O TÚMULO DA FAMÍLIA FONSECA… DESDE 1974, ALGO ALI NÃO DESCANSA! | História de Terror Real

 

Meu nome é Roberto Silva, tenho 52 anos e trabalho como coveiro há quase 30 anos já. Eu trabalho no cemitério municipal de Maringá, aqui no interior do Paraná. É um cemitério [música] grande, antigo, tem túmulo de gente que morreu lá em 1920, sabe? Eu já vi de tudo nesses anos. Enterro todo tipo de gente, rico, pobre, jovem, velho, criança também.

Essa parte é a pior, mas faz parte do trabalho. A gente acostuma com a morte, vira rotina. Todo dia eu passo por centenas de túmulos, faço manutenção, cavo, enterra. É o meu trabalho. Mas tem um túmulo, um túmulo que até hoje não sei, é diferente. Todo funcionário antigo daqui sabe qual é. A gente não fala muito sobre ele, mas todo mundo sabe e todo mundo evita.

É o túmulo da família Fonseca. Fica lá na área Q, lote 13. É um jazigo grande, de mármore cinza, meio desgastado pelo tempo. Tem o nome da família gravado em cima, família Fonseca. E embaixo, sete nomes, sete pessoas da mesma família, todas enterradas ali, todas mortas no mesmo mês. Setembro de 1974. Quando eu entrei aqui em 1997, eu tinha 24 anos.

Era novo, cheio de energia, não tinha medo de nada. No meu primeiro dia, quem me mostrou o cemitério foi o seu Mário. Ele era o cooveiro mais antigo na época. tinha quase 70 anos, mas ainda trabalhava firme. O seu Mário era um cara sério, daqueles homem quieto, trabalhador, que não fica de conversa mole, não bebia, não fumava, ia na igreja todo domingo.

Ele me levou para conhecer o cemitério inteiro, mostrou onde ficava cada área, me ensinou o básico do trabalho. Aí a gente passou pela área Q. E quando chegamos perto do túmulo da família Fonseca, o seu Mário parou. Ele olhou pro túmulo, depois olhou para mim e falou uma coisa que eu nunca esqueci. Roberto, você pode trabalhar em qualquer lugar desse cemitério, mas esse túmulo aqui, se você puder evitar, evita.

E se não puder, nunca fica sozinho. Eu ri na hora. Achei que era brincadeira de veterano com novato, sabe? Mas o seu Mário não riu de volta. Eu tô falando sério, garoto. Eu estava aqui em 1974. Eu ajudei a enterrar essa família e tem coisas que eu vi que nenhum homem devia ver. A forma que ele falou gelou minha espinha. Não era brincadeira.

Eu perguntei o que tinha acontecido e o seu Mário. Ele suspirou fundo, acendeu um cigarro. Era a única vez que eu vi ele fumar. E contou. Primeiro vieram as três crianças. Três caixões pequenos, irmãos. A menina mais velha tinha 12 anos, o do meio tinha nove e o caçula, 7 anos. A causa oficial foi intoxicação alimentar, mas o seu Mário disse que na época teve gente que duvidou.

 

 

Os legistas coxavam entre eles. Um deles tinha levantado a hipótese de veneno indetectável, algo que ele nunca tinha visto antes. Não era intoxicação alimentar, tinha algo de não natural, algo orquestrado. As crianças foram as primeiras vítimas de uma tragédia que começou na mente de alguém. Três dias depois, a avó da família, ataque [música] cardíaco, de repente, sem aviso.

Uma semana depois, a mãe encontraram ela na banheira afogada. Disseram que foi acidente. Dois dias depois, o tio caiu da escada, quebrou o pescoço e, por último, o pai Augusto Fonseca. Ele se enforcou. Sete pessoas, uma família inteira. Tudo em menos de um mês, todos enterrados no mesmo jazigo. O seu Mário participou de todos os sete enterros.

Ele era novo na época, tinha só 23 anos, estava no emprego há poucos meses. Ele me contou que no enterro das crianças ele chorou, não conseguiu segurar. Ver aqueles três caixõezinhos pequenos sendo enterrados juntos. Ele disse que até hoje lembra, mas o enterro que marcou ele mesmo foi o do pai, o Augusto tinha pouca gente no enterro.

A família tinha acabado. Só foram alguns vizinhos curiosos. O padre da paróquia se recusou a ir, mandou um padre substituto e mesmo esse padre ficou pouco tempo. Benzeu rápido e foi embora. Quando foram lacrar o jazigo, depois de colocar o caixão do Augusto lá dentro, aconteceu uma coisa. O seu Mário me olhou fundo nos olhos quando contou isso.

Roberto, eu e mais cinco homens estávamos ali. Seis homens, todos nós ouvimos. Ouvimos vozes vindas de dentro do túmulo. Vozes de criança. Não era só choro. Era um choro molhado, arrastado, como se as cordas vocais estivessem presas em algo viscoso. E a risada era curta e seca, como se o ar estivesse sendo forçado para fora de um peito sem vida. e uma voz de homem rindo.

Eu perguntei se podia ser eco, barulho de fora. Ele balançou a cabeça. A gente tinha acabado de lacrar, acabado. E o barulho vinha de dentro. Todo mundo ouviu. Um dos coveiros largou a ferramenta e saiu correndo. O padre também ouviu e nunca mais voltou. O seu Mário apagou o cigarro no chão. Desde aquele dia, eu nunca mais cheguei perto daquele túmulo sozinho.

40 e poucos anos que eu trabalho aqui e eu evito aquele lugar. Eu fiquei pensando nisso por dias, mas achei que era coisa de gente antiga, sabe? Superstição. Até que anos depois, em 1999, eu tive minha primeira experiência. Eu estava cortando a grama perto do túmulo. Era meio da manhã, sol quente, dia normal.

Aí eu ouvi vozes de criança, baixinho, como se tivessem conversando entre elas, risadinhas, sussurros. Eu parei na hora, olhei em volta. Não tinha ninguém, nenhuma criança, nenhum visitante. O cemitério estava vazio naquela área, mas eu continuava ouvindo. Fui chegando mais perto do túmulo e as vozes ficavam mais claras. Quando encostei perto da porta de mármore, senti uma pressão estranha no peito.

Não era falta de ar, era como se mãos geladas estivessem esmagando minhas costelas de dentro para fora. E então as vozes pararam. Silêncio total. Eu olhei pro chão na frente do túmulo e vi a grama estava queimada. Um círculo perfeito de grama queimada, como se alguém tivesse jogado fogo ali. Mas não tinha cheiro de fumaça, não tinha cinza, não tinha nada, só grama morta em círculo.

Eu saí dali na hora, fui procurar o seu Mário e contei. Ele só balançou a cabeça e falou: “Seja bem-vindo ao clube, Roberto. Desde aquele dia, eu sei que tem algo diferente naquele túmulo. Não sei o que é. Não sei se é sobrenatural, se é coisa da minha cabeça, se tem explicação, mas eu sei que eu senti e nos próximos anos ia sentir muito mais, porque o túmulo da família Fonseca não deixa a gente esquecer dele nunca.

Depois daquela primeira experiência em 1999, eu fiquei meio assustado, não vou mentir, mas continuei trabalhando. Evitava aquela área quando podia, quando não podia. Ia rápido, fazia o serviço e saía. Com o tempo, fui conhecendo outros funcionários. E descobri uma coisa: Eu não era o único que tinha vivido coisa estranha naquele túmulo.

Longe disso, todo funcionário antigo tinha uma história para contar. E cada história era pior que a outra. Em 2005, eu conheci a dona Aparecida. Ela tinha se aposentado uns anos antes, em 1998. Trabalhou aqui como zeladora de 1982 até 1998, 16 anos limpando o cemitério. A dona Aparecida era uma mulher forte, sabe? Daquelas que criou quatro filhos sozinha, trabalhando duro.

Não tinha medo de nada. Mas quando eu fui visitar ela na casa dela em 2005 e toquei no assunto do túmulo da família Fonseca, o rosto dela mudou. Ela ficou pálida. Roberto, eu não gosto de falar sobre aquilo, mas eu insisti. Disse que queria entender que eu também tinha sentido coisas estranhas. Ela suspirou, serviu um café e contou.

Setembro de 1989, 15 anos depois da tragédia da família Fonseca, a dona Aparecida estava fazendo a limpeza do cemitério no final da tarde. Já estava escurecendo, mas ela queria terminar o serviço. Quando passou pelo túmulo dos Fonseca, viu uma coisa que não podia ser. A porta de mármore estava entreaberta. Impossível.

Aquele túmulo estava lacrado com cimento há anos. Ela pensou em vandalismo, se aproximou para ver melhor e então ouviu vozes de criança cantando. Vinha de dentro do túmulo. Era uma cantiga de roda antiga, ela me contou, daquelas que a gente cantava quando era criança. Mas as vozes eram estranhas e coavam como se viessem de longe.

A dona Aparecida tentou olhar dentro do túmulo pela fresta. Só quando se aproximou, ela desmaiou. Quando ela acordou, estava no hospital. Os guardas do cemitério encontraram ela caída do lado de fora do túmulo. Ela acha que ficou uns 20 minutos desacordada. Os médicos perguntaram o que tinha acontecido. Ela chorava e não conseguia falar direito.

Levou dias para ela contar para alguém o que viu. Eu vi figuras sentadas dentro do túmulo. Pareciam pessoas, mas não eram. Eram sombras com formato de gente e estavam todas olhando para mim. E uma delas levantou a mão como se estivesse me chamando, me convidando para entrar. A dona Aparecida nunca mais foi a mesma depois daquilo.

Pediu aposentadoria antecipada, desenvolveu pavor de cemitério. Até de ir em enterro de parente, ela não ia mais. Quando terminou de contar, ela me olhou e disse: “Roberto, se você sentir qualquer coisa estranha naquele lugar, sai. Não fica, não tenta entender, só sai.” Mas não foi só a dona Aparecida, tem o Josué também.

O Josué trabalhou aqui de 1991 até 2003. Era coveiro como eu, cara durão, ex-militar, não acreditava em nada de sobrenatural. Até 1995, naquele ano, o Josué estava cavando uma cova perto do túmulo Fonseca. Final de tarde começando a escurecer. Ele estava sozinho. Os outros coveiros tinham ido embora mais cedo. De repente, ele sentiu um peso no peito.

A pressão no peito não era falta de ar, era como se mãos geladas estivessem esmagando suas costelas. A náusea vinha de dentro, como se a terra do cemitério estivesse tentando forçá-lo a vomitar a própria vida. O frio não vinha do tempo, vinha do mármore do túmulo, subindo pela sua pele como gelo líquido. Ele tentou continuar cavando, mas a pressão aumentava.

Começou a suar frio, tremer, a visão ficou embaçada e então veio a náusea. Ele largou a pá e caiu de joelhos. Começou a vomitar. Vomitou muito. O corpo dele esfriou de repente, tremores descontrolados. E aí ele desmaiou. Quando Josué acordou, ele estava dentro da cova que tinha cavado dentro, deitado no fundo. Ele não lembrava de ter caído, não lembrava de ter descido, nada.

Só acordou lá embaixo, olhando pro céu que já estava escuro. Ele saiu rastejando da cova, apavorado, foi direto pro posto de saúde. Ficou três dias com febre alta. Os médicos fizeram exame de tudo. Não encontraram nada, nenhuma infecção, nenhum vírus, nada. Mas ele tinha marcas roxas no pescoço e no peito. Os médicos disseram que podia ser dos vômitos, da queda.

O Josué nunca mais trabalhou sozinho. E quando ele me contou essa história em 1999, ele terminou assim: “Roberto, eu não sei o que tem naquele túmulo, mas tem. Eu senti na pele e quase morri. Eu ouvi essas histórias todas e pensava: “Será que é sugestão? Será que a gente fica com medo porque conhece a história?” E aí imagina coisas até 2007.

Aí aconteceu comigo de novo. Eu tinha 34 anos, já estava há 10 anos no emprego, achava que já conhecia bem o lugar. Me mandaram fazer manutenção nas grades do túmulo Fonseca. As grades de ferro estavam enferrujadas, precisavam de reparo. Era meio-dia, sol quente, eu estava sozinho ali, mas o cemitério estava cheio.

Tinha enterro acontecendo em outra área. Dava para ouvir as pessoas, o padre falando. Eu encostei a mão na grade de ferro para ver o estrago e no momento que toquei o metal, senti uma tontura súbita, forte. A visão ficou turva. Tudo começou a girar. Eu tentei segurar na grade, mas minhas pernas falharam e então, por alguns segundos, eu não estava mais ali.

Não sei explicar direito. Foi como um sonho, mas eu tava acordado. Eu vi uma mesa, uma mesa de jantar antiga, de madeira escura. Tinha pessoas sentadas, vultos. Não dava para ver o rosto, só as formas. Os vultos estavam sentados. Mas o que me apavorou foi que um deles, o vulto de uma criança mais perto, estava com a cabeça virada ao contrário, me observando fixamente.

E a voz, a voz estava gritando meu nome, distorcido, como se soubesse quem eu era. E eles estavam jantando, mas tudo estava em silêncio. Ninguém se mexia direito. Eu ouvi choro, choro de criança, longe, ecoando e uma voz de homem falando algo que eu não entendi. Tudo escuro, pesado, uma sensação horrível de desespero, de medo.

Quando eu voltei, eu estava deitado no chão a 20 m do túmulo. Eu tinha me movido, andado, não lembro. Fiquei deitado ali, desorientado por uns minutos. Não sabia onde eu tava, não sabia que horas eram. Um colega me achou e perguntou se eu tava bem. Eu disse que tinha passado mal, que era o sol, mas não era o sol.

Fiquei com a cabeça ruim o resto do dia, dor de cabeça, tontura, como se tivesse levado uma pancada. E aquelas imagens ficaram na minha cabeça por dias, por semanas. Até hoje às vezes eu lembro. e sinto aquele aperto no peito de novo. Depois disso, eu comecei a prestar mais atenção e percebi, não era só comigo, não era só com os antigos, tinha mais gente, gente nova no emprego, visitantes, todos relatando coisas estranhas naquela área, sons que não deveriam existir, sensações de mal-estar, fotos que saem erradas, sempre no mesmo lugar, sempre perto do

túmulo da família Fonseca. E eu comecei a me perguntar o que realmente aconteceu com aquela família em 1974, porque eles não descansam e por aquele túmulo ainda afeta as pessoas tantos anos depois. Eu ia descobrir a resposta, mas de um jeito que eu nunca imaginei. Em novembro de 2023 ia acontecer comigo a experiência mais aterrorizante da minha vida.

E dessa vez eu ia ficar cara a cara com a verdade sobre a família Fonseca. 15 de novembro de 2023. Eu tinha 50 anos, já estava há 26 anos trabalhando aqui. Achava que já tinha visto tudo, que já tinha passado por tudo que aquele túmulo podia fazer. Eu tava errado. Naquele dia, a administração do cemitério mandou fazer uma inspeção completa no túmulo da família Fonseca.

O jaigo ia completar 50 anos em 2024. Queriam verificar a estrutura, ver se precisava de reforma. Ninguém quis fazer o serviço. Ofereceram até um extra pagamento. Mesmo assim, ninguém quis. Eu precisava do dinheiro. Contas para pagar, sabe como é? Aceitei. Meus colegas me olharam com aquela cara, tipo, você vai se arrepender.

Mas eu fui. Cheguei cedo, 6 da manhã. Sol ainda nascendo. A área Q estava, silenciosa demais. Quando cheguei perto do túmulo, a primeira coisa que vi deixou gelado. Tinha desenhos na porta de mármore, desenhos de criança feitos com algo preto. Parecia carvão ou sei lá o quê. Desenho simples, bonequinhos de palito, uma casa, uma árvore e no centro sete figuras de mãos dadas.

Eu cheguei mais perto. Os desenhos tinham sido feitos recentemente, dava para ver. Não tinha pó, não tinha sujeira em cima. Mas quem fez? Quando eu tinha passado por ali no dia anterior, não tinha nada. Tentei limpar com água, o negócio não saía, esfregava nada. Parecia que tinha grudado no mármore. Desisti. Comecei o trabalho de inspeção, mas tinha uma coisa.

Eu me sentia observado, aquela sensação chata de ter alguém te olhando. Mas quando você vira, não tem ninguém o tempo todo. Aquela sensação lá pelas 9 da manhã, eu ouvi vozes, vozes de criança, baixinhas, abafadas, como se viessem de dentro de alguma coisa fechada. Eu parei o que estava fazendo. Prestei atenção. Não dava para entender o que diziam, mas eram vozes infantis, duas, três vozes, não sei.

Parecia que estavam brincando, conversando. Olhei em volta. Nada, ninguém. O cemitério estava vazio naquela hora. Eu me aproximei da porta do túmulo. As vozes ficaram um pouco mais claras. Encostei a orelha no mármore e as vozes pararam. Silêncio total, aquele silêncio pesado, incômodo. Eu fiquei ali parado, orelha na porta esperando e então ouvi bem baixinho, quase um sussurro.

Oi! Eu dei um pulo para trás, meu coração disparou. Olhei pro túmulo. Nada, só aquela porta de mármore cinza com os desenhos de carvão. Eu devia ter ido embora. devia, mas sei lá, eu precisava terminar o serviço. Foi aí que começou a ficar pior. Do nada, veio uma náuseia forte. Meu estômago revirou. Comecei a suar frio.

As pernas ficaram fracas. Tentei me segurar na grade do túmulo, mas a tontura era muito forte. Caí de joelhos e aí comecei a vomitar. Vomitei tudo que tinha no estômago e continuei tendo ânsia. Meu corpo inteiro tremia. A temperatura despencou. Frio, muito frio. Eu tava no sol do meio-dia, mas estava com frio, tremendo, os dentes batendo e então as imagens vieram.

Não foram visões claras, sabe? Era tudo confuso, fragmentado, como quando você tá dormindo e tendo um pesadelo, mas você tá meio acordado. Eu vi flashes, uma mesa de jantar, pratos, comida, rostos borrados, sem detalhes, só formas, choro, muito choro. Uma voz gritando, desespero, escuridão, tudo misturado, confuso, rápido.

E aquela sensação de medo, de desespero, de algo muito muito errado, eu desmaiei não sei por quanto tempo. Quando acordei, o sol já estava mais baixo. Devia ser umas 3, 4 da tarde. Eu estava deitado no chão a 10 m do túmulo. Meu corpo estava gelado, encharcado de suor, tremendo. Tentei levantar, mas as pernas não respondiam direito.

Fiquei ali sentado no chão tentando entender o que tinha acontecido. Saí dali como pude. Fui direto para casa. Fiquei cinco dias de atestado, febre alta. Os médicos fizeram exame de tudo. Sangue, urina, raio X. Não acharam nada, nenhuma infecção, nenhuma doença. Mas eu tava doente, muito doente. Perdi 6 kg naquela semana. Não conseguia comer, não conseguia dormir e aquelas imagens ficaram na minha cabeça, grudadas.

Quando voltei ao trabalho, eu tava diferente, assustado, perturbado. Comecei a fazer uma coisa que nunca tinha feito antes. Comecei a pesquisar, fui em biblioteca, procurei jornais antigos de 1974, conversei com gente velha do bairro onde a família Fonseca morava. Descobri coisas, coisas que nunca tinham sido faladas abertamente.

Augusto Fonseca, ele não era uma pessoa normal. Nos anos 70, ele fazia parte de um grupo, um grupo espiritualista, mas não era aqueles grupos comuns de centro espírita. Era diferente, mais fechado, mais estranho. Descobri que o grupo acreditava que a morte não era o fim, eram rituais de ascensão. Augusto não queria matar a família.

Ele acreditava que podia uni-los a um ser superior, mas precisava que o ato fosse completo e o caixão lacrado com a família completa. O seu ato final, o enforcamento, foi a assinatura final do que ele considerava ser o ritual. Era o toque de mestre para lacrar tudo. Os vizinhos contavam que nas semanas antes das mortes ouviam barulhos estranhos da casa dos Fonseca, cânticos, gritos.

no meio da madrugada e Augusto andava falando coisas esquisitas sobre unir a família para sempre, sobre passar para outro plano juntos. Quando as crianças começaram a morrer, alguns vizinhos desconfiaram, mas naquela época, em 1974, era mais difícil investigar essas coisas. E a família Fonseca tinha nome, tinha dinheiro.

A polícia encerrou o caso rápido, tudo arquivado como mortes acidentais e suicídio. Mas eu descobri que teve gente que suspeitou, que acreditava que Augusto tinha feito aquilo de propósito, matado a família inteira e depois se matado. Por quê? Por causa do ritual, por causa daquela crença doentia. Mas uma coisa eu entendi, seja lá o que Augusto fez, deu errado.

O pacto não se completou, algo falhou, porque aquela família não descansou, não até hoje. E eu eu continuo trabalhando aqui, continuo passando por aquele túmulo, mas agora eu sei que tem algo lá, algo que não foi embora, algo que talvez nunca vá. Depois do que aconteceu comigo em 2023, a história começou a se espalhar. Não sei como essas coisas vazam, né? Alguém comenta com alguém, essa pessoa posta na internet e pronto.

De repente começou a vir gente de fora, curiosos, gente que quer sentir alguma coisa, que quer ter uma experiência. E sabe o que eu percebi nesses últimos anos? Nem todo mundo sente. Tem gente que chega aqui e vai direto no túmulo da família Fonseca e não sente nada, nada mesmo. Fica lá, tira foto, conversa, ri, normal. E tem gente que mal chega perto e já passa mal. É estranho, muito estranho.

Teve uma moça ano passado, 2024. Ela veio com um grupo de amigos, eram uns cinco, seis jovens fazendo aqueles vídeos paraa internet, sabe, de lugares assombrados. O grupo todo ficou lá filmando, brincando, ninguém sentiu nada. Mas a moça, a moça não ficou nem 5 minutos. Ela começou a chorar do nada, sem motivo aparente.

Chorava e chorava, soluçando, como se tivesse visto algo horrível. Os amigos ficaram sem entender, perguntavam o que era. Ela só conseguia dizer: “Eu ouvi, ouvi eles me chamando. Teve que ir embora. Saiu quase correndo. Crise de pânico. Os amigos dela não ouviram nada, não sentiram nada. Teve um fotógrafo também, veio aqui para fotografar túmulos antigos pro trabalho dele.

Cara profissional, equipamento caro, essas coisas. Ele tirou foto de tudo aqui no cemitério. Centenas de fotos, todas normais. Mas quando chegou no túmulo dos Fonseca, as fotos saíam pretas, todas completamente pretas. Ele achou que era problema na câmera. Testou ali mesmo em outro túmulo. Funcionou. Voltou pro túmulo dos Fonseca preta de novo.

Tentou com outra câmera que ele tinha. Mesma coisa. Ele desistiu. Foi embora meio sem acreditar. E tem os que não sentem nada, vários. Teve um grupo de estudantes de história que veio aqui fazer um trabalho sobre o cemitério. Passaram horas na área Q. Mediram, fotografaram, anotaram tudo.

Nenhum deles sentiu nada de estranho. Para eles era só mais um túmulo antigo. Eu fico pensando nisso. Por quê? Porque algumas pessoas sentem e outras não? Eu tenho uma teoria, não sei se tá certa, mas é o que eu acho. Algumas pessoas são mais sensíveis, sei lá para quê, para energia, para essas coisas que a gente não entende. Ou talvez, talvez seja psicológico mesmo.

A pessoa já vem sabendo da história, já vem com medo e aí cria as coisas na cabeça. Eu sinceramente não sei. O que eu sei é que eu senti. Seu Mário sentiu, dona Aparecida sentiu, Josué sentiu e várias outras pessoas ao longo desses 50 anos sentiram. Pode ser sugestão, pode. Pode ser medo criando coisas na nossa cabeça, pode. Mas também pode ser real.

Essa é a parte que me deixa sem dormir até hoje, porque eu não consigo explicar tudo que eu senti, tudo que eu vi, aquelas vozes, aquele mal-estar, aquelas imagens na minha cabeça. Foi real demais para ser só imaginação. Semana passada aconteceu uma coisa. Eu tava passando pelo túmulo meio da tarde.

Ia só passar reto, mas parei porque tinha desenhos de novo na porta. desenhos de carvão, iguais aos de 2023, mas agora tinha oito figuras. Antes eram sete, agora são oito. O desenho era tosco, de carvão, mas a oitava figura estava virada para fora do círculo e ela não tinha o traço de criança. Parecia adulta. Estava na posição que eu estava deitado quando desmaiei naquela vez em 2023.

E ela não estava de mãos dadas com os outros. A oitava figura estava com as mãos estendidas em minha direção. Eu não sei o que isso significa. Não quero saber. Mas me deixou com um frio na espinha. Limpei os desenhos ou tentei, não saiu. No dia seguinte ainda tava lá. Eu trabalho aqui até hoje. Tenho 52 anos. Tô velho já para procurar outro emprego.

E sinceramente eu meio que me acostumei com o cemitério, com a morte, com aquele túmulo. Eu passo por ele quase todo dia. Às vezes não sinto nada. Às vezes sinto aquela pressão no peito de novo. Aprendi a conviver. [música] Mas tem dias que eu olho para aquele túmulo e penso: “O que realmente tá ali dentro? Só sete corpos enterrados há 50 anos ou tem algo mais? Eu não tenho resposta. Ninguém tem.

Talvez nunca ninguém tenha. Mas se você vier visitar Maringá aqui no Paraná e vier conhecer nosso cemitério, você vai ver o túmulo da família Fonseca na área Q, lote 13. Você pode passar por ele e não sentir nada. Pode achar que é tudo história, lenda urbana. E talvez você tenha razão, talvez seja tudo na nossa cabeça mesmo.

Mas se você for uma daquelas pessoas sensíveis, daquelas que sente essas coisas, você vai entender porque a gente tem medo daquele lugar. Você vai entender que nem tudo nesse mundo tem explicação. E o que às vezes os mortos não descansam tão em paz quanto a gente gostaria. O túmulo da família Fonseca tá lá, vai continuar lá. E o que quer que esteja dentro dele também vai continuar lá esperando, talvez esperando por nada ou talvez esperando por alguém. Eu não sei.

Mas eu sei que eu vou continuar trabalhando aqui, convivendo com esse mistério, porque algumas perguntas a gente nunca vai ter resposta. E talvez seja melhor assim. M.