fosse melhor do que enfrentar o que viria depois.

E então, no meio da tempestade, um grito diferente rasgou-se à noite. O choro de um bebé. É um menino! A parteira anunciou. Catarina desabou na cama exausta. Ouviu movimentos, água, a parteira a limpar a criança. “Dá-me”, ela sussurrou. “Deixa-me ver.” Houve hesitação, um silêncio pesado. “Dá-me, meu filho.” A parte aproximou-se, o bebé, enrolado em panos, colocou-o nos braços de Catarina.

Ela olhou e o seu coração parou. O bebé tinha a pele clara, os olhos ainda fechados, o rosto era redondo, indefinido como todos os recém-nascidos. Mas o cabelo, o cabelo era crespo, negro e crespo. Não havia como esconder. A Catarina olhou para o parteira. A mulher desviou o olhar. Ela tinha visto, sabia? Chame o Viscondde, Catarina disse a voz trémula.

Arnaldo entrou no quarto como um vendaval. Meu filho, deixa-me ver o meu A voz morreu. Ele encarou o bebé. Encarou Catarina. Encarou novamente o bebé. O silêncio foi sepulcral. Arnaldo. A Catarina começou. De quem é esta criança? A voz dele era gelo. É nosso. Esta criança não é minha. Gritou tão alto que o bebé começou a chorar. Olha para ele. Olha para o cabelo.

Os bebés mudam. Não muda assim. Arnaldo deu um passo atrás, o rosto desfigurado pela raiva. Você enganou-me. Fez-me de idiota. Quem foi? Qual dos escravos? Catarina abraçou o bebé com força. Ninguém. Mentirosa. Ele agarrou a beira da cama, o corpo todo a tremer. Você deitou-se com um Enquanto Eu Ele Ele não conseguiu terminar.

Arnaldo, por favor, saia da minha casa. A voz dele estava calma agora. Calma demais. Você e essa criatura saiam. Onde vou ir? Pro inferno. Não me importa. Ele virou-se para a porta. Josefa, tira essa mulher e este sacana da minha vista agora, Senhor. Assim a acabou de dar à luz. Eu sei o que ela fez. Arnaldo cuspiu as palavras.

E sei o que ela é, uma prostituta, uma devaça. Tire-a daqui antes de eu fazer algo de que me arrependa. Ele saiu batendo com a porta. A Catarina ficou sozinha com o bebé nos braços. A criança chorava, também ela chorava. Josefa aproximou-se, os olhos cheios de lágrimas. Sinal que a senhora fez. Amei quem não devia. Catarina, respondeu, beijando a testa do filho.

Mas não me arrependo. O visconde vai espalhar, toda a gente vai saber. Deixe saberem. Catarina olhou para o bebé. Os olhos dele abriram-se pela primeira vez. Eram castanhos escuros como os de Cael. E naquele momento, apesar de todo o horror, apesar da ruína, apesar de saber que a sua vida estava destruída, Catarina sorriu porque nos braços dela dormia o único pedaço de Cel que o mundo não podia tirar, o seu filho deles.

10 anos depois, a antiga quinta de São Sebastião já não existia. Arnaldo morreu dois anos após o escândalo, a já frágil saúde desmoronando-se completamente sob o peso da humilhação. Sem herdeiros legitimários, as terras foram leiloadas para pagar dívidas. A casa grande transformou-se em ruínas. A Catarina não estava lá para ver.

Ela tinha sido expulsa naquela noite de tempestade, apenas com a roupa do corpo e um bebé nos braços. Nenhuma família a acolheu. O escândalo espalhou-se como fogo. A senhora que se tinha deitado com escravo, a devaça, que ousou manchar o sangue nobre. Ela vagueou por meses, dormiu em estábulos, mendigou comida.

O bebé que ela batizou de Miguel sobreviveu milagrosamente. Talvez transportasse a mesma força resiliente do pai. Foi uma velha parteira, numa cidade pequena do interior, quem finalmente ofereceu abrigo. “Eu não julgo”, a mulher disse. Deus julga. E eu acho que Deus anda demasiado ocupado para se importar com quem amou.

Catarina aprendeu o ofício. Tornou-se parteira, também ajudava as mulheres a trazer crianças ao mundo. Essas mesmas mulheres que provavelmente a desprezariam se conhecessem a sua história. Mas ela não contava. Usava outro nome, construiu outra vida. O Miguel cresceu forte. Aos 10 anos já era mais alto do que os rapazes de 12.

Os músculos começavam a definir-se. Ele tinha os olhos do pai, a determinação da mãe e uma inteligência que surpreendia todos os que o conheciam. A Catarina nunca mentiu-lhe. Numa tarde, enquanto regressavam do rio onde Miguel havia pescado, ela contou tudo sobre a fazenda, sobre o visconde, sobre Cael. O seu pai era um escravo, disse ela sem vergonha, mas era mais homem que qualquer senhor que conheci.

era forte, gentil, protetor e amou-me quando eu não tinha mais nada para oferecer. Miguel escutou em silêncio. Quando ela terminou, perguntou: “E o que aconteceu com ele? Foi vendido. Nunca mais soube dele. Ele sabe que existo. Sabia que ias nascer, mas nunca te conheceu.” Miguel olhou para as próprias mãos.

Mãos que já eram grandes, fortes, capazes. Quero encontrá-lo, filho. Quero conhecer o meu pai. A Catarina sabia que era inútil argumentar. O Miguel tinha a teimosia de K. Foram também necessários dois anos de buscas, perguntas discretas, informações fragmentadas. O rasto de um escravo vendido era difícil de seguir. Eles eram movidos como peças de xadrez, sem registo adequado.

Mas Miguel era persistente. Até que um dia um tropeiro passou informação. Tem um escravo numa quinta nas Minas, forte que nem um touro. Chamam-lhe Cael. O Miguel tinha 12 anos quando finalmente chegou à quinta. Era um lugar mais pequeno que São Sebastião, plantação de café. Ele pediu autorização para transmitir uma mensagem.

O feitor desconfiado permitiu. Cael estava no campo carregando sacos de café. Ainda sozinho, ainda com aquela força descomunal. Ele tinha envelhecido. Cabelos começando a grisalhar, cicatrizes novas somando-se às antigas, mas ainda era imponente. O Miguel se aproximou. Você é Cael? O homem parou, virou-se, olhou para o menino e congelou.

Porque nos olhos daquele menino ele via a Catarina, no formato do rosto via a própria mãe e na estrutura do corpo já a informação via-se a si própria. “Quem és tu?”, perguntou K com voz rouca. “O meu nome é Miguel.” O menino respirou fundo. Sou seu filho. O saco de café que Cael carregava caiu no chão. Grãos se espalharam. Ele não reparou.

“Catarina”, sussurrou. “A minha mãe, ela está viva. Mandou-me encontrar-te.” Cael deu um passo em frente, depois outro, e depois quebrando toda a regra, ajoelhou-se diante do menino, colocou as mãos nos ombros dele, estudou cada traço do rosto. “És real”, murmurou, os olhos marejados. “Você existe?” Existo. O Miguel sorriu.

Um sorriso que era metade catarina, metade Cael. “E quero conhecer meu pai”. Ali, naquele campo de café, sob o sol das Minas, dois homens se abraçaram. um escravo que nunca teria direito à sua própria história, um menino que nasceu da maior transgressão possível, mas era um pai e um filho e isso nem todo o peso do mundo conseguia desfazer.

Nos anos que se seguiram, O Miguel visitava quando possível, levava notícias da mãe, aprendia com o pai sobre a força, a resistência, a dignidade. Cael nunca foi libertado. morreu escravo aos 52 anos, o corpo cedendo finalmente depois de carregar o peso de tantas vidas, mas deixou algo que nenhum senhor poderia possuir.

Deixou um filho livre, um filho que escolheu carregar o seu nome, a sua história, o seu legado. Miguel cresceu, tornou-se carpinteiro, trabalhou a madeira como o pai, construiu casas, celeiros, igrejas, e em cada trave que erguia, lembrava-se do homem que carregava troncos sozinho. casou, teve filhos, contou-lhe sobre o avô que nunca conheceram, mas cujo sangue lhes corria nas veias.

Catarina viveu até aos 63 anos. No fim, foi Miguel quem cuidou dela. No leito de morte, ela segurou-lhe a mão. “Valeu a pena, Miguel?” Perguntou. A Catarina olhou para o filho, o homem forte, digno, livre, que ela tinha trazido ao mundo. Pensou em Kyle, pensou naquele celeiro onde tudo aconteceu.

Pensou no peso do desejo, no peso das consequências, no peso do amor. “Cada cicatriz valeu”, ela respondeu, apertando-lhe a mão. “Porque existes?” E fechou os olhos pela última vez, um sorriso nos lábios. Hoje, mais de um século depois, não há registos oficiais de Catarina de Albuquerquim Melo. As famílias nobres apagaram o seu nome dos ficheiros.

A vergonha precisava de ser esquecida. Mas em algures no interior do Brasil existem descendentes de Miguel, homens e mulheres que transportam nos genes a história de uma cahá e de um escravo que desafiaram todas as regras. Eles não sabem os pormenores. As histórias se perderam, como tantas histórias se perdem.

Mas de vez em quando, quando um criança nasce com uma força invulgar, quando alguém levanta um peso que não deveria conseguir, quando um olhar carrega a mesma intensidade de quem viu o mundo e escolheu amá-lo mesmo assim, talvez ali esteja um eco. Um eco de Kyle que carregou o mundo aos ombros. Um eco de Catarina que ousou tocar aquele mundo com as próprias mãos.

Um eco do amor que nasceu entre a madeira, debaixo da chuva, dentro de um celeiro que já se transformou em pó. Mas o amor esse permanece, porque o amor pesa sempre mais que qualquer carga e vale sempre a pena carregar.