Se eu contar essa história, talvez vocês nunca mais vejam certas pessoas da mesma forma. Sabe quando você acredita tanto numa coisa que entrega sua vida inteira, sua família, seus sonhos, tudo só para descobrir que estava vivendo numa mentira? Uma mentira tão profunda que quando você tenta falar a verdade, te chamam de louca, de rebelde, de possuída pelo demônio.

Olá, meus queridos. Me chamo dona Margarida, mas podem me chamar de vovó Margô. Tenho 72 anos e nasci aqui em São Paulo em 1952. Hoje quero compartilhar com vocês uma história que guardei no fundo do meu coração por mais de 20 anos. uma história sobre fé, sobre descobertas dolorosas e sobre como às vezes as próprias pessoas que dizem falar em nome de Deus são as que mais se afastam dele.

Antes de começar, queria perguntar: “Onde vocês estão assistindo esse vídeo?” Deixem nos comentários aí embaixo. Adoro saber que minha voz está chegando em tantos cantinhos diferentes do Brasil. E se puderem, deixem aquele joinha e se subscrevam no canal. Isso ajuda muito esta velhinha aqui a continuar contando suas histórias.

A história que vou contar aconteceu quando eu tinha 35 anos. Era 1987 e eu era uma testemunha de Jeová. Achava que havia encontrado a verdade absoluta, que estava no povo escolhido de Deus. Mal sabia eu que por trás daquelas paredes do salão do reino se escondiam segredos que me fariam questionar tudo o que eu acreditava.

E o mais irônico, fui expulsa por fazer exatamente o que eles sempre pregaram, ler a Bíblia e buscar a verdade. Era 1972, quando duas senhoras bateram na porta da minha casa numa manhã de sábado. Eu tinha apenas 20 anos. Estava casada há dois anos com Joaquim, meu primeiro namorado, um homem bom que trabalhava numa metalúrgica aqui em São Paulo.

Morávamos numa casinha simples no Ipiranga, mas era nosso cantinho. Cheirava sempre a café passado na hora e ao sabonete Febo que eu adorava usar. Quando aquelas duas mulheres, uma mais velha e outra da minha idade, me perguntaram se eu não gostaria de conhecer a verdade sobre Deus, algo dentro de mim se interessou.

Eu sempre fui uma pessoa muito espiritual, meus queridos. Minha mãe me criou católica, mas eu sentia que faltava algo, sabe? como se houvesse perguntas que ninguém conseguia responder. Elas se chamavam irmã Carmen e Irmã Rosa. A irmã Carmen tinha uns 45 anos, cabelos grisalhos, sempre presos num coque perfeito.

Usava vestidos até o joelho e sapatos fechados mesmo no calor. A irmã Rosa era novinha como eu, recém-casada também, com um sorriso doce que me conquistou na hora. Elas falavam com tanta convicção, meus amores, explicavam a Bíblia de um jeito que fazia tanto sentido que eu pensava: “Como nunca ninguém me ensinou isso antes. Começamos os estudos bíblicos toda terça-feira às 2as da tarde.

Eu preparava um cafezinho, servia uns biscoitinhos caseiros que fazia e ficávamos ali na minha mesinha da sala estudando aqueles livrinhos coloridos que elas traziam. O Joaquim, no início, ficou meio desconfiado, mas depois começou a participar também. Ele era um homem simples, não falava muito, mas quando as irmãs explicavam sobre o paraíso na Terra, sobre como não haveria mais guerra, mais morte, mais dor, eu via os olhos dele brilharem.

Em seis meses, nós dois já estávamos frequentando o salão do reino. O salão ficava numa casa grande, adaptada na saúde, com aquele cheiro característico de piso encerado e livros novos. Tinha umas 60 cadeiras enfileiradas, um palco pequeno na frente, onde ficava um púlpito de madeira escura. As paredes eram brancas, decoradas apenas com alguns quadros da torre de vigia.

sempre impecável, sempre organizado, sempre em silêncio respeitoso. Foi lá que conhecia a família que mudaria minha vida, os Santos. O irmão Paulo Santos era ancião, um homem de uns 50 anos, alto, cabelos bem alinhados, sempre de terno escuro, mesmo no calor. A esposa dele, irmã Helena, era uma mulher elegante, falava baixinho, sorria sempre, tinha três filhos pequenos que eram um exemplo de comportamento.

Eles eram considerados uma família modelo na congregação. O irmão Paulo tinha uma autoridade natural, sabe? Quando ele falava durante as reuniões, todo mundo parava para escutar. Ele conhecia a Bíblia de cor e salteado, citava textos sem nem olhar, explicava profecias complexas com uma simplicidade que me impressionava.

Eu pensava: “Esse homem realmente tem o Espírito Santo de Deus. Nossa vida mudou completamente. Paramos de comemorar aniversários, Natal. Não havia mais festa junina. Carnaval era pecado. Deixamos de falar com parentes que não aceitaram a verdade. Eu perdi amigas de infância que me acharam fanática. Mas estava tudo bem, meus queridos, porque eu acreditava que estava no caminho certo.

A organização me ensinava que o mundo estava dominado por Satanás e que só as testemunhas de Jeová seriam salvas no Armagedom. Depois de um ano de estudo em 1973, eu me batizei.Lembro como se fosse ontem. Entrei naquela piscina improvisada no salão de assembleias. Irmão Paulo me batizou e quando saí da água, me senti renascida.

Tinha certeza absoluta de que agora pertencia ao povo de Deus. O Joaquim se batizou três meses depois. Nossa rotina era intensa. Reunião de terça-feira de noite, reunião de quinta-feira de noite, reunião de domingo de manhã. Sábado de manhã era para pregação de casa em casa. Eu chegava a passar 20 horas por semana em atividades da organização e amava cada minuto, meus amores.

Sentia que estava servindo a Jeová, que estava salvando vidas ao levar a verdade às pessoas. Em 1975, quando a organização disse que o Armagedon estava próximo, eu vendi meu pequeno negócio de costura para me dedicar integralmente à pregação. Afinal, para que juntar tesouros na terra se o fim estava tão próximo? Muitos irmãos fizeram a mesma coisa.

Paramos de planejar o futuro. Algumas famílias nem puseram os filhos na escola. Mas 1975 passou e nada aconteceu. A organização explicou que tinha havido um ajuste no entendimento. Alguns irmãos ficaram desanimados, alguns até saíram, mas eu mantive minha fé. Pensei: Deus tem seus tempos, não os nossos.

Foram anos lindos, não vou mentir para vocês. Eu me sentia amada, protegida, parte de uma família mundial. Nas assembleias de distrito, encontrava irmãos de todo lugar, todos unidos pela mesma fé, todos tratando uns aos outros com amor. Era emocionante cantar aqueles cânticos, ouvir os discursos que fortaleciam minha fé, ver os dramas bíblicos que nos ensinavam lições profundas.

Eu me tornei pioneira auxiliar, depois pioneira regular. Passava 90 horas por mês pregando de casa em casa. Dirigia estudos bíblicos, ajudava irmãs novas, participava da limpeza do salão do reino. Era respeitada na congregação, considerada um exemplo de dedicação. O irmão Paulo sempre me elogiava nas reuniões.

Dizia que eu era uma irmã exemplar. O Joaquim também progrediu, tornou-se servo ministerial, depois ancião. Estávamos no auge da nossa vida espiritual. Tínhamos perdido muito, família, amigos, oportunidades, mas ganhamos uma família espiritual que parecia compensar tudo. Mas vocês sabem como é, meus queridos. Às vezes as aparências enganam.

E foi justamente quando eu me sentia mais segura, na verdade que começaram a aparecer as primeiras rachaduras naquela perfeição toda. Era 1982, quando chegou na nossa congregação uma irmã chamada Conceição, uma mulher de uns 40 anos que havia se mudado de Minas Gerais para São Paulo. Ela era diferente das outras irmãs, fazia perguntas, perguntas que me incomodavam porque eu não sabia responder.

Durante os estudos de A Sentinela, ela levantava questões sobre coisas que nunca tinham me ocorrido. Porque só o 144 vão para o céu se Jesus disse que no reino de meu pai há muitas moradas. Ou por que a organização mudou tanto de entendimento sobre 1914 se era uma revelação de Deus? As perguntas dela me faziam pensar e isso me assustava.

Eu sempre fui ensinada a confiar na organização, a não questionar, a aceitar que a luz ficava mais brilhante quando havia mudanças nos ensinamentos. Mas as perguntas da irmã Conceição plantaram uma sementinha de dúvida no meu coração. O irmão Paulo notou logo que a irmã Conceição estava causando divisão. Começou a dar conselhos públicos sobre confiar na organização, sobre não questionar os arranjos de Jeová.

A irmã Conceição foi marcada como má associação e as irmãs foram orientadas a limitar o convívio com ela. Eu fiquei dividida. Por um lado, queria ser obediente à organização. Por outro, as perguntas da irmã Conceição faziam sentido. Comecei a prestar mais atenção nos estudos, a ler as referências bíblicas que ela citava e foi aí que comecei a notar pequenas inconsistências que antes passavam despercebidas.

Por exemplo, a organização ensinava que só ela tinha a interpretação correta da Bíblia, mas eu percebi que muitos textos bíblicos falavam direto ao coração sem precisar de interpretação nenhuma. Jesus disse coisas simples como: “Venham a mim todos os que estão cansados”. Por que isso precisava de interpretação da organização? Outro sinal estranho foi o que aconteceu com meu vizinho, o seu Antônio.

Ele era um homem bom, trabalhador, tratava da esposa e os filhos com carinho, ajudava quem precisava. Mas quando oferecia a ele um estudo bíblico, ele recusou gentilmente, disse que tinha sua fé e estava feliz assim. Segundo os ensinamentos, ele seria destruído no Armagedom junto com todos os iníquos. Mas como Deus poderia destruir uma pessoa tão boa só porque não se tornou testemunha de Jeová? Essas dúvidas foram crescendo aos poucos, como um fio que se puxa e vai desfazendo o tecido.

Mas eu as empurrava para o fundo da mente, me forçava a confiar na organização. Afinal, onde mais eu iria? Essa era a pergunta que me faziam sempre quesurgiam dúvidas. Onde mais você vai? Só nós temos a verdade. Em 1984 aconteceu algo que me marcou profundamente. Uma jovem da congregação, a irmã Sandra, de apenas 19 anos, precisou de uma transfusão de sangue após um acidente de carro.

Os pais dela, seguindo os ensinamentos da organização, proibiram o procedimento. A Sandra morreu. No funeral, o irmão Paulo falou sobre como ela havia sido fiel até a morte e ganhara a coroa da vida. Todos choravam e diziam que ela estava no paraíso. Mas eu fiquei pensando, será que Deus realmente queria que uma jovem de 19 anos morresse por não aceitar sangue? Na Bíblia, Jesus curou no sábado quebrando a lei judaica, e disse que o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado.

Será que o mesmo princípio não se aplicaria à questão do sangue? Essas perguntas me atormentavam, meus queridos. Eu orava, pedia a Jeová para tirar essas dúvidas do meu coração. Achava que era fraqueza minha, tentação de Satanás. Aumentei ainda mais minhas horas de pregação, participei de mais atividades, tentei me mergulhar tão fundo na rotina da organização que não sobrasse tempo para pensar.

Mas o destino, ou melhor, a providência divina, ia colocar no meu caminho algo que mudaria tudo para sempre. Em 1985, mudou-se para o nosso território uma família que acabara de chegar de Brasília, os Ferreira. O irmão João Ferreira era ancião, a esposa irmã Lúcia era pioneira e eles tinham uma filha adolescente, a Priscila. Pareciam uma família perfeita e logo se integraram à congregação.

O irmão João logo se tornou próximo do irmão Paulo. Eles passavam horas conversando depois das reuniões, faziam visitas pastorais juntos, pareciam grandes amigos. Eu pensava: “Que bênção ter mais um ancião maduro na congregação”. Mas comecei a notar coisas estranhas. O irmão João sempre pedia para fazer visitas pastorais sozinho com as irmãs jovens.

Dizia que tinha experiência especial para ajudar com problemas de juventude. A irmã Lúcia sempre concordava. dizia que o marido tinha um dom especial para aconselhar. Várias irmãs jovens começaram a ter reuniões especiais com o irmão João. Ele dizia que eram estudos bíblicos mais aprofundados, preparação para o ministério, coisas assim.

sempre aconteciam quando as famílias não estavam em casa, sempre em lugares reservados, a biblioteca do salão do reino, a sala nos fundos da casa dele. A primeira a me procurar foi a irmã Patrícia, uma jovem de 17 anos que eu conhecia desde criança. Ela chegou em casa chorando uma tarde, disse que precisava conversar comigo, mas que tinha medo.

Com muito custo, ela me contou que o irmão João estava fazendo coisas inapropriadas durante os estudos especiais. Eu gelei, meus amores. Não queria acreditar no que estava ouvindo. Um ancião, um servo de Jeová? Impossível. Mas a Patrícia estava destroçada, não estava inventando nada. Ela me contou detalhes que não vou repetir aqui, mas que me deixaram com o coração apertado e uma raiva que eu nunca tinha sentido na vida.

Disse para ela que precisávamos contar para os outros anciãos que isso não podia ficar assim, mas ela me agarrou pelo braço, desesperada. Vovó amargou, por favor, não conta. Ele disse que se eu contasse para alguém, iam me expulsar por calúnia contra um ancião. Disse que ninguém ia acreditar em mim e que eu ia perder minha família para sempre.

Ali eu comecei a entender o tamanho do problema. O irmão João não estava só abusando das meninas, ele estava usando a própria estrutura da organização para silenciá-las. E o pior, ele não era o único. Nos dias seguintes, outras jovens vieram me procurar, a Renata, a Cristiane, a Fernanda, todas com histórias similares, todas aterrorizadas com a ideia de falar, todas convencidas de que seriam elas as punidas se denunciassem.

Eu não conseguia mais dormir, meus queridos. Como isso era possível numa organização que se dizia pura, dirigida por Deus? Como homens que subiam no palco para dar discursos sobre moralidade podiam estar fazendo essas coisas horríveis com meninas inocentes? Foi quando percebi que tinha chegado a hora de agir. Não podia mais ficar calada.

não podia mais proteger a reputação da organização enquanto meninas inocentes estavam sendo abusadas. Decidi que ia falar com o irmão Paulo, contar tudo, exigir que algo fosse feito. E foi exatamente isso que fiz na terça-feira seguinte, depois da reunião. Pedi para falar com o irmão Paulo em particular.

Meu coração estava disparado, as mãos suando frio. Eu sabia que o que ia falar mudaria tudo, mas não tinha escolha. Nos sentamos na biblioteca do salão do reino, aquela salinha pequena nos fundos, cheia de publicações da torre de vigia. O irmão Paulo me olhou com aquele jeito paternal de sempre e perguntou: “O que está incomodando você, irmã Margarida?” Percebo que anda meio abatida ultimamente.

Respirei fundo e comecei a contar.Falei sobre as meninas que vieram me procurar, sobre o que o irmão João estava fazendo, sobre como elas estavam sofrendo em silêncio. A cada palavra que eu falava, via o rosto do irmão Paulo mudando. Primeiro surpresa, depois preocupação. Por fim, uma expressão que eu não conseguia decifrar.

Quando terminei, ficamos em silêncio por uns minutos que pareceram horas. Ele tamborilava os dedos na mesa, olhava para o chão, suspirava fundo. Finalmente falou: “Irmã Margarida, essas são acusações muito graves. Você tem certeza do que está me dizendo?” Confirmei que sim. Disse que as meninas estavam destroçadas, que precisávamos protegê-las.

Então ele me disse uma coisa que me chocou. Olha, irmã, o irmão João é um homem de Deus, um ancião exemplar. Às vezes as jovens podem interpretar mau gestos de carinho paternal. Talvez seja isso que aconteceu. Eu não acreditei no que estava ouvindo. Irmão Paulo, eu disse, não foi interpretação errada. Foram coisas específicas, detalhadas, que essas meninas nunca inventariam.

Mas ele balançou a cabeça. Irmã, você sabe que não podemos aceitar acusações contra um ancião sem duas ou três testemunhas. Está na Bíblia, em Timóteo. E além disso, precisamos proteger a reputação da organização. Foi quando entendi que ele não ia fazer nada. Pior, ele estava mais preocupado com a reputação da organização do que com meninas sendo abusadas.

Insisti, argumentei, quase implorei, mas ele foi irredutível. Deixe isso passar, irmã. Ore a Jeová. Confie na organização. Se houver algo errado, Jeová vai resolver no tempo dele. Saí daquela reunião arrasada. Como era possível que um homem que eu respeitava tanto, que considerava um exemplo de espiritualidade, pudesse ser tão insensível? Como podia preferir proteger um abusador a proteger as vítimas? Nos dias seguintes, fiz algo que nunca tinha feito antes.

Comecei a questionar ativamente os ensinamentos. Se a organização estava errada sobre isso, sobre o que mais estaria errada. Comecei a ler a Bíblia sem as publicações da Torre de Vigia, apenas a Bíblia pura. E foi aí que minha vida virou de cabeça para baixo, meus queridos. Lendo apenas a Bíblia, sem os filtros da organização, comecei a ver coisas que nunca tinha notado antes.

Jesus falava sobre amor, perdão, liberdade. Paulo escrevia sobre a graça de Deus, sobre como a salvação era um presente, não algo que se conquistava por obras. João dizia que Deus era amor, ponto final. Mas a organização ensinava algo diferente. Ensinava que só quem fazia parte dela seria salvo. Que a salvação dependia de horas de pregação, de participação em reuniões, de obediência total à organização.

Que questionar era pecado, que duvidar era falta de fé. Comecei a anotar essas diferenças num caderninho que escondia no fundo do guarda-roupa. Cada versículo que lia, sem o filtro da organização, parecia revelar uma nova verdade que tinha sido distorcida ou escondida. Por exemplo, Jesus disse: “Venham a mim todos os que estão cansados ​​e sobrecarregados.

” Não disse: “Venham à organização”. Paulo escreveu que pela graça sois salvos mediante a fé. E isto não vem de vós. É dom de Deus, não de obras. Mas a organização ensinava que a salvação dependia de obras, de serviços, de obediência. Quanto mais eu lia, mais óbvio ficava que muitos ensinamentos da organização não tinham base bíblica, ou pior, contradiziam diretamente o que a Bíblia ensinava.

Tentei compartilhar algumas dessas descobertas com o Joaquim, mas ele ficou alarmado. Margou, ele disse. Você está começando a falar como apóstata. Isso é perigoso. Você precisa confiar na organização, parar de questionar. Mas eu não conseguia parar. Era como se tivesse encontrado um tesouro escondido e não pudesse deixar de procurar mais.

A Bíblia estava me libertando de conceitos que me prendiam há anos. Comecei a notar outras coisas estranhas na congregação. O irmão Paulo tinha um carro do ano, usava ternos caros. A família dele viajava para lugares que nós, simples publicadores, nunca poderíamos pagar. Quando perguntei discretamente como ele conseguia isso com o salário que ganhava, me disseram que Jeová abençoava os fiéis.

Descobri que ele recebia doações especiais de irmãos agradecidos pelos conselhos espirituais. Descobri que algumas decisões dos anciãos eram influenciadas por quem doava mais para a congregação. A teocracia, que eu pensava que era dirigida por Deus, na verdade era dirigida por homens com interesses muito humanos.

E o irmão João continuava fazendo suas visitas especiais com as jovens. As meninas continuavam sofrendo em silêncio e eu me sentia cada vez mais sufocada por saber a verdade e não poder fazer nada. Foi quando tomei uma decisão que mudaria minha vida para sempre. Resolvi falar publicamente sobre o que estava descobrindo. Numa quinta-feira, durante o estudo de A Sentinela, levantei a mão para comentar.

O artigo falava sobre obediência à organização. Quando me deram a palavra, disse: “Irmãos, vocês já se perguntaram por Jesus disse para seus discípulos: “Chamem ninguém de mestre na terra, pois um só é o vosso mestre, o Cristo? Por que então chamamos a organização de mãe e obedecemos a ela como se fosse infalível?” O silêncio foi ensurdecedor.

O irmão Paulo me olhou com uma expressão de puro choque. Outros irmãos sussurravam entre si. Eu continuei. E por que Jesus disse que conheceremos a árvore pelos frutos? Mas quando vemos frutos ruins na organização, somos orientados a ignorar e confiar mesmo assim? Foi quando o irmão Paulo interrompeu. Irmã Margarida, isso não é apropriado para este momento.

Conversamos depois da reunião, mas eu já tinha ido longe demais para parar. Irmão Paulo, Jesus disse que a verdade nos libertaria. Se estamos na verdade, por que temos medo de questões? Porque temos medo da própria Bíblia? A reunião terminou num clima tenso. Vários irmãos saíram sem falar comigo. Outros me olhavam com pena, como se eu estivesse doente.

O irmão Paulo pediu para eu e o Joaquim ficarmos. O que aconteceu depois foi uma das conversas mais difíceis da minha vida. Irmã Margarida, ele disse, você está claramente sob influência demoníaca. Essas perguntas que você está fazendo são típicas de apóstatas. Você precisa parar imediatamente ou vai ser desassociada? Joaquim implorou para eu pedir desculpas, para eu prometer que não faria mais perguntas, mas algo dentro de mim tinha mudado para sempre.

Eu tinha provado da verdadeira liberdade que vem de conhecer a Deus diretamente através de sua palavra, sem intermediários humanos. Irmão Paulo, eu disse, me responda uma coisa. Se a organização tem a verdade, por tem medo das minhas perguntas? Se ela está certa, não deveria ser fácil me mostrar onde estou errada, usando só a Bíblia?” Ele não respondeu, apenas disse que eu tinha uma semana para voltar ao juízo, ou enfrentaria uma comissão judicativa.

Saí dali sabendo que minha vida como testemunha de Jeová estava chegando ao fim. Mas pela primeira vez em anos, me senti verdadeiramente livre. A semana seguinte foi a mais longa da minha vida. O Joaquim mal falava comigo. Dizia que eu estava destruindo nossa família, nossa reputação, nossa vida espiritual.

Os irmãos me evitavam na rua, sussurravam quando me viam passar. Alguns poucos, incluindo a irmã Conceição, que tinha plantado as primeiras sementes de dúvida, me procuraram discretamente para dizer que também tinham questionamentos. Mas foi a visita da Patrícia, aquela jovem que primeiro me contou sobre os abusos do irmão João, que me deu a força final que eu precisava.

Ela chegou em casa numa tarde, chorando desesperadamente. Vovó Margou, ela disse entre soluços. Ele fez de novo. O irmão João me chamou para uma conversa especial sobre meu progresso espiritual e ele fez de novo. E quando tentei resistir, ele disse que Jeová ia me castigar por desrespeitar um ancião. Naquela hora, meus queridos, algo dentro de mim explodiu.

Não era mais sobre doutrina, sobre interpretações bíblicas, sobre estruturas organizacionais, era sobre uma menina inocente, sendo abusada em nome de Deus por um homem que deveria protegê-la. Patrícia, eu disse, segurando as mãos dela. Isso vai parar hoje. Não importa o que aconteça comigo. Naquela noite escrevi uma carta de 15 páginas.

Documentei tudo, os abusos do irmão João, a omissão do irmão Paulo, as inconsistências doutrinárias que eu tinha descoberto, as contradições entre os ensinamentos da organização e a Bíblia. Fiz cópias para enviar ao corpo governante em Nova York, para o departamento de serviço, para outras congregações da região.

Mas antes de enviar, decidi fazer uma última tentativa. No sábado de manhã, dia da pregação, em vez de ir bater nas portas, fui direto para o salão do reino. Sabia que os anciãos se reuniam antes do serviço de campo. Entrei na sala onde eles estavam. Irmão Paulo, irmão João, irmão Carlos, o terceiro ancião. E coloquei minha carta sobre a mesa.

Irmãos, eu disse, vocês têm duas opções. Ou lidam com essas questões honestamente, protegem essas meninas e investigam seriamente esses abusos, ou eu envio cópias desta carta para todo lugar onde possa chegar. O irmão João ficou pálido. O irmão Paulo ficou vermelho de raiva. O irmão Carlos apenas balançou a cabeça tristemente.

Irmã Margarida! Disse o irmão Paulo com a voz tremendo. Você sabe que chantagem é um pecado grave? Você está ameaçando servos de Jeová. Isso é apostasia pura. Chantagem? Eu respondi. Estou pedindo justiça para meninas inocentes que estão sendo abusadas enquanto vocês fazem vista grossa. Foi quando o irmão João finalmente falou com uma voz que eu nunca tinha ouvido antes, baixa, ameaçadora.

Irmã Margarida, você está brincando com fogo. Você sabe que calúnia contra anciãos é um pecado quepode custar sua salvação eterna? Calúnia? Eu disse, e minha voz saiu mais alta do que pretendia. Tenho cinco meninas dispostas a testemunhar sobre o que você fez com elas. Isso não é calúnia, é a verdade. O irmão Carlos, que até então ficara quieto, suspirou profundamente e disse: “Margarida, mesmo que algumas dessas acusações tenham fundamento, você precisa entender que não podemos destruir a confiança da congregação na organização por causa de incidentes

isolados.” Incidentes isolados? Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Estamos falando de abuso sexual de menores. Como vocês conseguem dormir à noite sabendo que isso está acontecendo debaixo do nariz de vocês? Foi quando o irmão Paulo bateu o punho na mesa. Chega.

Você está claramente possuída por demônios, irmã Margarida. Não há mais conversa. Você será julgada por uma comissão judicativa amanhã à noite e eu garanto que será desassociada por apostasia. Peguei minha carta da mesa e olhei para aqueles três homens que eu havia respeitado e admirado por tantos anos. Naquele momento, vi eles pelo que realmente eram, não servos de Deus, mas homens corruptos, protegendo seus próprios interesses.

“Vocês sabem o que é apostasia?”, Eu perguntei calmamente: “É se afastar de Deus?” Mas eu me aproximei mais de Deus do que nunca ao ler palavra sem os filtros de vocês. Vocês é que se afastaram dele ao proteger abusadores e silenciar vítimas. Saí daquela sala sabendo que não havia volta.

À tarde enviei as cartas pelos correios. À noite contei tudo para o Joaquim. Ele ouviu em silêncio e quando terminei disse apenas: “Margô, você destruiu nossa vida. Vamos perder tudo. Nossa família espiritual, nossos amigos, nossa reputação. Por quê? Por que você não conseguiu simplesmente confiar na organização?” Por quê? Eu respondi, quando você vê uma criança sendo machucada e tem o poder de ajudar, você ajuda, mesmo que custe tudo.

No domingo seguinte, foi minha comissão judicativa. Três anciãos de congregações vizinhas para evitar conflito de interesses. Eles já tinham decidido meu destino antes mesmo de eu entrar na sala. fizeram perguntas sobre minha atitude rebelde, sobre minhas dúvidas doutrinárias, sobre minha falta de submissão à organização.

Quando tentei falar sobre os abusos, me interromperam, dizendo que aquilo não era assunto para discussão naquela reunião. “Irmã Margarida, disse o ancião presidente, você está arrependida de questionar a organização de Jeová? Está disposta a parar de espalhar dúvidas e voltar a ser uma testemunha leal? Olhei para aqueles três homens e senti uma paz que não esperava.

Irmãos, eu não posso me arrepender de ler a Bíblia. Não posso me arrepender de questionar quando vejo injustiça. E não posso me arrepender de proteger crianças inocentes. Se isso é apostasia, então sim, sou apóstata. A decisão foi unânime, desassociação por apostasia. Na quinta-feira seguinte, o anúncio foi feito na reunião.

Margarida Santos não é mais uma das testemunhas de Jeová. Pronto, 15 anos da minha vida apagados numa frase. Mas vocês sabem o que aconteceu quando saí do salão do reino pela última vez como membro? Cinco meninas me esperavam do lado de fora. A Patrícia, a Renata, a Cristiane, a Fernanda e uma quinta que eu nem sabia que havia sido abusada.

Todas chorando, todas me agradecendo por ter tido coragem de falar. Vovó amargou, disse a Patrícia. A senhora salvou a gente. Depois que souberam que a senhora ia contar tudo, o irmão João parou. Ele até mudou de congregação. Naquele momento, meus queridos, eu soube que tinha feito a coisa certa. custou minha família espiritual, meu casamento, meus amigos, minha reputação, mas salvou cinco meninas de continuarem sendo abusadas.

Os primeiros dias após a desassociação foram os mais difíceis da minha vida. Vocês que nunca foram testemunhas de Jeová, talvez não entendam completamente, mas quando você é expulso, é como se morresse para toda sua família e amigos que continuam na organização. O Joaquim tentou aguentar por algumas semanas, mas a pressão foi demais.

Os anciãos o chamavam para conversas de encorajamento, onde deixavam claro que sua espiritualidade estava em risco por continuar casado comigo. Ele recebia visitas casuais de irmãos que perguntavam se ele não estava pensando em se separar para proteger sua posição na congregação. Um mês após minha expulsão, ele chegou em casa e disse: “Margô, eu te amo, mas não posso mais.

Ou você volta para a organização, pede perdão e para com essa rebeldia, ou nossa vida juntos acaba aqui. Eu sabia que esse momento chegaria, mas ainda assim doeu como uma facada no peito. 15 anos de casamento, uma vida construída juntos, sonhos compartilhados, tudo destruído por uma organização que dizia representar o Deus do amor.

Joaquim, eu disse, eu não posso fingir que não sei o que sei. Não posso voltara compactuar com abusos, com mentiras, com a manipulação que presenciei. Se você escolher a organização em vez de mim, eu vou entender, mas não vou mudar. Ele fez as malas naquela mesma noite. 22 anos de vida juntos terminaram numa conversa de 10 minutos.

Perdi muito mais que o marido. Perdi minha irmã, que era testemunha, e passou a me tratar como se eu fosse invisível. Perdi amigas de décadas que não podiam mais falar comigo. Perdi minha identidade social, minha rede de apoio, minha estrutura de vida. Financeiramente foi devastador. Como pioneira, eu não tinha carreira, não tinha qualificações profissionais.

Aos 35 anos, me vi sozinha, sem dinheiro, sem perspectiva, morando numa casinha que mal conseguia pagar, mas o pior eram as noites. Depois de passar 15 anos com uma rotina intensa de reuniões, pregação, estudos, de repente me vi com um vazio enorme. Não sabia o que fazer com meu tempo, não sabia como me relacionar com pessoas do mundo, não sabia nem como era viver sem a estrutura da organização.

Houve momentos, não vou mentir para vocês, em que pensei em voltar. Não porque acreditasse na organização, mas porque a solidão era sufocante. A dúvida me atacava. E se eu estiver errada? E se realmente for apostasia questionar? E se eu perder minha salvação eterna por causa do meu orgulho? Foram nesses momentos mais difíceis que a Bíblia se tornou meu maior conforto.

Não a Bíblia interpretada pela organização, mas a palavra pura de Deus falando diretamente ao meu coração. Versículos como: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça ganharam significado novo. Ou se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Jesus estava falando exatamente sobre situações como a minha.

Comecei a frequentar uma pequena igreja evangélica no meu bairro, não porque queria me converter, mas porque precisava de comunhão cristã, de pessoas que também amavam a Deus. A diferença foi impressionante, meus queridos. Naquela igreja, as pessoas faziam perguntas, discutiam versículos, expressavam dúvidas sem medo de serem expulsas.

O pastor encorajava o questionamento, dizia que Deus não tinha medo das nossas perguntas. Que contraste com o que eu havia vivido. Aos poucos, fui reconstruindo minha vida. Voltei a estudar, fiz um curso de auxiliar de enfermagem. Comecei a trabalhar num hospital, cuidando de pessoas, sentindo que finalmente estava servindo a Deus de uma forma genuína, não batendo em portas para converter, mas aliviando o sofrimento humano.

As cinco meninas que eu havia protegido mantiveram contato comigo secretamente. Elas não podiam falar comigo publicamente, mas mandavam cartas, recados através de pessoas do mundo. Contavam como suas vidas estavam melhorando, como estavam se curando dos traumas. A Patrícia, anos depois também saiu da organização.

Ela me procurou chorando, me agradeceu por ter plantado a semente de coragem que ela precisava para questionar. Hoje ela é uma mulher forte, independente, mãe de três filhos lindos que ela está criando livres de manipulação religiosa. Antes de continuar essa história, meus queridos, queria pedir para vocês deixarem nos comentários de onde estão assistindo esse vídeo.

Me dá um quentinho no coração saber que minha voz está chegando longe, que não estou falando sozinha. E se essa história está tocando vocês, deixem seu like para me incentivar a continuar. partilhando essas memórias. Às vezes é difícil reviver esses momentos, mas sei que pode ajudar outras pessoas que passaram por situações similares.

Seis meses após minha expulsão, recebi uma carta anônima que me deixou em choque. Era de uma testemunha ativa que dizia ter acesso a informações internas da organização. carta confirmava que minhas cartas haviam chegado ao corpo governante em Nova York e que uma investigação discreta havia sido aberta. O resultado? O irmão João foi transferido para uma congregação em outro estado, oficialmente por necessidades de circuito.

Nenhuma punição real, nenhum reconhecimento público do que ele havia feito, apenas um remanejamento para que pudesse continuar fazendo as mesmas coisas. longe dos olhos de quem conhecia sua verdadeira natureza. O irmão Paulo continuou como ancião, mas a carta dizia que ele havia recebido uma repreensão privada por falta de tato ao lidar com questões sensíveis, traduzindo, uma bronca particular que não afetou em nada a sua posição ou reputação.

Era exatamente o que eu esperava, mas ainda assim doeu confirmar que a organização realmente colocava sua imagem acima da proteção de crianças inocentes. Mas vocês sabem o que essa carta também dizia? que outras pessoas haviam começado a questionar, que minhas cartas haviam circulado discretamente entre testemunhas de várias congregações, que muita gente estava acordando para a verdade sobre a organização.

Naquele momento, entendi que minha expulsão não havia sido em vão.As sementes estavam plantadas, a verdade estava sendo espalhada e Deus estava usando até meu sofrimento para libertar outras pessoas. Os meses seguintes foram uma montanha russa emocional, meus queridos. Alguns dias eu acordava cheia de energia, sentindo que havia encontrado uma liberdade preciosa.

Outros dias, a depressão me batia com força e eu mal conseguia sair da cama. Foi durante esse período que conheci a dona Ivone, uma vizinha de 60 anos que se tornou minha maior amiga e mentora. Ela era evangélica há décadas, mas nunca tentou me converter ou me pressionar. Apenas ofereceu ombro amigo e ouvidos dispostos a escutar.

“Filha, ela me disse numa tarde em que eu estava chorando na cozinha dela. Você passou por algo que eu chamo de morte espiritual. Toda sua identidade, seus relacionamentos, sua visão de mundo foram destruídos de uma vez. É normal se sentir perdida. Mas igual a toda a morte, depois vem o renascimento. E ela estava certa.

Aos poucos comecei a descobrir quem eu era fora da organização. Descobri que gostava de música, coisa que era restrita na organização, que adorava ler livros de filosofia e psicologia, que tinha talento para cozinhar pratos diferentes. Comecei a fazer amizades verdadeiras, não baseadas em crenças religiosas compartilhadas, mas em afinidade genuína.

pessoas que me aceitavam com minhas dúvidas, minhas feridas, meus defeitos. Que diferença das amizades condicionais que tinha na organização. Meu trabalho no hospital me trouxe uma perspectiva completamente nova sobre a vida. Cuidando de pessoas doentes, presenciando nascimentos e mortes, conversando com famílias em momentos de crise, aprendi sobre compaixão genuína, não aquela compaixão artificial que demonstrávamos nas testemunhas apenas para dar bom testemunho.

Lembro de um caso que me marcou profundamente. Era um senhor de 80 anos, católico fervoroso, que estava internado com câncer terminal. pelos ensinamentos das testemunhas, ele seria destruído no Armagedom por não aceitar a verdade. Mas convivendo com ele por semanas, viu um homem de fé genuína, bondoso, que tratava todos com gentileza e amor.

Uma noite, quando ele estava muito mal, me pediu para orar com ele. Naquele momento, orando com um mundano católico, sentia a presença de Deus de uma forma mais real do que jamais havia sentido em qualquer reunião do salão do reino. Foi ali que entendi completamente a mentira da organização sobre ter o monopólio de Deus.

Deus estava em toda parte, trabalhando no coração de pessoas de todas as religiões e até mesmo daqueles que não seguiam religião nenhuma. Comecei a estudar a história das Testemunhas de Jeová de forma independente. Li livros que a organização proibia, pesquisei documentos históricos, conversei com ex-testemunhas que haviam saído há mais tempo.

O que descobri me chocou ainda mais. A organização havia feito profecias falsas repetidas vezes. Além de 1975, houve outras datas profetizadas para o Armagedom cumpriram. Havia mudanças doutrinárias constantes, coisas que eram verdade num ano se tornavam luz antiga no ano seguinte descobri casos de abuso sexual sistematicamente encobertos, não apenas na minha congregação, mas ao redor do mundo.

Descobri que a organização possuía ações em empresas de tabaco e armamentos, as mesmas coisas que condenava publicamente. Cada descoberta era dolorosa porque confirmava que eu havia desperdiçado 15 anos da minha vida numa mentira, mas também era libertadora, porque confirmava que minha decisão de sair havia sido correta. Dois anos após minha expulsão, aconteceu algo que mudou tudo para mim.

Recebi uma ligação de uma mulher que se identificou como jornalista investigativa. Ela estava escrevendo uma matéria sobre abusos sexuais nas testemunhas de Jeová e tinha conseguido meu contato através de uma rede de ex-testemunhas. “Dona Margarida,” ela disse, “Ouvi sua história através de outras pessoas que você ajudou.

Gostaria de contribuir para uma matéria que pode ajudar outras vítimas?” Aceitei participar. mas com uma condição. Queria que as cinco meninas que eu havia protegido também fossem ouvidas, se quisessem. Três delas aceitaram participar anonimamente. A matéria foi publicada num jornal de grande circulação e causou um impacto enorme.

Pela primeira vez, o assunto dos abusos nas testemunhas de Jeová foi discutido publicamente no Brasil. Recebi centenas de cartas de pessoas que haviam passado por situações similares, mães que descobriram que filhas foram abusadas, ex-testemunhas que haviam sido silenciadas, pessoas que estavam questionando, mas tinham medo de falar. Foi quando percebi que Deus estava me chamando para um ministério diferente.

Não bater em portas para converter pessoas a uma organização, mas ajudar vítimas de abuso religioso a encontrar cura e liberdade. Comecei a participar de grupos de apoio, depois a coordenar alguns deles. Minha casa se tornou um refúgio paraex-testemunhas que haviam sido expulsas e rejeitadas por suas famílias.

Algumas ficavam comigo por semanas ou meses enquanto reconstruíam suas vidas. Era um trabalho difícil, muitas vezes desgastante lidar com pessoas profundamente machucadas, ajudá-las a reconstruir identidade e relacionamentos, apoiá-las através de depressão e crises existenciais. Mas também era o trabalho mais gratificante que já havia feito.

Cada pessoa que conseguia se recuperar, cada família que se reunia depois de anos de separação por causa da organização, cada jovem que encontrava coragem para sair antes de desperdiçar décadas numa mentira, tudo isso dava significado ao meu sofrimento. Aprendi que minha experiência dolorosa não havia sido inútil.

Deus havia permitido que eu passasse por aquilo não para me punir, mas para me preparar para ajudar outras pessoas em situações similares. Comecei também a estudar psicologia, fiz cursos de aconselhamento, me especializei em trauma religioso, queria estar preparada para ajudar da melhor forma possível. O mais interessante é que minha fé em Deus, longe de diminuir, após deixar a organização, se fortaleceu enormemente.

Pela primeira vez, eu tinha um relacionamento pessoal com Deus, não mediado por uma organização humana. Podia orar diretamente a ele, ler sua palavra sem filtros, sentir sua presença sem precisar de reuniões ou rituais. 5 anos após minha expulsão, minha vida havia mudado completamente. Tinha me tornado enfermeira, coordenava três grupos de apoio para ex-testemunhas de Jeová.

havia ajudado mais de 200 pessoas a reconstruírem suas vidas após deixar a organização. O trabalho no hospital me trouxe uma realização profissional que nunca havia sentido. Cuidar de pessoas em momentos vulneráveis, oferecer conforto em meio ao sofrimento, ser instrumento de cura. Isso sim era servir a Deus de forma genuína.

Meus grupos de apoio cresceram tanto que precisei alugar espaços maiores. Pessoas vinham de outros estados para participar dos encontros. Criamos uma rede informal de comunicação entre ex-testemunhas que se espalhou por todo o país. Foi através dessa rede que conheci o Antônio, um homem de 45 anos que havia sido ancião por 20 anos antes de descobrir as mesmas verdades que eu descobri.

Ele havia perdido esposa, filhos, casa, tudo, mas mantinha uma fé inabalável em Deus. Nos aproximamos primeiro como amigos, unidos pela experiência comum de rejeição e renascimento. Ele me ajudou a sistematizar melhor o trabalho de apoio. Criamos materiais educativos, desenvolvemos técnicas de aconselhamento específicas para trauma religioso.

Dois anos depois, nos casamos numa cerimônia simples, cercados por nossa nova família, não de sangue ou de religião, mas de coração. testemunhas que haviam se tornado nossos irmãos verdadeiros, unidos não por doutrina, mas por amor e experiência compartilhada. Com o Antônio, montamos uma organização não governamental focada em ajudar vítimas de abuso religioso, não apenas ex-testemunhas, mas pessoas de qualquer religião que tivessem sofrido manipulação, abuso ou controle.

Nosso trabalho ganhou reconhecimento. Universidades nos chamavam para palestras. Outros países nos convidavam para consultorias. Advogados nos procuravam para testemunhar em casos de abuso religioso. Mas o momento mais emocionante foi quando a Patrícia, aquela jovem que primeiro me contou sobre os abusos, trouxe sua filha de 10 anos para conhecer a vovó que salvou a mamãe.

Olhando para aquela criança inocente, saudável, livre dos traumas que poderiam ter destruído sua mãe, soube que todo o sofrimento havia valido a pena. Muitas das outras meninas que ajudei também reconstruíram suas vidas. Algumas saíram da organização, outras conseguiram ficar, mas se protegeram melhor.

Todas me mantiveram informadas sobre suas vidas, seus casamentos, seus filhos. O irmão João, descobri anos depois, continuou com seu padrão de comportamento. Foi transferido mais duas vezes por incidentes similares. Finalmente, quando uma mãe corajosa o denunciou à polícia, foi preso e condenado. Mas quantas outras crianças sofreram porque a organização escolheu protegê-lo em vez de proteger as vítimas? O irmão Paulo eventualmente perdeu sua posição de ancião por questões financeiras.

aparentemente estava desviando dinheiro das doações. Irônico que tenha sido punido por roubar dinheiro, mas não por permitir abuso de crianças. Quanto ao Joaquim, meu ex-marido, ele se casou novamente dentro da organização. Soube que às vezes perguntava sobre mim para conhecidos mútuos, mas nunca tentou contato direto.

A organização havia construído uma parede entre nós que parecia intransponível. Minha irmã, depois de 10 anos sem falar comigo, finalmente me procurou quando sua própria filha adolescente começou a questionar a organização. Foi um reencontro difícil, cheio de lágrimas e explicações, mas que resultounuma reconciliação preciosa.

Hoje, aos 72 anos, posso dizer que minha vida tem propósito verdadeiro. Não prego mais de casa em casa, tentando converter pessoas a uma religião, mas abro minha casa para acolher feridos e desorientados. Não distribuo mais literaturas de uma organização humana, mas compartilho a palavra pura de Deus com quem quero ouvir.

Minha fé é mais forte do que nunca, mas é uma fé livre pessoal, não mediada por homens que se dizem representantes de Deus na terra. Oro diretamente ao Pai, leio a Bíblia com meu próprio entendimento. Sinto o Espírito Santo trabalhando em mim, sem precisar de confirmação organizacional. Construí uma nova família mais verdadeira que a anterior.

Pessoas que me amam não por concordar com minha religião, mas por quem eu sou. Pessoas que estarão ao meu lado, não importa que dúvidas eu tenha ou que perguntas eu faça. A organização me tirou 15 anos da minha vida, meu primeiro casamento, relacionamentos familiares importantes. Mas Deus usou até essa perda para me dar algo muito maior, a liberdade de amá-lo verdadeiramente e de servir ao próximo, sem esperar recompensas organizacionais.

Em 2010, recebi uma ligação que me deixou emocionada. Era de uma mulher jovem chamada Marina, que disse: “Dona Margarida, a senhora não me conhece, mas minha mãe foi uma das meninas que a senhora protegeu nos anos 80. Ela sempre fala da senhora como a mulher que salvou a vida dela.” Marina me contou que sua mãe, a Cristiane, havia saído da organização aos 25 anos, se formado em psicologia e dedicado sua carreira a ajudar vítimas de abuso sexual.

Ela sempre disse que foi inspirada pela coragem da senhora. Marina continuou. E agora eu quero seguir o mesmo caminho. Casos como esse se multiplicaram ao longo dos anos. Filhos de mulheres que eu havia ajudado, agora adultos, me procuravam para agradecer e para continuar o trabalho de proteção e cura. Era como se tivéssemos criado uma linhagem de libertadores, pessoas dedicadas a quebrar ciclos de abuso e manipulação.

Em 2015, a organização das testemunhas de Jeová enfrentou uma série de escândalos públicos relacionados ao encobrimento de abusos sexuais. Casos que vinham à tona em vários países, processos judiciais, indenizações milionárias. Eu fui procurada por jornalistas do mundo inteiro para comentar sobre o que havia denunciado décadas antes.

Dona Margarida, me disse um repórter da BBC, a senhora foi uma das primeiras vozes a alertar sobre esses problemas. Como se sente vendo que suas denúncias se confirmaram em escala global? Respondi com honestidade. Não sinto satisfação nenhuma em ter estado certa sobre algo tão terrível. Sinto tristeza por todas as crianças que poderiam ter sido protegidas se tivessem me escutado na época, mas também sinto esperança, porque finalmente a verdade está vindo à tona.

Naquela época já estava com quase 65 anos, mais longe de me aposentar. O trabalho havia se expandido tanto que criamos uma fundação oficial com sede própria, equipe de psicólogos, advogados especializados em casos de abuso religioso. Desenvolvemos protocolos de atendimento específicos para diferentes tipos de trauma religioso.

não só ex-testemunhas, mas pessoas que haviam sofrido em igrejas neopentecostais autoritárias, comunidades católicas conservadoras extremas, grupos evangélicos fundamentalistas. O que descobrimos é que os padrões de controle e abuso eram similares, independente da denominação: isolamento da família e amigos externos, controle financeiro, punição por questionamentos, uso da culpa e do medo como ferramentas de manipulação, proteção de líderes abusivos em nome da reputação da igreja.

Criamos manuais de identificação de sinais de alerta, cartilhas para familiares de vítimas, programas de reinserção social para pessoas que deixaram grupos religiosos controladores. Tudo baseado em décadas de experiência prática e estudo acadêmico. Em 2018, fui convidada para falar numa conferência internacional sobre liberdade religiosa na ONU, em Genebra.

Nunca imaginei, meus queridos, que uma mulher simples de São Paulo, que foi expulsa de sua religião por ler a Bíblia, estaria um dia falando para diplomatas do mundo inteiro sobre a importância de proteger crianças do abuso religioso. Na minha fala, contei minha história de forma resumida e terminei com uma reflexão. A liberdade religiosa não pode ser usada como escudo para proteger abusadores.

O direito de praticar sua fé termina onde começa o direito de uma criança de estar segura. Nenhuma doutrina, por mais sagrada que seja considerada, justifica o sofrimento de inocentes. A repercussão foi imensa. Recebi convites para falar em universidades, seminários, conferências médicas. Minha história virou caso de estudo em cursos de psicologia, sociologia da religião, direitos humanos.

Mas o que mais me orgulhava não eram os reconhecimentos acadêmicos ouinstitucionais. Era saber que a cada mês dezenas de pessoas encontravam coragem para deixar situações abusivas inspiradas em histórias como a minha. Recebia cartas como esta, dona Margarida, assisti seu vídeo no YouTube e pela primeira vez entendi que não era normal minha igreja proibir que eu falasse com minha família.

Consegui sair e hoje estou reconstruindo minha vida. Obrigada por ter aberto esse caminho. Ou esta. Vovó Margou. Sou filha de ex-testemunhas que saíram depois de lerem sobre sua história. Hoje tenho 25 anos, sou psicóloga e trabalho com vítimas de trauma religioso. Quero que saiba que sua coragem salvou não apenas as meninas da sua época, mas gerações futuras.

A tecnologia foi uma grande aliada nessa missão. Criamos um site com recursos gratuitos, grupos de apoio online, webinários semanais. Durante a pandemia de 2020, quando muitas pessoas ficaram isoladas com famílias religiosas controladoras, nossos grupos virtuais se tornaram linha de vida para centenas de vítimas.

Uma das histórias que mais me marcou foi a de uma jovem de 19 anos chamada Beatriz. Ela era testemunha de Jeová de terceira geração, avós, pais, toda a família na organização. Começou a questionar quando presenciou os anciãos em cobrirem um caso de violência doméstica na congregação. Vovó Marg, ela me disse durante uma videochamada.

Li sua história e entendi que não estou louca. que é normal questionar quando vemos injustiça, mas estou com muito medo. Se eu sair, vou perder toda a minha família, meus amigos, meu emprego na empresa de um irmão. Como a senhora teve coragem? Expliquei para ela o que aprendi ao longo dos anos. Filha, coragem não é não ter medo.

Coragem é fazer o que é certo, mesmo com medo. E lembre-se, você não perde uma família verdadeira. Você descobre quem realmente te ama incondicionalmente. Beatriz levou dois anos para tomar a decisão, mas finalmente saiu. Foi difícil, como sempre é. perdeu contato com os pais, irmãos, alguns amigos. Mas hoje, três anos depois, ela está formada em direito, especializada em direitos humanos e já ajudou dezenas de outras pessoas em situações similares.

Dona Margarida, ela me disse recentemente, hoje entendo que não perdi uma família. Ganhei uma família muito maior. Tenho amigos verdadeiros, um namorado que me ama por quem eu sou e, principalmente, tenho paz de consciência. São essas histórias que me dão energia para continuar, mesmo aos 72 anos. Cada vida transformada, cada corrente quebrada, cada criança protegida justifica todo o sofrimento que passei.

Em 2022, nossa fundação completou 20 anos de existência. Fizemos uma celebração modesta apenas com as pessoas que faziam parte da nossa família expandida. ex-testemunhas, ex-membros de outras religiões controladoras, familiares que haviam se reconciliado, profissionais que trabalhavam conosco.

Antônio fez um discurso emocionado. Quando conhecia a Margarida, há mais de 30 anos, éramos dois náufragos tentando reconstruir nossas vidas depois de perder tudo. Hoje, olhando para essa sala cheia de pessoas livres, felizes, realizadas, entendo que Deus transforma até nossos piores momentos em bênçãos para outros. Ele estava certo.

O que começou como uma tragédia pessoal, minha expulsão das testemunhas de Jeová se transformou numa missão que impactou milhares de vidas e, o mais importante, abriu caminho para que outras pessoas não precisassem passar sozinhas pelo que eu passei. Durante a celebração, fizemos um momento de silêncio pelas vítimas que não conseguimos salvar, pelas crianças que sofreram enquanto lutávamos para mudar sistemas corruptos, pelas pessoas que não tiveram coragem ou oportunidade de buscar ajuda.

Mas também celebramos as vitórias, leis aprovadas para proteger menores em instituições religiosas, mudanças em políticas internas de várias denominações, protocolos de denúncia obrigatória implementados, centenas de abusadores responsabilizados judicialmente. O trabalho está longe de terminar. Ainda há muito abuso religioso acontecendo, muitas crianças sendo machucadas, muitas famílias sendo manipuladas.

Mas hoje existe uma rede de proteção que não existia quando eu era jovem. Hoje as vítimas têm para onde correr, tem quem as escute, tem apoio para recomeçar. E tudo começou com uma mulher de 35 anos que se recusou a ficar calada quando viu meninas sendo abusadas. Uma mulher que escolheu ler a Bíblia com seus próprios olhos em vez de aceitar interpretações impostas.

Uma mulher que preferiu perder tudo a compactuar com injustiça. Hoje, quando olho no espelho, vejo rugas, cabelos brancos, marcas do tempo. Mas também vejo uma mulher em paz consigo mesma. Uma mulher que pode dormir tranquila, sabendo que fez a coisa certa, mesmo quando custou caro. Minha história não é apenas sobre sair de uma religião, é sobre encontrar coragem para questionar autoridades, sobre proteger os vulneráveis, mesmoquando ninguém te apoia, sobre manter a fé em Deus, mesmo quando perdemos a fé nas instituições humanas. É sobre

descobrir que a verdade realmente liberta não apenas quem a descobre, mas todos aqueles que são tocados por essa liberdade. Hoje, olhando para trás, eu não mudaria nada do que aconteceu, meus queridos. Cada lágrima derramada, cada noite em claro, cada momento de dúvida e desespero foi necessário para me transformar na pessoa que sou hoje.

Se eu pudesse voltar no tempo e dar conselhos para aquela Margarida de 35 anos que estava descobrindo as mentiras da organização, eu diria: “Filha, vai ser muito mais difícil do que você imagina, mas também muito mais recompensador. Deus está com você. mesmo quando parece que ele se afastou. Aprendi que questionar não é falta de fé, é sinal de fé madura.

Deus não tem medo das nossas perguntas. Pelo contrário, ele nos deu mente para pensar, coração para sentir, discernimento para distinguir entre certo e errado. Aprendi que nenhuma organização humana, por mais que se diga representante de Deus, está acima de questionamento. Homens são falíveis. Organizações são falíveis. Só Deus é infalível.

E ele se revela através de sua palavra, não através de literaturas humanas. Aprendi que o amor verdadeiro não é condicional. Se alguém deixa de te amar porque você faz perguntas ou porque suas crenças mudaram, então nunca foi amor verdadeiro. Era apenas conveniência, conformidade, convívio social.

Aprendi que proteger crianças inocentes é sempre mais importante que proteger reputação institucional. Qualquer organização que coloca sua imagem acima da segurança de crianças perdeu qualquer direito de se chamar cristã. Aprendi que a verdade não precisa de proteção através de silenciamento de críticos.

Se algo é verdadeiro, resiste ao questionamento. Se algo que se diz verdadeiro tem medo de perguntas, então provavelmente não é verdadeiro. Aprendi que Deus pode usar até nossos piores momentos para propósitos maiores. Minha expulsão, que na época apareceu o fim do mundo, se tornou o início de um ministério mais genuíno do que qualquer coisa que fiz como testemunha de Jeová.

Para vocês que podem estar passando por situações similares, seja em que religião for, deixo alguns conselhos que aprendi com sangue e lágrimas. Primeiro, confiem na própria consciência. Se algo parece errado, mesmo que autoridades religiosas digam que está certo, investiguem. Deus nos deu discernimento para usar.

Segundo, não tenham medo de perguntas. Perguntas são o começo da sabedoria. Qualquer líder religioso que desencoraja questionamento está escondendo algo. Terceiro, lembrem que Deus é maior que qualquer organização. Ele não mora em prédios ou instituições. Mora no coração de quem o busca sinceramente.

Quarto, se descobrirem que estão numa religião manipuladora, lembrem que sair é possível, vai ser difícil, vai custar caro, mas a liberdade vale qualquer preço. Quinto, cuidem especialmente das crianças. Elas não podem se defender sozinhas. Se virem abuso, falem. Se virem manipulação, denunciem. Melhor perder posição religiosa que ver uma criança sendo machucada.

Aprendi também que perdão é possível, mas perdão não significa esquecer ou permitir que abusos continuem. Perdoei o irmão João, o irmão Paulo, até mesmo a organização que me manipulou por anos. Mas perdoar não significa que vou parar de alertar outras pessoas sobre os perigos que enfrentei. O perdão me libertou do ódio que estava consumindo meu coração, mas não me libertou da responsabilidade de proteger outras pessoas das mesmas mentiras e abusos.

Hoje vivo uma vida plena, com propósito verdadeiro, relacionamentos genuínos, fé sólida em Deus, não organização que afirma representá-lo, mas nele diretamente. Leio sua palavra com liberdade, oro com confiança, sirvo ao próximo com alegria. A verdade realmente liberta, meus queridos. Mas às vezes é preciso perder tudo que achávamos importante para descobrir o que realmente importa.

Uma das lições mais valiosas que aprendi é que nossa identidade não pode depender de aprovação institucional. Por anos, eu defini meu valor próprio pelo que os anciãos pensavam de mim, pelas horas que pregava, pela posição que ocupava na organização. Quando perdi tudo isso, pensei que não era ninguém, mas descobri que meu valor vem de ser filha amada de Deus, não de títulos ou posições.

Descobri que minha identidade está em quem ele diz que eu sou, não que organizações humanas dizem. Essa descoberta me deu uma confiança que nunca havia sentido antes. Não preciso mais da aprovação de líderes religiosos para me sentir valiosa. Não preciso mais de títulos organizacionais para ter propósito.

Meu valor é intrínseco, dado por Deus, inabalável. Outra lição importante foi sobre a diferença entre religião e relacionamento com Deus.Por anos, confundi as duas coisas. achava que servir a Deus significava servir a organização, que amar a Deus significava amar a estrutura religiosa. Hoje entendo que Deus quer relacionamento pessoal, íntimo, sem intermediários.

Ele quer conversar comigo diretamente através da oração, me ensinar diretamente através de sua palavra, me guiar diretamente através de seu espírito. A religião pode ser uma ferramenta útil para comunhão e crescimento espiritual, mas nunca deve se tornar um fim em si mesma. Quando a religião se torna mais importante que o relacionamento com Deus, ela deixa de servir a ele e passa a servir a si mesma.

Aprendi também sobre a importância da comunidade genuína. Quando saí da organização, pensei que tinha perdido minha família espiritual para sempre. E, de fato, perdi, mas ganhei algo muito melhor. Descobri que comunidade verdadeira não é baseada em concordância doutrinária, mas em amor incondicional. Não é mantida através de medo de punição, mas através de desejo genuíno de estar juntos.

não exige conformidade absoluta, mas celebra a diversidade dentro da unidade. A família espiritual que construí após deixar a organização é mais forte, mais profunda, mais real que qualquer coisa que experimentei antes. São pessoas que me amam com meus defeitos, que me apoiam em momentos de dúvida, que celebram meu crescimento sem tentar me controlar.

Uma das perguntas que mais me fazem é: “Dona Margarida, a senhora não tem medo de estar errada? E se a organização das testemunhas realmente for a verdade de Deus?” Minha resposta é sempre a mesma. Se Deus realmente dirigisse uma organização que protege abusadores e punish quem os denuncia, então esse não seria um Deus que eu gostaria de servir.

Mas conheço o Deus da Bíblia. Ele é justiça, amor, verdade. E esse Deus jamais pediria para ficarmos calados diante do sofrimento de inocentes. Além disso, ao longo desses anos, vi tantas evidências de que a organização não é dirigida por Deus. Profecias falsas, mudanças doutrinárias constantes, escândalos financeiros, encobertamento sistemático de abusos.

Uma organização verdadeiramente dirigida pelo Espírito Santo não apresentaria esse padrão de erros e corrupção. Mas mesmo que eu estivesse errada sobre a organização e tenho certeza de que não estou, ainda assim não me arrependeria da decisão que tomei. Prefiro estar errada protegendo crianças a estar certa sendo cúmplice de abuso.

Finalmente aprendi que nossa história pessoal, por mais dolorosa que seja, pode se tornar fonte de cura para outros. Durante anos, tentei esquecer o trauma de ser expulsa, a dor de perder família e amigos, a luta para reconstruir minha vida. Hoje entendo que essas experiências, por mais difíceis que tenham sido, me qualificaram de forma única para ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo.

Não posso mudar meu passado, mas posso usar minha história para transformar o futuro de outras pessoas. Cada cicatriz se tornou uma credencial. Cada lágrima derramada se tornou fonte de compaixão para enxugar lágrimas alheias. Cada noite de insônia se tornou capacidade de vigiar por quem está em crise.

Isso não significa que romantizo o sofrimento ou que acredito que Deus causa dor propositalmente. Significa que acredito na capacidade divina de transformar até as piores situações em instrumentos de bem. Minha vida hoje é um testemunho vivo de que é possível recomeçar mesmo quando perdemos tudo, de que é possível encontrar propósito genuíno, mesmo após décadas em ilusões, de que é possível ter fé sólida em Deus, mesmo após perder a fé em instituições religiosas.

Para qualquer pessoa que esteja lendo ouvindo essa história e se identificando com alguma parte dela, quero que saiba, você não está sozinho. Há uma comunidade inteira de pessoas que entende sua dor, que celebra sua coragem, que está pronta para apoiar seus primeiros passos em direção à liberdade. A jornada não será fácil, mas será verdadeira.

E no final você descobrirá que a verdade, mesmo sendo dolorosa inicialmente, sempre vale a pena. Se vocês chegaram até aqui, obrigada de coração por me acompanharem nessa jornada dolorosa, mas necessária. Sei que essa história pode ser difícil de ouvir, especialmente para quem ainda está dentro de organizações religiosas controladoras.

Não contei essa história para atacar pessoas sinceras que ainda são testemunhas de Jeová. Muitas delas são pessoas boas, dedicadas, que realmente amam a Deus. Contei para alertar sobre os perigos do controle religioso e para oferecer esperança para quem está questionando. Também não contei para desencorajar ninguém de ter fé.

Pelo contrário, minha experiência me mostrou que a fé verdadeira, aquela que nasce do relacionamento pessoal com Deus, é muito mais forte e libertadora que qualquer religião organizada. Se gostaram da minha história, por favor, deixem seulike e se inscrevam no canal. Mostrem que minha história não foi contada em vão. E não se esqueçam de entrar no nosso grupo do WhatsApp.

O link está na descrição do vídeo. Lá mandamos todos os dias histórias reais de outras pessoas que, como eu, descobriram a liberdade após deixar organizações controladoras. No grupo, vocês encontrarão apoio, compreensão e uma comunidade de pessoas que entendem o que significa questionar, deixar tudo para trás, recomeçar a vida.

São histórias que vão inspirar vocês, dar força nos dias difíceis. mostrar que é possível ser feliz fora de estruturas religiosas opressivas. Quero saber de vocês nos comentários, alguém já viveu algo parecido? Conhecem pessoas que passaram por situações similares ou tem perguntas sobre como superar trauma religioso? Leio todos os comentários e respondo o máximo que posso.

E para vocês que estão assistindo de onde estão, pode ser do Amazonas, de Santa Catarina, da Paraíba, pode até ser fora do Brasil, deixem nos comentários de onde estão vendo essa história. Cada comentário aquece o coração desta senhora e me mostra que nossa mensagem de esperança está chegando longe. Para quem está passando por situações similares neste momento, quero deixar algumas palavras de encorajamento.

Vocês são mais fortes do que imaginam. A coragem que precisam já está dentro de vocês. Às vezes, só precisa ser despertada. Não tenham medo de fazer perguntas. Não tenham medo de seguir sua consciência. Não tenham medo de proteger crianças, mesmo que custem caro, e principalmente não tenham medo de buscar a verdade onde quer que ela os leve.

Lembrem-se, a verdade pode doer no início, mas sempre liberta no final. Não tenham medo de questionar, de buscar, de pensar por si mesmos. Deus nos deu mente para usar, coração para sentir, consciência para discernir. E para quem está sofrendo agora, seja por abuso religioso, por rejeição familiar, por perda de identidade após deixar uma religião, saibam que vocês não estão sozinhos.

Há uma comunidade inteira de pessoas que entende sua dor e está pronta para ajudar. A vida depois do controle religioso pode ser incerta, mas é genuína. Pode ser solitária no início, mas é livre. Pode ser questionadora, mas é honesta. E, principalmente, pode ser muito mais rica e significativa do que vocês imaginam.

Não deixem que o medo os paralise. Não deixem que a chantagem emocional os impeça de seguir sua consciência. Não deixem que ameaças de perdas os façam compactuar com injustiça. Lembrem-se da história da Patrícia, daquelas cinco meninas que protegi, das centenas de pessoas que ajudei ao longo dos anos. Todas elas encontraram felicidade e propósito após deixar situações abusivas.

Vocês também podem encontrar. Que Deus abençoe cada um de vocês em sua própria jornada de busca pela verdade. E lembrem-se, a verdade não pertence a nenhuma organização humana. Ela está disponível para todos que a buscam sinceramente. Nossa fundação continua ativa, ajudando pessoas que saem de religiões controladoras. Temos psicólogos especializados, advogados que entendem casos de abuso religioso, grupos de apoio presenciais e online.

Se precisarem de ajuda, não hesitem em procurar. Também mantemos um acervo de recursos educativos gratuitos, cartilhas sobre sinais de controle religioso, guias para familiares de vítimas, protocolos de segurança para quem quer sair de organizações perigosas. Tudo disponível no nosso site. Nos vemos no próximo vídeo, onde vou contar mais histórias de superação e liberdade.

Vou falar sobre outras pessoas corajosas que escolheram a verdade em vez da conveniência que protegeram inocentes mesmo pagando um preço alto. Até lá, fiquem com Deus e mantenham seus corações abertos para a verdade, onde quer que ela os leve. Lembrem-se, vocês são amados incondicionalmente pelo criador do universo.

Não precisam da aprovação de nenhuma organização humana para ter valor. Um beijo no coração de cada um de vocês e obrigada por fazerem parte da minha família virtual. Juntos continuaremos lutando pela proteção dos vulneráveis ​​e pela liberdade de todos os que buscam a verdade. Que a paz de Cristo que excede todo entendimento, guarde os corações e mentes de vocês e que a verdade continue os libertando hoje e sempre.

Fiquem na paz, meus queridos. Até o próximo encontro. M.