Meu nome é Sofia e eu tenho 18 anos. Ou tinha quando tudo isso aconteceu. Eu não sei nem por onde começar, mas acho que vocês já conhecem o jeito que as coisas desmoronam, né? Quando a vida te arranca de tudo que você conhece e te joga num lugar que parece sugar sua alma. É isso que eu quero contar.

Não é uma história fácil e eu não vou fingir que é. Então se preparem porque o que vem a seguir, bom, é pesado, é real e é meu. Eu cresci na cidade, sabe? Barulho, luzes, amigos, Wi-Fi, tudo isso que faz a vida apecer viva. Minha rotina era escola, rolês no shopping, conversas no grupo do WhatsApp até de madrugada.

Mas aí do nada meu pai conseguiu um emprego novo, gerenciando uma fazenda no meio do nada. Minha mãe, que sempre teve esse sonho bobo de viver no campo, achou que era a chance perfeita. Eles nem perguntaram o que eu achava. Simplesmente arrumaram as malas e lá fomos nós para uma casa velha com cheiro de madeira úmida, cercada de mato e silêncio.

Silêncio. Esse era o pior. Chegar naquela fazenda foi como ser jogada num buraco, sem internet decente, sem sinal no celular, sem ninguém para conversar. Meus amigos ficaram na cidade a quilômetros de distância, vivendo a vida que eu amava. Eu tentava mandar mensagem, mas a conexão caía. Tentava ligar, mas a ligação não completava.

Aos poucos, eles pararam de responder: “Eu não os culpo. Quem quer ficar falando com uma garota que agora vive no fim do mundo?” A solidão era como uma pedra no peito. Eu acordava, tomava café com meus pais, que fingiam que estava tudo ótimo, e depois nada, só o barulho do vento e o latido de um cachorro que nem era nosso.

Eu passava horas olhando pro teto, tentando lembrar como era rir com meus amigos, mas o vazio só crescia. Foi numa dessas tardes caminhando sem rumo para fugir da monotonia que eu vi ele. Pegaso. Um cavalo preto com crina longa e olhos que pareciam engolir a luz. Ele estava preso num cercado velho, meio afastado da casa.

Não sei explicar, mas quando olhei para ele, senti um arrepio. Não era medo. Era como se ele me conhecesse, como se soubesse exatamente como eu me sentia. preso, sozinho, esquecido. Meu pai me contou a história do Pegaso numa noite, enquanto comíamos um ensopado sem graça. Ele disse que o cavalo era uma lenda por ali.

Anos atrás, Pegaso era um campeão de ripismo, ganhava tudo. Mas teve um acidente feio. O cavaleiro caiu, quebrou o pescoço e ninguém nunca soube direito o que aconteceu. Depois disso, Pegaso mudou. Ficou arisco, agressivo. Ninguém conseguia chegar perto. O dono da fazenda, que agora era o chefe do meu pai, deixou o cavalo ali como se fosse um troféu quebrado.

Ele é perigoso, Sofia. Fica longe. Meu pai avisou. Mas eu não ouvi. Eu comecei a visitar o Pegaso todos os dias. Primeiro só ficava olhando de longe. Depois cheguei mais perto. Ele não se mexia. só me encarava com aqueles olhos profundos. Um dia levei uma maçã. Ele comeu da minha mão e eu juro, senti ele tremendo.

Ou talvez fosse eu. Comecei a falar com ele. Contava tudo. Como eu odiava aquele lugar, como sentia a falta dos meus amigos, como às vezes queria sumir. Ele não respondia claro, mas parecia ouvir. E pela primeira vez desde que cheguei, eu não me sentia tão sozinha. As semanas foram passando e o Pegaso virou meu mundo.

Eu passava horas no cercado escovando ele, falando com ele. Às vezes eu sentia ele tão perto que era como se a gente se entendesse sem palavras. Eu sei que parece loucura, mas tinha algo nos olhos dele. Uma dor que parecia a minha, uma raiva, uma vontade de ser livre, mas estar preso. Eu comecei a sonhar com ele. Nos sonhos a gente corria juntos, o vento batendo no rosto, o mundo inteiro sumindo.

Mas tinha algo estranho nesses sonhos. Eles eram intensos, quase reais. Eu acordava suando com o coração disparado, sentindo ele mesmo estando tão longe. Eu sabia que as pessoas iam achar esquisito. Minha mãe já tinha começado a perguntar porque eu passava tanto tempo no cercado. Você tá obsecada por esse cavalo, Sofia? Não é saudável? Ela dizia.

Meu pai só balançava a cabeça como se eu fosse uma criança birrenta. Mas eu não ligava. Pegaso era o único que me entendia. ou pelo menos era o que eu achava. Um dia tomei coragem. Eu queria montar ele. Todo mundo dizia que era loucura, que Pegaso ia me jogar no chão, que eu podia me machucar, mas eu sentia que ele não faria isso, não comigo.

Então, numa tarde em que meus pais estavam ocupados, levei a cela velha do estábulo e montei. Ele ficou parado, como se estivesse esperando por mim. Quando começamos a trotar, foi como se o mundo parasse. O vento, o som dos cascos, o calor do corpo dele contra o meu, era liberdade, era vida.

Eu fechei os olhos e deixei ele me levar. E pela primeira vez em meses, eu sorri. Depois disso, montar pegaso virou minha fuga. Cada galope era como uma confissão. Eu contava para ele coisas que nunca disse para ninguém. sobre o vazio que eu sentia, sobre a raiva dos meus pais por terem me arrancado da minha vida, sobre o medo de nunca mais ser feliz.

E às vezes eu falava coisas que nem eu entendia, palavras que saíam sem pensar, carregadas de um peso que eu não sabia explicar, mas nem tudo era tão simples. Uma noite, minha mãe me encontrou no estábulo. Eu estava lá escovando o pegaso, falando com ele. Ela ficou parada na porta, me encarando. O silêncio dela era pior que qualquer grito.

“O que você tá fazendo, Sofia?”, Ela perguntou, a voz tremendo. Eu não respondi. Não sabia o que dizer. Ela deu um passo para dentro e a luz da lanterna iluminou meu rosto. Eu vi algo nos olhos dela. Não era só preocupação, era medo. Nojo, talvez. Ela virou as costas e saiu sem dizer mais nada.

O som da porta batendo ecoou no meu peito como um trovão. Depois disso, tudo mudou. Minha mãe mal falava comigo. Meu pai parecia desconfortável, como se soubesse de algo que não queria admitir. E eu eu me sentia exposta, como se tivessem arrancado uma parte de mim e jogado na luz, mas o pior ainda estava por vir.

Eu preciso contar a verdade agora. Vocês devem estar pensando coisas horríveis sobre mim, sobre o Pegaso. E eu entendo a forma como eu falava dele, os sonhos, os momentos no estábulo. Parecia errado, né? Mas não era o que vocês estão pensando. Não era o cavalo. Nunca foi o cavalo. A verdade é que eu não estava sozinha no estábulo naquela noite.

Não era só o Pegaso, era o meu irmão, o Lucas. Ele tinha voltado para casa sem contar para ninguém. Lucas, que tinha brigado feio com meus pais dois anos antes e jurado que nunca mais pisaria naquela casa. Ele apareceu do nada numa noite chuvosa e me encontrou no cercado. Disse que precisava conversar, que estava fugindo de problemas na cidade e eu eu estava tão desesperada por alguém que me entendesse que deixei ele ficar.

A gente começou a se encontrar às escondidas no estábulo tarde da noite com o Pegaso como alibe. Era só conversa no começo. Ele me ouvia, me fazia rir, me lembrava de como era ter alguém por perto. Mas as coisas mudaram, os olhares ficaram mais longos, as conversas mais intensas e numa noite aconteceu: “Não vou descrever porque ainda me dá vergonha”.

Mas foi real, foi errado e foi como se a gente tivesse cruzado uma linha que nunca deveria ter sido tocada. Quando minha mãe me encontrou no estábulo, não era o Pegas o que ela viu, era eu e o Lucas. Ela não disse nada na hora, mas o silêncio dela era um grito. No dia seguinte, ela confrontou a gente. Eu nunca vi minha mãe daquele jeito.

Ela tremia, chorava, gritava. Meu pai ficou mudo, como se o mundo tivesse desabado. Lucas foi embora no mesmo dia, não sei para onde. Ele não olhou para trás e eu não sei se algum dia vou vê-lo de novo. Eu fiquei, mas não era mais a mesma. A casa virou um túmulo. Minha mãe mal olhava para mim.

Meu pai fingia que nada tinha acontecido, mas eu via a decepção nos olhos dele e o Pegaso. Ele ainda estava lá no cercado, me olhando como se soubesse de tudo. Ele era só um espelho no fim das contas, um reflexo da minha dor, da minha culpa, do monstro que eu tinha me tornado. Às vezes, o que parece absurdo ainda não é o pior.

Eu carrego essa história como uma cicatriz. Não conto para ninguém, mas agora vocês sabem o que eu fiz, o que eu senti, o que eu destruí. Não peço perdão porque não acho que mereço. Só peço que vocês pensem antes de julgar, porque às vezes a solidão faz a gente buscar amor nos lugares mais errados.

Depois que o Lucas foi embora, a casa virou um vazio que engolia a gente. Minha mãe não falava comigo. Não era só raiva, era como se eu tivesse virado uma estranha. Ela passava os dias limpando a casa, cozinhando, cuidando do jardim, mas tudo mecânico, como se fosse um robô. Às vezes eu pegava ela me encarando, com os olhos cheios de lágrimas que ela engolia antes de virar o rosto. Meu pai era pior.

Ele fingia que estava tudo bem, fazia piada no café da manhã, perguntava como tava a escola, mesmo sabendo que eu nem ia mais, porque a escola mais próxima ficava a 2 horas de carro. Mas quando ele achava que eu não estava olhando, eu via a decepção. Era como se ele tivesse perdido a filha que conhecia. Eu queria gritar, pedir perdão, explicar que eu não sabia como tinha chegado aquele ponto.

Mas como explicar algo que nem eu entendia? O que aconteceu com o Lucas não foi planejado, não foi algo que eu quis. Foi como se a solidão tivesse cavado um buraco tão fundo que eu agarrei a primeira coisa que parecia amor. Mesmo sendo errado, mesmo sendo ele. Eu parei de visitar o Pegaso por um tempo. Não conseguia olhar para ele sem lembrar do estábulo, do Lucas, da minha mãe na porta.

Mas a verdade é que eu sentia falta dele, não do cavalo exatamente, mas do que ele representava, daquele silêncio que não julgava. Então, numa noite que eu não aguentava mais o peso da casa, fui até o cercado. Ele estava lá, como sempre, com aqueles olhos que pareciam enxergar minha alma. Sentei no chão, encostada na cerca, e chorei.

Chorei tudo que estava preso e o pegaso. Ele só ficou ali quieto, como se soubesse que eu precisava disso. Foi aí que eu comecei a perceber que o cavalo não era o problema. Ele nunca foi. O problema estava em mim, no que eu tinha feito, no que eu tinha permitido e pior, no que eu ainda sentia. Porque por mais que doesse admitir, uma parte de mim ainda pensava no Lucas.

Não era amor, não era desejo, era saudade. Saudade de alguém que me via, que me ouvia, que me fazia sentir viva. E isso era o que mais me assustava. As semanas viraram meses e a rotina na fazenda continuou me sufocando. Mas algo novo começou a acontecer. Minha mãe, que tinha passado tanto tempo em silêncio, começou a agir estranho.

Ela saía de casa à noite, dizendo que ia respirar um pouco. Voltava tarde com o cabelo bagunçado e um olhar que eu não reconhecia. Meu pai parecia não notar, ou talvez não quisesse notar, mas eu via e comecei a desconfiar. Uma noite eu a segui. Não sei o que me deu, mas eu precisava saber. Esperei ela sair, peguei uma lanterna e fui atrás, mantendo distância.

Ela caminhou até o outro lado da fazenda, onde ficava o galpão dos trabalhadores. Lá eu vi ela entrar e pela janela vi algo que me fez gelar. Ela tava com o capataz, o seu João. Eles estavam abraçados, rindo baixo, como se fossem amantes. Minha mãe, que tinha me julgado, que tinha me olhado com nojo, estava traindo meu pai. Eu voltei para casa tremendo.

Não sabia o que sentir. Raiva, tristeza, alívio, porque agora ela não podia mais me apontar o dedo. Eu não contei pro meu pai. Não podia. Não depois de tudo que eu tinha feito, mas aquilo mudou algo em mim. Comecei a perceber que ninguém naquela casa era perfeito, que todos nós tínhamos segredos, monstros escondidos.

Um dia, minha mãe me chamou para conversar. Era a primeira vez em meses que ela me olhava nos olhos. Sentamos na varanda e ela começou a falar com a voz baixa, quase um sussurro. Sofia, eu sei que você me viu com o João. Eu congelei. Não esperava que ela soubesse. Antes que eu pudesse responder, ela continuou.

Eu não sou uma boa mãe, não sou uma boa esposa, mas eu tava tão perdida, tão sozinha. Ele me fez sentir algo de novo. Eu queria gritar que ela não tinha direito de se justificar, que ela tinha me destruído por algo que, no fundo, não era tão diferente do que ela estava fazendo, mas eu só fiquei quieta ouvindo.

E então ela disse algo que mudou tudo. Eu sei que você e o Lucas não foi só culpa sua. Ele sempre foi problemático, sempre manipulou as pessoas. Eu devia ter protegido você. Aquilo me quebrou. Pela primeira vez eu vi minha mãe não como a mulher que me julgou, mas como alguém tão perdido quanto eu. Alguém que também tinha caído num buraco e feito escolhas erradas.

Mas ao mesmo tempo ouvir ela falar do Lucas assim doía. Porque por mais que eu soubesse que o que fizemos era errado, uma parte de mim ainda o defendia, ainda o queria por perto. Depois daquela conversa, as coisas não melhoraram. Pelo contrário, meu pai descobriu sobre o João. Não sei como, mas ele soube. Uma noite, ele chegou em casa com os olhos vermelhos, segurando uma garrafa de cachaça.

Gritou com minha mãe, chamou ela de tudo que é nome. Eu fiquei trancada no quarto, ouvindo os berros, os pratos quebrando. No dia seguinte, ele anunciou que ia embora. Disse que não aguentava mais aquela família, aquele lugar. e foi, pegou o carro e sumiu. Minha mãe ficou destruída, passava os dias na cama chorando e eu eu me sentia culpada, não só pelo que fiz com o Lucas, mas por não ter feito nada quando soube do João, por ter deixado tudo chegar àquele ponto.

A fazenda, que já era um túmulo, virou um pesadelo. Eu voltei pro Pegaso. Era o único lugar onde eu ainda encontrava paz. Monitava ele todos os dias. galopando pelos campos até sentir o vento queimar meu rosto. Mas mesmo ali a culpa me seguia. Eu pensava no Lucas, na minha mãe, no meu pai. Pensava em como tudo tinha desmoronado e pior, pensava em como uma parte de mim ainda queria fugir.

Fugir com o Lucas, começar de novo, mesmo sabendo que era impossível. Uma noite recebi uma mensagem. Era ele. Não sei como consegui o meu número, mas lá tava no celular que eu mal usava. Sofia, eu tô na cidade. Preciso te ver. Meu coração disparou. Eu sabia que não podia. Sabia que era errado, mas a ideia de vê-lo, de sentir ele de novo, era mais forte que eu.

Quando recebi aquela mensagem do Lucas, meu mundo parou. Sofia, eu tô na cidade. Preciso te ver. Era como se o tempo não tivesse passado, como se todo o peso da culpa, da vergonha, do que aconteceu no estábulo fosse só um sonho ruim. Mas não era. E ainda assim, uma parte de mim queria correr até ele.

Queria sentir de novo aquele calor, aquela sensação de não estar sozinha, mesmo sabendo o quanto era errado. Eu não respondi na hora. Passei a noite inteira olhando pro celular com o coração na garganta. Minha mãe estava no quarto dela, trancada, como sempre desde que meu pai foi embora. A casa estava tão quieta que eu ouvia o barulho do vento lá fora, como se ele quisesse me dizer algo.

Fui até a janela e vi o cercado do Pegaso, lá longe, sob a luz da lua. Ele tava parado como se me esperasse, como se soubesse que eu estava prestes a fazer algo que não podia desfazer. No dia seguinte, tomei uma decisão. Escrevi pro Lucas: “Não posso, não vem”. Mas enquanto digitava, minha mão tremia. Eu sabia que não era forte o suficiente para manter ele longe.

E ele sabia disso também. Dois dias depois, ele apareceu. Era fim de tarde, o céu estava alaranjado e eu estava no cercado escovando o pegaso. Ouvi o som de um motor. Olhei pra estrada e vi um carro velho parando na entrada da fazenda. Meu estômago revirou. Era ele. Lucas desceu do carro com a mesma jaqueta de couro que usava antes de sumir, o cabelo bagunçado, o olhar que parecia atravessar a gente.

Ele não disse nada, só caminhou até o cercado e parou do outro lado da cerca. “Sofia”, ele disse com aquela voz que parecia me puxar para dentro dele. “Você não pode fugir de mim para sempre.” Eu queria gritar, mandar ele embora, dizer que ele tinha destruído tudo, mas em vez disso fiquei parada com a escova na mão, sentindo o pegaso bufar ao meu lado.

O cavalo estava inquieto, como se sentisse o que estava acontecendo. “Você não devia estar aqui”, consegui dizer, mas minha voz saiu fraca, quase um sussurro. Ele deu um sorriso torto daquele jeito que sempre me fazia derreter. E você devia estar aqui trancada nesse fim de mundo. Isso não é você, Sofia. Você tá morrendo aqui.

Ele tava certo e isso era o que mais doía. Eu tava morrendo não só por causa da fazenda, da solidão da minha mãe ou do meu pai, mas por causa dele, por causa do que a gente tinha feito. E ainda assim ele estava ali me puxando de volta pro abismo. A gente conversou por horas, escondidos no estábulo, como antes.

Ele me contou que estava vivendo na cidade, trabalhando em bicos, tentando se virar. disse que sentia minha falta, que não parava de pensar em mim. Cada palavra era como uma faca, porque eu sabia que ele não estava mentindo, mas também sabia que ele não era bom para mim. Nunca foi. Lucas sempre teve esse jeito de fazer você se sentir especial, mas também de te arrastar pro fundo com ele.

“Vem comigo”, ele disse, segurando minha mão. “A gente pode começar de novo, longe disso tudo, longe deles.” Eu queria dizer sim, queria jogar tudo pro alto e fugir. Mas ao mesmo tempo eu via o rosto da minha mãe, o colapso dela, o vazio que ficou depois que meu pai foi embora. Eu via o Pegaso, que me ensinou o que era liberdade, mas também me mostrou o peso das escolhas.

Não posso eu disse, puxando a mão. Não é certo, Lucas. A gente a gente não é certo. Ele riu. Mas não era um riso feliz. Era amargo, como se soubesse que eu tava certa, mas não quisesse admitir. Você acha que eles são melhores que a gente? Sua mãe que tá traindo seu pai. Seu pai que abandonou vocês. Eles são tão podres quanto nós, Sofia.

Aquilo me acertou como um soco, porque no fundo eu sabia que ele tava certo. Minha mãe com o João, meu pai que sumiu sem olhar para trás. Ninguém naquela família era inocente, mas isso não tornava o que a gente fez menos errado. Não apagava a culpa que me comia viva. Naquela noite, ele ficou, dormiu no estábulo num canto com cobertores velhos.

Eu não contei pra minha mãe, não podia. Ela tava tão quebrada que eu tinha medo do que ia acontecer se soubesse que o Lucas estava de volta. Mas eu também não conseguia mandar ele embora. Cada vez que ele me olhava, eu sentia aquele puxão, aquela vontade de ceder. E numa noite eu cedi. Não vou entrar em detalhes.

Não porque eu tenha vergonha, embora eu tenha, mas porque não quero que isso vire o foco. O que aconteceu entre mim e o Lucas no estábulo de novo foi como acender um fósforo numa casa cheia de gasolina. Era errado, era perigoso, mas era o único momento em que eu me sentia viva. E ao mesmo tempo, cada toque, cada palavra me fazia odiar mais a mim mesma.

O inevitável aconteceu. Minha mãe descobriu. Não sei como, mas ela sempre soube das coisas. Talvez tenha ouvido algo, talvez tenha nos seguido. Mas numa manhã ela me puxou pro canto da cozinha e disse com a voz fria como gelo. Ele tá aqui, não tá no estábulo? Eu não respondi, não precisava. Ela viu tudo nos meus olhos e dessa vez ela não gritou, não chorou, só me olhou com uma tristeza tão profunda que eu senti meu coração rachar.

Você tá destruindo a gente, Sofia, ela disse. E tá se destruindo também. Ela chamou o seu João, o capataz, e mandou ele tirar o Lucas da fazenda. Eu ouvi os gritos do Lucas enquanto ele era arrastado pro carro. Ele xingava, dizia que ia voltar, que não ia me deixar, mas ele foi embora de novo.

E dessa vez eu sabia que era para sempre. Minha mãe e eu nunca mais falamos sobre o Lucas, nem sobre o João, nem sobre meu pai. A fazenda continuou sendo nosso túmulo, mas agora era só nós duas. Ela tentou se aproximar, me chamar para conversar, mas eu não conseguia. Cada palavra dela era um lembrete do que eu tinha feito, do que ela tinha feito, do que nossa família tinha virado.

Eu voltei pro Pegaso. Ele ainda estava lá, como sempre me esperando. Mas agora, quando eu montava, não sentia mais liberdade, sentia peso. Cada galope era uma lembrança do que eu tinha perdido, do que eu tinha destruído. O cavalo que um dia foi meu espelho, agora era só um lembrete de que eu não podia fugir de mim mesma.

Hoje eu ainda tô aqui na fazenda, na solidão. Minha mãe e eu vivemos como fantasmas, dividindo a mesma casa, mas nunca realmente juntas. Às vezes eu penso no Lucas, onde ele tá, o que tá fazendo. Penso no meu pai, se ele tá feliz em algum lugar. Penso na garota que eu era antes de tudo isso, antes da fazenda, antes do Pegaso, antes do estábulo.

Mas essa garota não existe mais. O que eu aprendi, gente, é que às vezes o monstro não tá lá fora, não tá num cavalo, num estábulo, numa pessoa, tá dentro da gente. E quando ele acorda, não tem como voltar atrás. Às vezes, o que parece absurdo ainda não é o pior. O pior é carregar isso para sempre. M.